2 - BRIAN L. WEISS, M.D.



                                    http://livroespirita.4shared.com/




                                    DESENVOLVIMENTO

                                      PESSOAL
                      MUITAS VIDAS, MUITOS MESTRES -       Brian L. Weiss
                      S   O AMOR  REAL -    Brian L. Weiss
                      O PASSADO CURA -     Brian L. Weiss
                      A DIVINA SABEDORIA DOS MESTRES -       Brian L. Weiss
                      VISUALIZAO CRIATIVA -        Shakti Gawain
                      VIVENDO NA Luz      - Shakti Gawain
                      A VERDADEIRA PROSPERIDADE         -Shakti Gawain
                      Os QUATRO NVEIS DA CURA -       Shakti Gawain
                      Tu d o PODE SER CURADO - Sir      Martin Brofman
                      MELHORE A Sua      Viso  Sir Martin Brofman
                      MANUAL DE REIKI -     Walter Lbeck
                      GOSTE DE SI -   Lus Martins Simes
                      SIM, P o d e s SER FELIZ -   Richard Carlson
                      O CAMINHO PARA A SOBRIEDADE -        Bert Pluymen
                      LIMA CHAVE PARA O REINO DOS CUS -       Adrian B. Smith
                      MT - MEDITAO TRANSCENDENTAL DE MAHARISHI MAHESH YOGI -       Robert Roth
                      QUEM AMA NO ADOECE -          Marco Aurlio Dias da Silva
                      MILAGRES DA CURA PRNICA -        Choa Kok Sui
                      CULTIVE A SUA INTELIGNCIA EMOCIONAL -         Daniel Chabot
                      A MAGIA DO PRAZER -      Daniel Chabot
                      REIKI - O CAMINHO DO CORAO -       Upanishad K. Kessler
                      O QuE A Tua DOENA TE QUER DIZER -       Kurt Tepperwein
                      O To q u e DA CURA - Burmeister      com Tom Monte


                                         OBRAS DO AUTOR
              MUITAS VIDAS, MUITOS MESTRES (Many Lives, Many Masters,
                     Simon & Schuster, 1989)

              O PASSADO CURA A Terapia Atravs de Vidas Passadas (Through
                      Time finto Healing, Simon & Schuster, 1993)


            S O AMOR  REAL A Histria do Reencontro de Almas Gmeas (Only Love
                                  is Real, Warner Books, Inc., 1997)



             A DIVINA SABEDORIA DOS MESTRES Um Guia Para a Felicidade,
             Alegria e Paz Interior (Messages From the Masters, Warner Books,
                            Inc., 2000)
                                                                     S O AMOR  REAL - 3




AGRADECIMENTOS
     Os meus agradecimentos a Carole, Jordan e Amy pelo constante amor e apoio.
     O meu mais profundo reconhecimento vai para Joann Davis, a minha editora na
Warner Books, pelo seu encorajamento, viso e sabedoria. Ela  a melhor.
     Estou em dvida para com Joni Evans, extraordinria agente, pela sua energia e
entusiasmo sem fronteiras.
     E, finalmente, a minha gratido vai para todos os meus pacientes e participantes
dos workshops que tm partilhado as suas vidas comigo.

NOTA AO LEITOR
      A confidencialidade entre o psiquiatra e o seu paciente  um firme e respeitado
princpio da tica psiquitrica. Os pacientes mencionados neste livro autorizaram-me a
escrever as suas histrias verdadeiras. Apenas nomes e outros pormenores de identificao
foram alterados para proteger a sua privacidade. As suas histrias so as verdadeiras e no
foram de todo modificadas.
4 - BRIAN L. WEISS, M.D.




                                                            PREFCIO
                                              A alma do Homem  como a gua;
                                                             Dos Cus provm
                                                          Para os Cus ascende
                                                       E depois retorna  Terra,
                                                        Para sempre alternando.
                                                                      GOETHE


     Pouco antes da publicao do meu primeiro livro, Muitas Vidas,
Muitos Mestres, visitei o dono de uma livraria local para averiguar se
ele o tinha encomendado. Verificmos no seu computador. "Quatro
cpias" disse-me. "Quer encomendar uma?"
     No estava muito seguro de que as vendas do livro fossem
alguma vez atingir a modesta tiragem decidida pelo editor. No fim de
contas, era um livro bastante estranho para ter sido escrito por um
psiquiatra respeitado. O livro descreve a histria verdadeira de uma
jovem paciente minha cuja terapia de vidas passadas alterou
dramaticamente as nossas vidas. No entanto, sabia que os meus
amigos, vizinhos e, certamente, os meus familiares, comprariam mais
que quatro cpias, mesmo que o livro no se vendesse em mais lugar
algum do pas.
     "Por favor" disse-lhe. "Os meus amigos, alguns dos meus doentes
e outras pessoas que conheo viro  procura do meu livro. Poderia
encomendar mais?"
     Tive que garantir pessoalmente a centena de livros que ele,
relutantemente, acedeu em encomendar.
     Para meu enorme espanto, o livro tornou-se num best-seller
internacional com mais de dois milhes de cpias impressas, tendo
sido traduzido para mais de vinte idiomas. A minha vida deu, mais
uma vez, uma reviravolta inesperada.
     Depois de me ter licenciado com distino na Universidade de
Colmbia e de ter completado o meu curso na Faculdade de
Medicina da Universidade de Yale, tambm fiz um estgio como
interno nos hospitais de formao da Universidade de Nova Iorque
e fui psiquiatra residente em Yale. Depois fui professor nas
Faculdades de Medicina das Universidades de Pittsburgh e Miami.
     Nos onze anos seguintes, fui Director do Departamento de
Psiquiatria no Mount Sinai Medical Center em Miami. Escrevera
muitos artigos e estudos cientficos. Estava no topo de uma carreira
acadmica.
     Catherine, a jovem paciente descrita no meu primeiro livro,
entrou ento no meu gabinete em Mount Sinai. As suas memrias
detalhadas de vidas passadas, nas quais eu inicialmente no
acreditava, e a sua capacidade para transmitir mensagens
transcendentes quando em estado de transe hipntico, virou a
                                                    S O AMOR  REAL - 5




minha vida de pernas para o ar. A minha viso do mundo alterou-se
radicalmente.
     Depois de Catherine, muitos mais paciente me procuraram
para terapia por regresso a vidas passadas. Pessoas com sintomas
resistentes a tratamentos e psicoterapias da medicina tradicional
estavam a conquistar a sua cura.
     Atravs do Tempo*, o meu segundo livro, descreve o que tenho
aprendido acerca do potencial de cura da terapia por regresso a
vidas passadas. O livro est cheio de histrias verdadeiras de casos
reais.
     A mais intrigante de todas encontra-se em S o Amor  Real, o
meu terceiro livro. Este fala de almas gmeas, pessoas que esto
eternamente ligadas pelo seu amor e se reencontram
repetidamente, vida aps vida.
     A forma como encontramos e reconhecemos as nossas almas
gmeas, e as decises que ento temos que tomar, esto entre os
momentos mais importantes e comoventes que transformam a
nossa vida.
     O destino dita o encontro entre almas gmeas. Encontr-las-
emos. Mas o que decidimos fazer aps esse encontro cai no campo
da livre escolha. Uma escolha errada ou uma oportunidade
desperdiada pode conduzir a incrvel solido e sofrimento. A
escolha certa, uma oportunidade realizada, pode levar-nos a um
profundo estado de beatitude e felicidade.
     Elisabeth, uma bonita mulher do Midwest, iniciou terapia
comigo devido ao seu profundo desgosto e ansiedade aps a morte
da sua me. Tambm estava a ter problemas nas suas relaes
com os homens, escolhendo vencidos da vida, exploradores e
outros parceiros inadequados. Nunca encontrara o verdadeiro amor
em qualquer relao com um homem.
     Inicimos a jornada recuando a tempos distantes, com
resultados surpreendentes.
     Ao mesmo tempo que Elisabeth se submetia comigo  terapia
por regresso a vidas passadas, eu tambm estava a tratar o
Pedro, um simptico mexicano que tambm era presa de desgosto.
O seu irmo havia falecido recentemente num trgico acidente.
Para alm disto, problemas com a me e segredos relativos aos
seus dias de juventude pareciam conspirar contra ele.
     Pedro carregava um pesado fardo de desespero e de dvidas, e
no tinha ningum com quem partilhar os seus problemas. Apesar
de Elisabeth e Pedro fazerem terapia comigo durante o mesmo
perodo de tempo, nunca se conheceram, uma vez que as suas
consultas estavam marcadas para diferentes dias da semana. Nos
ltimos quinze anos, tratei com frequncia casais e famlias que

*
    A sair brevemente na Pergaminho.
6 - BRIAN L. WEISS, M.D.




descobriram os seus parceiros actuais e entes amados nas suas
vidas passadas. Algumas vezes fiz regredir casais que,
simultaneamente e pela primeira vez, se encontraram a interagir
na mesma vida passada. Estas revelaes so frequentemente
chocantes para o casal. Nunca tinham tido uma experincia
semelhante. No meu gabinete psiquitrico permanecem silenciosos
durante o desenrolar das cenas.  apenas mais tarde, aps
emergirem do estado relaxado e hipntico, que descobrem pela
primeira vez que estiveram a observar as mesmas cenas, sentindo
as mesmas emoes. E s ento que eu tambm me apercebo das
suas ligaes em vidas passadas. Mas com a Elisabeth e o Pedro
tudo se passou ao contrrio. As suas vidas, os seus tempos de vida,
estavam a desenrolar-se independentemente e separadamente, no
meu gabinete. Eles no se conheciam. Nunca se tinham
encontrado. Provinham de diferentes pases e culturas. Mesmo eu,
vendo-os separadamente e no tendo qualquer razo para
suspeitar da existncia de um elo entre eles, nunca suspeitei de
uma ligao. No entanto, ambos pareciam estar a descrever os
mesmos perodos de vidas passadas com uma semelhana de
pormenores e de emoes espantosa. Poderiam ter-se amado e
perdido um ao outro ao longo das vidas passadas? No incio,
nenhum de ns estava consciente do drama pungente que j
havia comeado a desenvolver-se na serenidade insuspeita do
meu gabinete.
     Fui o primeiro a descobrir a ligao entre ambos. Mas, e
agora? Deveria dizer-lhes? E se eu estivesse errado? E o respeito
pela confidencialidade paciente-mdico? E quanto  suas relaes
actuais? E quanto ao facto de interferir com o destino? E se uma
ligao na vida actual no estivesse nos seus planos ou nos seus
interesses? No iria uma nova relao eventualmente fracassada
minar tanto os benefcios teraputicos conquistados como a
confiana deles em mim? Durante os anos de faculdade e
subsequente prtica psiquitrica foi-me profundamente incutido o
princpio de que nunca deveria fazer nada que prejudicasse os
meus doentes. Quando em dvida, nunca se deve fazer nada que
lhes possa trazer qualquer dano. Tanto a Elisabeth como o Pedro
estavam a melhorar. Deveria simplesmente esquecer tudo e
deixar andar?
     Pedro estava a terminar a sua terapia e iria em breve deixar o
pas. Tinha de tomar uma deciso urgente.
     Nem todas as sesses com eles, particularmente as da
Elisabeth, esto includas neste livro, uma vez que algumas delas
no eram pertinentes para as suas histrias. Algumas foram
inteiramente dedicadas a psicoterapia tradicional e no incluram
hipnose ou regresso.
                                                                 S O AMOR  REAL - 7




     O que se segue  baseado em registos mdicos, transcries
de cassetes e na memria. Apenas nomes e pequenos pormenores
foram modificados para assegurar a confidencialidade.  uma
histria de destino e esperana.  uma histria que,
silenciosamente, ocorre todos os dias.
     Naquele dia, contudo, algum escutava.




 1
                                  Saibam, pois, que do grande silncio retornarei... No
                                  olvideis que para vs voltarei... Um breve instante, um
                             momento de descanso sobre o vento; e outra mulher me trar
                                                                               ao mundo.
                                                                         KAHLIL GIBRAN

     H    sempre algum especial para qualquer um de ns.
Frequentemente existem dois ou trs, ou mesmo quatro. Provm
de diferentes geraes. Viajam atravs dos oceanos do tempo e
das profundezas das dimenses celestiais para estarem
novamente connosco. Vm do outro lado, do Cu. Esto
diferentes, mas o seu corao reconhece-os. Corao esse que os
teve nos braos de que ento dispunha, nos desertos banhados
pelo luar no Egipto e nas plancies primitivas da Monglia.
Cavalgaram juntos nos exrcitos de um general - guerreiro
esquecido, e viveram juntos nas cavernas agora soterradas dos
Ancios. Esto unidos pela eternidade e nunca estaro ss.
     A sua cabea pode dizer: "Mas eu no o conheo." Mas o seu
corao sabe que no  assim.
     Ele pega-lhe na mo pela primeira vez, e a memria do seu
toque transcende o tempo e perturba profundamente todos os
tomos do seu ser. Ela olha-o nos olhos, e voc v nela uma alma
que foi sua companheira atravs dos sculos. O seu estmago
revira-se. Os seus braos ficam arrepiados. Tudo o que  exterior a
este momento perde importncia.
     Ele pode no reconhec-la, mesmo que finalmente se tenham
encontrado de novo, mesmo que voc o reconhea. Voc consegue
sentir o lao de unio. Consegue ver o potencial, o futuro. Mas ele no.
Os seus medos, o seu intelecto, os seus problemas mantm um vu
sobre os olhos do seu corao. Ele no a deixa ajud-lo a remover
esse vu. Voc lamenta-se e sofre, e ele segue o seu caminho. O
destino pode ser to volvel.
     Quando ambos se reconhecem, nenhum vulco poderia entrar em
erupo com mais paixo. A energia libertada  tremenda. O
reconhecimento das almas pode ser imediato. Um sentimento sbito
8 - BRIAN L. WEISS, M.D.




de familiaridade, a sensao de conhecer esta nova pessoa a uma
profundidade muito para alm daquela que a conscincia poderia
conhecer. A uma profundidade geralmente reservada aos familiares
mais ntimos. Ou ainda mais do que isso. Saber intuitivamente o que
dizer, como vo reagir. Um sentimento de segurana e confiana
muito maior que aquele que alguma vez poderia ser conquistado num
dia, numa semana ou num ms.
     O reconhecimento de almas pode tambm ser lento e subtil. Uma
alvorada gradual  medida que o vu  gentilmente removido. Nem
todos esto preparados para o reconhecimento imediato. H que dar
tempo ao tempo, e muita pacincia pode ser necessria para aquele
que v primeiro.
     Pode despertar para a presena de uma alma companheira
atravs de um olhar, um sonho, uma memria ou um sentimento.
Pode despertar pelo toque das suas mos ou dos seus lbios, e a sua
alma  reanimada de volta  vida plena.
     O toque que desperta pode ser o do seu filho, de um dos pais, de
um irmo ou de um verdadeiro amigo. Ou pode ser o seu amado,
procurando atravs dos sculos beij-la mais uma vez para relembr-
la de que esto juntos, sempre, para a eternidade.




2
                              A minha vida, tal como a vivi, muitas vezes me pareceu uma histria sem
                        princpio nem fim. Tinha a sensao de ser um fragmento histrico, um excerto
                          para o qual faltava o texto antecedente e subsequente. Facilmente imaginava
                      que podia ter vivido em sculos anteriores e a encontrara perguntas a que ainda
                        no estava pronto para responder; que eu tinha que renascer porque no tinha
                                                        cumprido a tarefa de que havia sido incumbido.
                                                                                          CARL JUNG



     Alta,  magra e atraente, com longos cabelos loiros, Elisabeth
tinha uns olhos azuis tristes com pequenas manchas cor de avel. A
melancolia dos seus olhos contrastava com o seu folgado fato azul
marinho enquanto nervosamente se sentava na ampla cadeira
reclinvel de cabedal branco do meu gabinete.
     Depois de ter lido Muitas Vidas, Muitos Mestres e de se ter
identificado a muitos nveis com Catherine, a herona do livro,
Elisabeth sentiu-se compelida a procurar-me em busca de ajuda.
     "Acho que no sei bem porque est aqui" comentei, quebrando o
impasse habitual do incio da terapia. Tinha olhado de relance para a
ficha informativa que todos os novos pacientes preenchem. Nome,
idade, referncias, principais queixas e sintomas. Elisabeth tinha
                                                    S O AMOR  REAL - 9




indicado desgosto, ansiedade e distrbios do sono como as suas
principais maleitas.  medida que comeou a falar, adicionei
mentalmente  sua lista "relacionamentos".
     "A minha vida  uma confuso", declarou. A sua histria
comeou a brotar, como se finalmente fosse seguro falar de tais
coisas. A presso interna que fazia jorrar o discurso era palpvel.
Apesar do drama presente na histria da sua vida e das emoes que
se percebiam, intensas, logo abaixo da superfcie, enquanto
discursava, Elisabeth tentava minimizar a sua importncia.
     "A minha histria no  de longe to dramtica quanto a de
Catherine", disse. "No haver nenhum livro a meu respeito." A sua
histria, dramtica ou no, continuou a fluir.
     Elisabeth era uma mulher de negcios bem sucedida, dona de
uma firma de contabilidade em Miami. Com 32 anos, tinha nascido e
sido criada no Minnesota rural. Cresceu numa grande quinta com os
pais, o irmo mais velho e muitos animais. O pai era um homem
estico, muito trabalhador, que tinha grandes dificuldades em
expressar as suas emoes. Quando as manifestava tomavam
geralmente a forma de raiva e ira. Perdia o controlo de si prprio e
descarregava impulsivamente na famlia, por vezes agredindo o filho.
Os abusos infligidos a Elisabeth eram apenas verbais, mas feriam-na
intensamente.
     No fundo do seu corao, Elisabeth ainda carregava esta ferida
de infncia. A sua auto-imagem havia sido danificada pelas crticas e
rejeies do pai. Uma dor profunda envolvia o seu corao. Sentia-se
enfraquecida e de alguma forma carente, e receava que outros,
especialmente homens, se apercebessem dos seus defeitos.
     Felizmente as exploses de temperamento do pai eram pouco
frequentes, e ele rapidamente se retirava para o seu implacvel e
austero isolamento que caracterizava a sua personalidade e
comportamento.
     A me de Elisabeth era uma mulher progressista e
independente. Desenvolveu a autoconfiana de Elisabeth mostrando-
se carinhosa e emocionalmente apoiante. Por causa das crianas e
dos tempos que ento corriam, escolheu permanecer na quinta e
tolerar relutantemente a rispidez e distanciamento emocional do
marido.
     "A minha me era como um anjo", continuou Elisabeth. "Sempre
presente, sempre preocupada, sacrificando-se sempre pelo bem-
estar dos filhos." Elisabeth, a mais nova, era a preferida da me.
     Tinha muitas boas memria da sua infncia. A melhor de todas
era a proximidade em relao  me, o amor especial que as unia e
que se manteve ao longo do tempo.
     Elisabeth cresceu, terminou a escola secundria e entrou para
uma faculdade em Miami, para a qual lhe tinham oferecido uma
generosa bolsa. Miami era, para ela, uma aventura extica e deixou-
10 - BRIAN L. WEISS, M.D.




se atrair para fora do frio Midwest. A me vivia e divertia-se com as
aventuras de Elisabeth. Eram as melhores das amigas, e embora
basicamente apenas comunicassem por telefone e pelo correio, a
relao me-filha manteve-se forte. Frias e feriados eram tempos
felizes para ambas, uma vez que. Elisabeth no perdia uma
oportunidade para voltar a casa.
     Durante algumas destas visitas, a me de Elisabeth mencionou
desejar retirar-se para o sul da Florida para estar perto dela. A quinta
da famlia era grande e cada vez mais difcil de gerir. Tinham
poupado uma quantia considervel em dinheiro, para o que tinha
tambm contribudo a frugalidade do pai. Elisabeth desejava viver de
novo com a me. Os seus contactos dirios no teriam de continuar a
ser feitos por telefone.
     Assim, Elisabeth manteve-se em Miami aps a faculdade. Fundou
a sua prpria firma de contabilidade, que crescia lentamente. A
competio era intensa, e o trabalho absorvia grande parte do seu
tempo. As relaes com os homens aumentavam o seu stress. Ento,
veio o desastre!
     Cerca de oito meses antes da primeira consulta comigo,
Elisabeth ficou devastada com a morte da me devida a um cancro
no pncreas.
     Elisabeth sentiu como se o seu corao tivesse sido
despedaado e arrancado pela morte da sua querida me. Estava a
ter grandes dificuldades em ultrapassar o seu desgosto. No
conseguia digeri-lo, aceit-lo, perceber porque  que tal desastre lhe
tinha acontecido.
     Elisabeth falou-me da corajosa batalha que a me travara contra
o cancro virulento que devastou o seu corpo.. O seu esprito e o seu
amor permaneceram intactos. Ambas sentiam uma tristeza profunda.
A separao fsica era inevitvel, aproximando-se lenta mas
inexoravelmente. O pai de Elisabeth, num sofrimento mudo, tornou-
se cada vez mais distante, envolvendo-se na sua solido. O irmo, a
viver na Califrnia com uma famlia recm-formada e um novo
negcio, manteve a distncia fsica. Elisabeth viajava para o
Minnesota tanto quanto podia.
     No tinha ningum com quem partilhar os seus medos e a sua
dor. No queria sobrecarregar a me moribunda mais do que fosse
necessrio. Assim, Elisabeth manteve-se fechada no seu desespero, e
os dias decorriam cada vez mais pesados.
     "Vou sentir tanto a tua falta... amo-te" disse-lhe a me. "A parte
mais difcil  deixar-te. No tenho medo de morrer. No tenho medo
do que me espera. S no queria deixar-te ainda."
      medida que ia ficando mais fraca, a fora com que se agarrava
 vida foi gradualmente diminuindo. A morte seria bem vinda para a
libertar da debilidade e da dor. E o ltimo dia chegou.
                                                      S O AMOR  REAL - 11




     A me de Elisabeth estava no hospital, o pequeno quarto cheio de
famlia e visitas. A sua respirao tornou-se irregular. Os tubos de
urina deixaram de drenar; os seus rins tinham parado de funcionar.
Entrava e saa do estado de conscincia. A certa altura Elisabeth
encontrou-se sozinha com a me. Nesse momento os olhos desta
abriram-se e recobrou a lucidez.
     "No te vou deixar", disse numa voz subitamente firme. "Amar-te-
ei para sempre!"
     Estas foram as ltimas palavras que Elisabeth ouviu da me, que
ento entrou em coma. A sua respirao tornou-se ainda mais
errtica, com longas paragens e sbitos e arquejantes reincios.
     Em breve morreria. Elisabeth sentiu um enorme e profundo vazio
no seu corao e na sua vida. Parecia que nunca mais poderia vir a
sentir-se inteira. Durante meses, chorou.
     Elisabeth sentia falta das frequentes conversas telefnicas com a
me. Tentou telefonar com maior frequncia ao pai, mas este
manteve-se fechado e pouco comunicativo. Os seus telefonemas
duravam apenas um ou dois minutos. Ele no tinha capacidade para
lhe dar carinho e apoio emocional. Ele tambm sofria e o seu
sofrimento isolava-o ainda mais. O irmo, na Califrnia, com a esposa
e duas crianas pequenas, tambm estava devastado pela morte da
me, mas estava ocupado com a sua famlia e carreira.
     O desgosto de Elisabeth comeou e evoluir para uma depresso
com sintomas cada vez mais significativos. Elisabeth estava a ter
problemas para dormir  noite. Tinha dificuldades em adormecer e
acordava demasiado cedo pela manh incapaz de voltar a dormir.
Perdeu o interesse pela comida e comeou a perder peso. Tinha uma
evidente falta de energia. Perdeu o entusiasmo nas relaes e a sua
capacidade para se concentrar estava seriamente afectada.
     Antes da morte da me, a ansiedade de Elisabeth provinha
basicamente de presses relativas ao trabalho, como as provocadas
por prazos de entrega e decises difceis. Por vezes, tambm se
mostrava ansiosa nas relaes com os homens, quanto  forma como
deveria agir e quanto s reaces deles.
     Os     nveis   de    ansiedade    de    Elisabeth    aumentaram
dramaticamente aps a morte da me. Tinha perdido a sua
conselheira e confidente diria, a sua amiga mais ntima. Tinha
perdido a sua principal fonte de orientao e apoio. Elisabeth sentia-se
desorientada, s,  deriva.
     Telefonou a marcar uma consulta.
     Elisabeth entrou no meu gabinete com a esperana de encontrar
uma vida passada na qual tivesse estado ao lado da me, ou de
contact-la atravs de uma experincia mstica. Em livros e palestras
tenho mencionado casos de pessoas em estados meditativos que tm
experimentado encontros msticos com entes amados. Elisabeth tinha
12 - BRIAN L. WEISS, M.D.




lido o meu primeiro livro, e parecia estar ao corrente da possibilidade
de tais experincias.
      medida que as pessoas se abrem  possibilidade, ou mesmo
probabilidade, da existncia de vida aps a morte do corpo fsico, da
continuao de uma conscincia aps a libertao do invlucro carnal,
comeam a ter mais frequentemente estas experincias msticas em
sonhos e noutros estados alterados de conscincia. Se tais encontros
so efectivamente reais  difcil de provar. Mas so encontros vvidos e
repletos de sentimento. Algumas vezes as pessoas conhecem
informaes, factos ou pormenores que eram apenas do
conhecimento do falecido. Estas revelaes resultantes de visitas
espirituais so difceis de atribuir apenas  imaginao. Acredito,
agora, que tal novo conhecimento  obtido, ou tais visitas ocorrem,
no porque as pessoas desejem que tal suceda, no porque o
necessitem, mas porque esta  a forma atravs da qual os contactos
so efectuados.
     Com     frequncia    as    mensagens     so    muito   similares,
especialmente nos sonhos: Estou bem. Sinto-me bem. Cuida-te. Amo-
te. Elisabeth esperava algum tipo de reencontro ou contacto com a
sua me. O seu corao desfeito necessitava de um blsamo que
amenizasse a dor constante. Durante esta primeira sesso, mais
alguma da sua histria foi emergindo. Elisabeth tinha sido casada por
um curto perodo de tempo com um empreiteiro local, que tinha duas
crianas de um casamento anterior. Apesar de no se encontrar
perdidamente apaixonada por esse homem, ele era boa pessoa, e ela
pensava que tal relao lhe iria trazer alguma estabilidade  sua vida.
Mas a paixo numa relao no pode ser artificialmente criada. Pode
existir respeito, pode existir compaixo, mas a qumica tem que surgir
desde o incio. Quando Elisabeth descobriu que o seu marido tinha
uma relao extraconjugal com algum que lhe dava mais paixo e
excitao, ela saiu relutantemente da relao. Estava triste pela
separao, e triste por deixar as duas crianas, mas no sofreu por
causa do divrcio. A perda da me tinha sido muito mais severa.
     Devido  sua beleza fsica, foi fcil para Elisabeth sair com
outros homens aps o divrcio. Mas tambm nenhuma dessas
relaes fez brotar uma fasca. Elisabeth comeou a duvidar
de si prpria, tentando encontrar em si a razo da sua
incapacidade em estabelecer boas relaes com homens. "O
que  que tenho de errado?" perguntava a si mesma. E a sua
auto-estima ia descendo pouco a pouco.
     As agresses psicolgicas que sofrera do pai durante a
infncia tinham deixado dolorosas feridas na sua alma. As
relaes falhadas com os homens como que esfregavam sal
em tais feridas.
     Iniciou uma relao com um professor de uma universidade no
muito distante, mas ele no conseguia estabelecer um compromisso
                                                                  S O AMOR  REAL - 13




com ela devido aos seus prprios medos. Apesar de existir uma
grande ternura e compreenso, e apesar de os dois possurem uma
muito boa comunicao, a incapacidade que este tinha de se
comprometer numa relao e de confiar nos seus sentimentos
condenou tal relao a um fim calmo e apagado.
     Uns meses depois, Elisabeth conheceu e comeou a sair com um
banqueiro bem sucedido. Sentia-se segura e protegida nesta relao
apesar de, mais uma vez, a qumica ser limitada. Ele, no entanto,
estava fortemente atrado por ela e ficava zangado e ciumento
quando ela no retribua a energia e o entusiasmo esperado. Ele
comeou a beber cada vez mais e tornou-se fisicamente violento.
Tambm esta relao Elisabeth abandonou.
     Desesperava silenciosamente com o receio de nunca vir a
conhecer um homem com o qual pudesse manter uma boa relao
ntima. Atirou-se ao trabalho, expandindo a firma, escudando-se atrs
dos nmeros, clculos e papeladas. As suas relaes consistiam
essencialmente em contactos de negcios. E embora de tempos a
tempos tivesse convites para sair, procedia de forma a desencorajar o
interesse antes que se tornasse em algo mais srio.
     Elisabeth tinha conscincia de que o seu relgio biolgico estava
a trabalhar, e mantinha ainda a esperana de encontrar algum dia o
homem certo, mas tinha perdido grande parte da sua autoconfiana.
      primeira sesso teraputica, dedicada a recolher informao da
sua histria, formular um diagnstico e uma abordagem teraputica e
lanar as sementes da confiana na nossa relao, havia terminado.
Decidi de momento no utilizar Prozac ou qualquer outro
antidepressivo. Apontaramos para uma cura e no apenas para um
tratamento dos sintomas.
     Na sesso seguinte, uma semana depois, iramos iniciar a rdua
viagem em conjunto aos tempos idos.


3                       Foi h tanto tempo! E, no entanto, sou ainda a mesma Margaret. S as
                          nossas vidas envelhecem. Estamos onde os sculos se contam como
                         segundos, e aps mil vidas os nossos olhos comeam a entreabrir-se.
                                                                           EUGENE O'NEIL

    Antes    das minhas experincias com Catherine nunca tinha
ouvido falar de terapia por regresso a vidas passadas. Tal no era
ensinado quando frequentava a Faculdade de Medicina de Yale, nem
em nenhum outro stio, vim a sab-lo.
     Posso ainda relembrar vividamente a primeira vez. Tinha dado
instrues a Catherine para viajar para trs no tempo, esperando
descobrir traumas infantis que tivessem sido reprimidos ou esquecidos
e que eu sentia que eram a causa dos seus sintomas de ansiedade e
depresso.
14 - BRIAN L. WEISS, M.D.




     Ela tinha j atingido um estado de transe hipntico profundo, para
o qual eu a tinha conduzido suavemente com a minha voz. A sua
ateno estava focada nas minhas instrues. Durante a sesso
teraputica da semana anterior, tnhamos utilizado pela primeira vez a
hipnose. Catherine tinha recordado vrios traumas de infncia com
uma emoo e um pormenor considerveis. Geralmente, em terapia,
quando traumas esquecidos so relembrados com as respectivas
emoes, num processo chamado catarse, os pacientes comeam a
melhorar.
     No entanto, os sintomas de Catherine continuavam graves, e eu
pressupus que tnhamos que descobrir ainda mais memrias de
infncia reprimidas. S ento ela melhoraria.
     Cuidadosamente fiz Catherine regredir at  idade de dois anos,
mas ela no recordou quaisquer memrias significativas.
     Dei-lhe instrues de forma clara e firme: "Regresse ao tempo
onde tm origem os seus sintomas." Fiquei tremendamente
espantado com a sua resposta.
     "Vejo degraus brancos que conduzem a um edifcio, um grande
edifcio branco com pilares, aberto na frente. No h portas. Eu uso
um vestido comprido... um vestido solto feito de um material
grosseiro. Uso tranas e o meu cabelo  comprido e loiro."
     O seu nome era Aronda, uma jovem mulher que tinha vivido h
cerca de quatro mil anos. Teria morrido subitamente numa cheia ou
num maremoto, que devastou a sua aldeia.
     "H ondas gigantescas que derrubam as rvores. No existe
qualquer lugar para onde se possa fugir. Est frio; a gua est
gelada. Tenho que salvar a minha beb, mas no consigo... a nica
coisa que consigo fazer  apert-la muito contra mim; a gua sufoca-
me. No consigo respirar, no consigo engolir... gua salgada. A
minha beb -me arrancada dos braos."
     Catherine arquejava e respirava com dificuldade durante esta
trgica recordao. De sbito o seu corpo relaxou completamente, e
a sua respirao tornou-se profunda e regular.
     "Vejo nuvens... A minha beb est comigo. E outras pessoas da
minha aldeia. Vejo o meu irmo."
     Ela repousava. Aquela vida tinha terminado. Apesar de nem ela
nem eu acreditarmos em vidas passadas, tnhamos sido
dramaticamente arrastados para uma experincia antiga.
     Incrivelmente, a sua fobia de uma vida inteira, de se engasgar ou
sufocar, virtualmente desapareceu aps esta sesso. Eu sabia que
apenas a imaginao ou a fantasia no podiam curar sintomas
crnicos to profundamente enraizados. Mas a recordao catrtica
podia.
     Semana atrs de semana, Catherine ia recordando mais vidas
passadas. Os seus sintomas haviam desaparecido. Estava curada,
                                                     S O AMOR  REAL - 15




sem a utilizao de quaisquer medicamentos. Juntos, tnhamos
descoberto o poder de cura da terapia por regresso.
     Devido ao meu cepticismo e ao meu rigoroso treino cientfico,
tinha dificuldade em aceitar o conceito de vidas passadas. Dois
factores, contudo, foram minando o meu cepticismo. Um, rpido e
altamente emocional, outro, gradual e intelectual.
     Numa sesso, Catherine tinha-se lembrado da sua morte numa
vida passada, morte causada por uma epidemia que devastou a terra
onde vivia. Ela estava ainda num profundo transe hipntico,
consciente de estar a flutuar sobre o seu prprio corpo, e atrada
para uma luz maravilhosa. Comeou a falar.
     "Dizem-me que h muitos deuses, porque Deus est em cada
um de ns."
     Comeou a contar-me pormenores muito ntimos acerca da vida
e morte do meu pai e do meu filho pequeno. Ambos tinham morrido
alguns anos antes, longe de Miami. Catherine, uma tcnica de
laboratrio no Mount Sinai Medical Center, no sabia nada acerca
deles. No havia ningum que lhe pudesse ter contado tais
pormenores. No existia nenhum stio onde ela pudesse ter ido
buscar essa informao. Que era espantosamente precisa! Senti-me
chocado e arrepiado  medida que ela ia contando estas verdades
secretas e ocultas.
     "Quem", perguntei-lhe, "quem  que est a? Quem  que lhe diz
essas coisas?"
     "Os Mestres", sussurrou, "foram os Espritos Mestres que me
disseram. Contaram que j vivi oitenta e seis vezes no estado fsico."
Mais tarde, Catherine descreveu os Mestres como almas altamente
evoludas, presentemente desencarnadas, que podiam falar comigo
atravs dela. Deles recebi informao e esclarecimentos profundos e
espectaculares.
     Catherine no possua conhecimentos bsicos de fsica ou
metafsica. Os conhecimentos que os Mestres transmitiam pareciam
ultrapassar de longe as suas capacidades. Ela no sabia nada acerca
de planos dimensionais e nveis vibratrios. No entanto, num estado
de transe profundo, ela descrevia estes complexos fenmenos. Para
alm disso, a beleza das suas palavras e pensamentos e as
implicaes filosficas das suas afirmaes transcendiam em muito as
suas capacidades quando consciente. Catherine nunca tinha falado
anteriormente de forma to potica e concisa.
     Enquanto a ouvia transmitir os conceitos dos Mestres, podia sentir
uma outra fora poderosa que lutava com a sua mente e com a sua
voz para traduzir tais pensamentos em palavras de forma que eu os
pudesse perceber.
     No decurso das restantes sesses teraputicas Catherine
retransmitiu muitas outras mensagens dos Mestres. Mensagens de
grande beleza acerca da vida e da morte, acerca de dimenses
16 - BRIAN L. WEISS, M.D.




espirituais e do objectivo das nossas vidas na Terra. O meu despertar
tinha comeado. O meu cepticismo estava a ser vencido.
     Lembro-me de pensar: "Uma vez que ela est certa a respeito do
meu pai e do meu filho, poder estar certa acerca de vidas passadas,
da reencarnao e da imortalidade da alma?"
     Penso que sim.
     Os Mestres tambm falaram de vidas passadas.
     "Escolhemos os momentos das nossas reencarnaes e quando
delas samos. Sabemos quando cumprimos o que nos foi dado a
cumprir no plano material. Sabemos quando o tempo se esgota, e
devemos saber quando aceitar a morte. Pois saberemos que nada
mais podemos extrair dessa vida. Quando tiver decorrido algum
tempo, quando j tivemos tempo para descansar e recarregar as
energias da nossa alma, -nos permitido escolher o momento do
nosso retorno ao estado fsico. Aqueles que hesitam, que no esto
seguros do seu regresso, podem perder a oportunidade que lhes foi
dada, uma oportunidade para realizar o que devem realizar quando
esto no seu estado fsico."
     Desde a minha experincia com a Catherine, fiz j regredir mais
de um milhar de pacientes a vidas passadas. Muito poucos, mesmo
muito poucos, conseguiram atingir o nvel dos Mestres. Apesar disso,
tenho observado progressos clnicos espectaculares na maioria destes
indivduos. Vi pacientes lembrarem-se do nome de uma pessoa
durante a recordao de uma vida passada recente e
subsequentemente encontrarem velhos registos que validavam a
existncia de tal pessoa, confirmando os detalhes da recordao.
Alguns encontraram mesmo as sepulturas dos seus corpos fsicos
anteriores.
     J observei alguns pacientes que durante a regresso conseguem
falar idiomas que nunca aprenderam, ou de que nunca ouviram falar
nas suas vidas actuais. Tambm estudei algumas crianas que
exibiam espontaneamente esta capacidade, que  conhecida por
xenoglossia.
     Tenho lido relatrios de outros cientistas que esto a praticar por
conta prpria a terapia por regresso a vidas passadas, e que relatam
resultados extremamente semelhantes aos meus. Como foi descrito
em pormenor no meu segundo livro, Atravs do Tempo, esta terapia
pode trazer benefcios a muitos tipos de pacientes, especialmente
aqueles com desordens emocionais e psicossomticas.
     A terapia por regresso  tambm extremamente til para o
reconhecimento e anulao de padres destrutivos recorrentes, como
a droga, o alcoolismo e problemas relacionais.
     Muitos dos meus pacientes recordam hbitos, traumas e relaes
abusivas que no s ocorreram em vidas passadas, mas que esto de
novo a ocorrer nas suas vidas actuais. Por exemplo, uma paciente
                                                               S O AMOR  REAL - 17




recordou um marido violento e abusivo numa vida passada que
ressurgiu no presente como o seu violento pai.
     Um casal em conflito descobriu que durante quatro vidas
passadas em comum se tentaram matar um ao outro. As histrias e
padres continuam assim sucessivamente.
     Quando o padro recorrente  reconhecido e as suas causas so
compreendidas, a recorrncia pode ser eliminada. No tem sentido
nenhum perpetuar a dor.
     Para que a tcnica e o processo de regresso funcionem no 
necessrio que o paciente ou o terapeuta acreditem em vidas
passadas. Mas se o experimentam, frequentemente ocorrem
progressos clnicos.
     De uma maneira geral ocorre um crescimento espiritual.
     Certa vez fiz regredir um sul-americano que recordou uma vida
passada cheia de sentimento de culpa, j que tinha feito parte da
equipa que ajudou ao desenvolvimento e, em ltima instncia, ao
lanamento da bomba atmica em Hiroxima de forma a terminar a II
Guerra Mundial. Sendo actualmente um radiologista num grande
hospital, este homem utiliza a radiao para salvar vidas e no
extermin-las. Ele , nesta vida, um homem bom, gentil e atencioso.
     Este  um exemplo de como uma alma pode evoluir e
transformar-se, mesmo tendo vidas passadas das mais ignbeis.  a
aprendizagem que  importante e no o juzo de valor. Ele aprendeu
com a sua vida na II Guerra Mundial, e aplicou as capacidades e
conhecimentos para ajudar outras almas na sua vida actual. A culpa
que sentiu na sua primeira vida passada no  importante.  apenas
importante aprender com o passado e no ruminar sobre ele e
cultivar o sentimento de culpa.
     Segundo uma sondagem do consrcio Today/CNN/Gallup em 18
de Dezembro de 1994, a crena na reencarnao est a aumentar
nos EUA, um pas que se tem mantido atrs de todos os outros a
este respeito. Vinte e sete por cento dos adultos nos EUA
acreditavam ento na reencarnao, enquanto que em 1990 eram
apenas vinte e um por cento.
     E mais. O nmero de indivduos que acredita na possibilidade de
contactar com os falecidos subiu de dezoito por cento em 1990 para
vinte e oito por cento em Dezembro de 1994. Noventa por cento cr
no Cu, e setenta e nove por cento acredita em milagres.
     Quase que posso ouvir os espritos a aplaudir.

4
                         A ideia da reencarnao envolve um confortante entendimento da
                              realidade por meio do qual o pensamento indiano ultrapassa
                                      dificuldades que confundem os pensadores europeus.
                                                                    ALBERT SCHWEITZER
18 - BRIAN L. WEISS, M.D.




     A   primeira experincia regressiva de Elisabeth teve lugar na
semana seguinte. Rapidamente a coloquei num profundo estado de
hipnose utilizando um mtodo de induo rpida de forma a
ultrapassar os bloqueios e obstculos que a mente consciente
frequentemente levanta.
     A hipnose  um estado de concentrao focalizada, mas o ego, a
mente, tem a capacidade de interferir nesta concentrao trazendo
ao de cima pensamentos que distraem. Utilizando um mtodo de
induo rpida, consegui colocar a Elisabeth num estado de hipnose
profundo num minuto.
     Havia-lhe dado uma cassete de relaxamento para que ela
pudesse ouvi-la em casa durante a semana, entre sesses. Tinha
gravado esta cassete para ajudar os meus pacientes a praticar as
tcnicas de auto-hipnose. Descobri que quanto mais praticavam em
casa mais profundo era o estado hipntico que atingiam nas sesses
no meu gabinete. A cassete tambm ajuda os pacientes a descansar
e, frequentemente, a adormecer.
     Elisabeth tentou ouvir a cassete em casa, mas no conseguiu
relaxar. Sentia-se demasiado ansiosa. E se alguma coisa
acontecesse? Preocupava-se com o facto de estar sozinha e no
haver ningum que a pudesse ajudar.
     A sua mente "protegia-a" permitindo que os pensamentos do
dia a dia aflussem ao de cima e a distrassem da cassete. Entre o
seu nervosismo e os seus pensamentos, ela no conseguia
concentrar-se.
     Ao descrever a sua experincia em casa com a cassete, decidi
utilizar um mtodo de hipnose mais rpido de forma a lev-la a
ultrapassar os obstculos criados pela sua mente e medos.
     A tcnica mais comum utilizada para induzir o transe
hipntico  denominada relaxamento progressivo. Comeando por
levar o paciente a abrandar o seu ritmo respiratrio, o terapeuta
utiliza o seu tom de voz para induzi-lo a um estado de
relaxamento profundo dando-lhe instrues para, de forma suave
e sequencial, relaxar os msculos. Ento -lhe pedido que
visualize ou imagine cenas agradveis e relaxantes. Utilizando
tcnicas como a da contagem decrescente, o terapeuta ajuda o
paciente a atingir um estado mais profundo.
     Por esta altura, o paciente encontra-se num leve a moderado
estado de transe, que o terapeuta pode aprofundar se desejar.
Todo o processo demora cerca de 15 minutos.
     No entanto, durante estes quinze minutos, a mente do
paciente pode interromper o processo hipntico, pensando,
                                                  S O AMOR  REAL - 19




analisando ou debatendo ideias em vez de relaxar e se deixar ir
com as sugestes.
     Contabilistas e pessoas que tenham sido treinadas para
pensar num padro lgico, linear e altamente racional, com
frequncia permitem que o monlogo das suas mentes interrompa
o processo. Apesar de sentir que a Elisabeth podia atingir um nvel
profundo de transe, independentemente da tcnica utilizada,
decidi, de qualquer forma, usar o mtodo mais rpido, para ter a
certeza do sucesso da operao.
     Disse a Elisabeth para se sentar na ponta da cadeira, manter
o olhar fixo nos meus olhos, e pressionar para baixo com a sua
mo direita, que estava apoiada na palma da minha.
     Fui-lhe falando  medida que ela exercia presso na minha
mo, com o corpo ligeiramente inclinado para a frente na cadeira.
Os seus olhos estavam fixos nos meus.
     De repente, e sem nenhum aviso, retirei a minha mo que
estava por baixo da dela. O seu corpo, agora sem apoio, inclinou-
se mais para a frente. Neste preciso momento disse muito alto
"Durma!"
     Instantaneamente, o corpo de Elisabeth caiu para trs na
cadeira. Estava j num estado de transe hipntico profundo.
Enquanto a parte consciente da sua mente estava preocupada
com a perda de equilbrio a minha ordem para adormecer passou
directamente e sem interferncia at ao seu inconsciente. Entrou
assim imediatamente num estado de "sono" consciente, que  o
equivalente  hipnose.
     "Pode lembrar-se de tudo, de todas as experincias que
alguma vez viveu" disse-lhe. Agora podamos comear a viagem
de regresso. Queria ver quais os sentidos que predominavam nas
suas recordaes e assim pedi-lhe para relembrar a sua ltima
refeio agradvel, instruindo-a para que utilizasse todos os seus
sentidos ao faz-lo. Ela lembrava-se do odor, do sabor, do aspecto
e da sensao de um jantar recente e desta forma soube que ela
era capaz de uma recordao vvida. Parecia que, no seu caso, era
o sentido da viso que predominava.
     Ento, levei-a de volta  sua infncia para ver se ela podia
recordar memrias de um perodo plcido na sua vida no
Minnesota. Ela esboou um sorriso de contentamento infantil.
     "Estou na cozinha com a minha me. Ela parece muito jovem.
Eu tambm sou muito jovem. Sou pequenina. Tenho cerca de cinco
anos. Estamos a cozinhar. Estamos a fazer tortas... e biscoitos. 
divertido. A minha me est feliz. Vejo tudo, o avental, o seu
cabelo em p. Consigo sentir os odores. So maravilhosos."
     Dei-lhe a instruo: "V para outro quarto e diga-me o que
v." Ela foi at  sala de estar. Descreveu a grande e escura
moblia de madeira, os soalhos gastos. E ainda um retrato da me,
20 - BRIAN L. WEISS, M.D.




uma fotografia que estava numa mesa de madeira escura ao p
de uma cadeira grande e confortvel.
     "Vejo a minha me na fotografia" continuou Elisabeth. "Ela 
linda... to jovem. Vejo as prolas  volta do seu pescoo. Ela
adora essas prolas. So para ocasies especiais. O lindo vestido
branco.. , o cabelo negro... os olhos so to brilhantes e
saudveis."
     "Bem" disse eu. "Fico contente por se lembrar dela e
conseguir v-la com tanta clareza."
     A certeza virtual de relembrar uma refeio recente ou uma
cena de infncia ajuda a construir a confiana do paciente na sua
capacidade para evocar memrias. Estas mostram ao paciente
que a hipnose funciona, no  assustadora, e que pode mesmo ser
agradvel. O paciente v que as memrias evocadas so
frequentemente mais vvidas e mais detalhadas que as memrias
da mente consciente e acordada.
     Depois de emergir do transe, os pacientes quase sempre se
lembram conscientemente de memrias invocadas durante a
hipnose. S raramente atingem um nvel de profundidade tal que
fiquem amnsicos relativamente ao que experimentaram em
hipnose. Apesar de, frequentemente, gravar as sesses de
regresso para assegurar a preciso e para as usar como
referncia quando necessrio, as cassetes so mais para mim do
que para os pacientes. Eles lembram-se vividamente.
     "Agora vamos viajar ainda mais para trs. No se preocupe
com o que  imaginao, o que  fantasia, o que  metafrico ou
simblico, o que  memria actual ou combinaes de tudo isto"
disse-lhe. "Deixe-se apenas experimentar. Tente impedir que a sua
mente julgue, critique ou mesmo comente aquilo que est a
experimentar. Limite-se a viver a experincia, que vale apenas
como tal. Depois pode criticar. Mais tarde pode analisar. Mas por
agora deixe-se apenas experimentar."
     "Vamos agora voltar para o tero, para o perodo intra-uterino,
imediatamente antes de ter nascido. Tudo o que lhe vier  cabea
 ptimo. Deixe-se apenas experimentar."
     E contei de cinco para um, tornando o seu estado de hipnose
mais profundo.
     Elisabeth sentiu-se dentro do ventre de sua me. Era quente e
seguro, e ela podia sentir o amor de sua me. Uma lgrima correu
do canto de cada um dos seus olhos fechados. As lgrimas eram
lgrimas de felicidade e nostalgia.
     Elisabeth j podia sentir o amor que iria saudar o seu
nascimento, e isto f-la sentir-se muito feliz.
     A sua experincia no ventre no  uma prova positiva de que
a memria  precisa, ou que  de facto uma memria completa.
Mas para a Elisabeth as sensaes e emoes eram to fortes e
                                                    S O AMOR  REAL - 21




poderosas que para ela eram reais, e tal f-la sentir-se muito
melhor.
     Enquanto sob hipnose, uma paciente minha lembrou-se de ter
nascido com uma irm gmea. O outro beb tinha nascido morto.
No entanto, a paciente nunca soube que tinha tido uma irm
gmea. Os seus pais nunca lhe tinham contado acerca da sua irm
morta  nascena. Quando ela contou aos pais a sua experincia
sob hipnose eles confirmaram a completa preciso da recordao.
Ela era de facto uma de duas irms gmeas.
     No entanto, em geral, as memria no ventre so difceis de
validar. "Est pronta para retroceder ainda mais?" perguntei,
esperando que Elisabeth no se tivesse assustado com a
intensidade das suas emoes.
     "Sim" respondeu ela calmamente. "Estou pronta."
     "ptimo", disse. "Agora vamos ver se consegue lembrar-se de
alguma coisa anterior ao nascimento, quer num estado mstico ou
espiritual, numa outra dimenso, quer numa vida passada. Tudo o
que lhe vier  cabea  bom. No faa avaliaes nem crticas.
No se preocupe com isso. Experimente apenas. Deixe-se
experimentar."
     Fi-la imaginar-se a entrar num elevador, a carregar num boto
e lentamente contei de cinco at um. O elevador viajou atravs do
tempo e do espao, e a porta abriu-se quando disse um. Disse-lhe
para dar um passo para fora e juntar-se  imagem,  cena, 
experincia no outro lado da porta. Mas sucedeu algo que eu no
esperava.
     "Est to escuro" disse, com terror na sua voz. "Eu... eu ca do
barco. Est tanto frio. E terrvel."
     "Se estiver desconfortvel", interrompi rapidamente, "flutue
sobre a cena e observe-a como se estivesses a ver um filme. Mas
se no estiver desconfortvel, mantenha-se nela. Veja o que se
passa. Sinta o que est a viver."
     Mas a experincia era assustadora e ela decidiu flutuar por
cima dela. Elisabeth via-se como um rapaz adolescente. Tendo
cado do barco, numa tempestade durante a noite, este rapaz
tinha-se afogado nas guas escuras. Subitamente a sua respirao
tornou-se visivelmente mais lenta, e ela pareceu mais tranquila.
Tinha-se libertado do corpo.
     "J sa daquele corpo" disse Elisabeth, quase casualmente.
Tudo isto se tinha passado de forma extremamente rpida. Antes
de eu ter tido tempo de explorar aquela vida, ela j estava fora
daquele corpo. Queria que ela revisse o que se tinha passado,
para que me contasse o que podia ver e entender.
     "O que  que estava a fazer no barco?", perguntei-lhe,
tentando retroceder no tempo mesmo estando ela j fora do
corpo. "Estava a viajar com o meu pai" disse ela. "E uma
22 - BRIAN L. WEISS, M.D.




tempestade levantou-se de repente. O barco comeou a meter
gua. Estava muito instvel e baloiava violentamente. As ondas
eram enormes e eu fui arrastado para fora."
     "O que  que aconteceu s outras pessoas?" perguntei. "No
sei" disse ela. "Fui arrastado borda fora. No sei o que  que lhes
sucedeu."
     "Mais ou menos que idade tinha quando isso sucedeu?"
     "No sei" respondeu ela. "Cerca de doze ou treze anos. Era
um jovem adolescente."
     Elisabeth no parecia muito motivada para fornecer mais
pormenores. Tinha abandonado cedo aquela vida, tanto na vida
passada como na recordao no meu gabinete. No podamos
obter mais informaes. Ento acordei-a.
     Na semana seguinte, Elisabeth pareceu-me menos deprimida
apesar de eu no ter receitado nenhuma medicao
antidepressiva para tratar os seus sintomas de desgosto e
depresso.
     "Sinto-me mais leve" disse ela. "Sinto-me mais livre, e noto
que no me sinto to perturbada no escuro."
     Elisabeth sempre se tinha sentido pouco  vontade no escuro,
e evitava sair sozinha  noite. Em casa, mantinha as luzes acesas.
Mas na semana que havia passado ela tinha notado melhorias
nesse aspecto. Desconhecia que nadar era algo que Elisabeth
fazia pouco  vontade e mesmo com alguma ansiedade, mas na
semana que havia passado ela j tinha conseguido estar algum
tempo na piscina e no jacuzzi do seu condomnio. Apesar de esta
no ser a sua principal preocupao, sentia-se contente por ter
feito progressos nessa rea.
     Tantos dos nossos medos esto enraizados no nosso passado
e no no nosso futuro. Frequentemente as coisas que mais
receamos j ocorreram ou na nossa infncia, ou numa vida
passada. Porque j o esquecemos ou apenas nos lembramos
vagamente, receamos que o acontecimento traumtico se possa
tornar realidade no futuro.
     Mas Elisabeth ainda estava muito triste, e no tnhamos
encontrado a sua me excepto na sua memria da infncia. A
busca tinha de continuar.
     A histria de Elisabeth  fascinante. A de Pedro tambm o .
No entanto as suas histrias no so de todo nicas. Muitos dos
meus pacientes sofreram profundos desgostos, medos, fobias e
relaes frustrantes. Muitos reencontraram os seus outrora
perdidos entes queridos noutros tempos e lugares. Muitos
conseguiram curar o seu sofrimento  medida que relembravam
vidas passadas ou atingiam estados espirituais.
     Algumas das pessoas que fiz regredir so celebridades. Outras
so      pessoas     aparentemente     vulgares     com    histrias
                                                  S O AMOR  REAL - 23




extraordinrias. As suas experincias reflectem os temas
universais presentes nas viagens em curso de Elisabeth e Pedro 
medida que estes se aproximam das encruzilhadas do destino.
     Estamos todos a percorrer o mesmo caminho.
     Em Novembro de 1992, desloquei-me a Nova Iorque para
fazer regredir Joan Rivers como parte do seu programa televisivo.
Tnhamos combinado fazer a regresso numa suite privada de um
hotel alguns dias antes da gravao ao vivo do programa. Joan
chegou tarde, atrasada por Howard Stern, o desinibido locutor de
rdio que iria ser o convidado do seu programa naquele dia. Ela
no estava muito relaxada, ainda com a maquilhagem da
televiso, usando jias e vestindo uma bonita camisola vermelha.
     Em conversa, antes da regresso, soube que ela ainda sofria
pela morte da me e do marido. Apesar de a me ter morrido anos
antes, a relao entre elas tinha sido muito intensa e Joan
continuava a sentir imensamente a sua falta. A morte do marido
tinha sido mais recente. Joan sentou-se rigidamente num
confortvel sof bege. As cmaras comearam a gravar uma cena
extraordinria.
     Em breve, Joan afundava-se no sof, o queixo precariamente
apoiado na palma da mo. A sua respirao abrandou e entrou
num profundo estado hipntico. "Desci fundo, mesmo fundo" disse
ela mais tarde.
     A regresso teve incio, e ela recuou no tempo. A sua primeira
paragem foi aos quatro anos. Relembrou o ambiente tenso em
casa, devido  visita da av. Joan podia ver-se a si prpria
vividamente.
     "Estou a usar um vestido de xadrez com uns sapatos Mary
Jane e meias brancas."
     Partimos para tempos mais distantes. Era o ano de 1835, ela
estava em Inglaterra, e era uma mulher da pequena burguesia.
"Tenho cabelo preto, e sou mais alta e magra" observou. Tinha
trs filhas.
     "Uma  sem dvida a minha me" acrescentou. Joan
reconheceu o facto de que uma das suas filhas naquela vida
passada, uma criana de seis anos, tinha reencarnado como a sua
me actual. "Como  que sabe que  ela?" perguntei.
     "Apenas sei que  ela" respondeu com nfase. O
reconhecimento de almas frequentemente transcende a descrio
verbal. Existe um conhecimento intuitivo, um saber do corao.
Joan Rivers sabia que aquela menina e a sua me eram a mesma
alma.
     No reconheceu o marido da mulher inglesa, tambm ele alto
e magro, como algum que existisse na sua vida actual. "Est a
usar um chapu de pele de castor" descreveu. Ele estava
24 - BRIAN L. WEISS, M.D.




formalmente vestido. "Estamos a caminhar num grande parque
com jardins" reparou.
     Joan comeou a chorar e queria sair daquele tempo. Uma das
suas filhas estava a morrer.
     "E ela!" soluou, referindo-se  filha que tinha reconhecido
como sendo a me na sua vida actual. "Terrvel... horrivelmente
triste!" A criana morreu, e ns deixmos aquele tempo e lugar.
Regredimos ainda mais, at ao sculo dezoito.
     "Estamos em mil setecentos e qualquer coisa... Sou um
agricultor, sou um homem." Ela parecia surpresa com a mudana
de sexo, mas aquela era uma vida passada mais feliz.
     "Sou um agricultor muito bom porque gosto muito da terra"
observou. Na sua vida actual, Joan adora trabalhar no seu jardim,
onde encontra paz e alguns momentos de descanso da sua febril
vida profissional.
     Despertei-a suavemente. O seu sofrimento j tinha comeado
a sarar. Ela compreendeu que a sua preciosa me, que tinha sido
a sua filhinha em 1835, em Inglaterra, era uma alma companheira
atravs dos sculos. Apesar de ambas saberem que mais uma vez
se encontravam separadas, Joan sabia que viriam a estar juntas
de novo, num outro tempo e lugar.
     Elisabeth, que no conhecia a experincia de Joan, procurou-
me buscando uma cura semelhante. Iria tambm ela encontrar a
sua querida me?
     Entretanto, no mesmo gabinete e na mesma cadeira,
separado de Elisabeth apenas por um nfimo perodo de alguns
dias, um outro drama decorria.
     Pedro sofria. A sua vida estava carregada de tristeza,
segredos no partilhados e desejos escondidos.
     E o encontro mais importante da sua vida aproximava-se
silenciosa mas rapidamente.
                                                                      S O AMOR  REAL - 25




5
                            E ainda assim o seu desgosto no diminua. Por fim ela gerou uma
                   nova criana, e grande foi a alegria do pai; e alto o seu grito: "Um Filho!"
                Aquele dia, para seu regozijo - ele era o nico. Abatida e plida jazia a me; a
                      sua alma estava dormente... Ento subitamente ela chorou com angstia
                 selvagem, Os seus pensamentos menos na nova que na criana ausente .. . "O
                meu anjo est na tumba, e eu no ao seu lado!" Falando atravs do beb agora
                preso no seu abrao, ela ouve de novo a voz to conhecida e adorada: "Sou eu
                                         - mas no o digas!" E ele olha-a fixamente nos olhos.
                                                                                 VICTOR HUGO

    Pedro    era um mexicano extraordinariamente bonito, mais
loiro do que esperara, com cabelo castanho claro e olhos azuis
maravilhosos que por vezes pareciam quase verdes. O seu
encanto e graa escondiam o desgosto que ele sentia pela morte
do irmo, que tinha morrido dez meses antes num terrvel
acidente de automvel na Cidade do Mxico.
     Muitas pessoas me procuram sofrendo com reaces agudas
ao desgosto, esperando saber mais acerca da morte ou mesmo
encontrar mais uma vez os seus entes queridos j falecidos. O
encontro pode ocorrer numa vida passada. Pode ocorrer num estado
espiritual entre duas vidas. Ou pode ter lugar num contexto mstico,
para alm dos limites do corpo e do ambiente fsico.
     Quer sejam reais ou imaginrios, os encontros espirituais
possuem um poder que  vividamente sentido pelo paciente. Com
ele as vidas so alteradas.
     A delicada e frequentemente detalhada recordao de vidas
passadas no  o cumprir de um desejo. As imagens no so
meramente invocadas porque um paciente necessita delas ou porque
estas o podem fazer sentir melhor. O que  relembrado  o que
aconteceu de facto.
     A especificidade e preciso dos detalhes relembrados, a
profundidade das emoes expostas, a cura de sintomas clnicos e o
poder que tais memrias tm de transformar vidas apontam para a
realidade das recordaes.
     O aspecto pouco usual da histria do Pedro era o facto de terem
j passado dez meses desde a morte do irmo. Geralmente por esta
altura o luto est feito. O anormalmente longo tempo de luto de
Pedro sugeria um desespero subjacente mais profundo que o normal.
     Na realidade as causas da sua tristeza iam muito para alm da
morte do irmo. Iramos descobrir em sesses subsequentes que ele
havia estado separado dos seus entes queridos ao longo de muitas
vidas passadas, o que o tornara extremamente sensvel  perda de
algum amado. A morte sbita do irmo fez emergir, dos recessos
26 - BRIAN L. WEISS, M.D.




mais profundos da sua mente inconsciente, a memria de perdas
ainda mais graves, ocorridas milnios atrs.
     Na teoria psiquitrica, cada perda que experimentamos reaviva
sentimentos e memrias reprimidas ou esquecidas de perdas
anteriores. O nosso desgosto  potenciado pela acumulao de
desgostos de perdas anteriores.
     Na minha investigao com vidas passadas, estava agora a
descobrir que o palco em que estas perdas ocorrem necessitava de
ser alargado. No podemos retroceder apenas  infncia. Perdas
anteriores, em vidas passadas, tm de ser consideradas. Algumas
das nossas mais trgicas perdas e os nossos mais profundos
desgostos aconteceram antes de termos nascido. Antes de mais
nada, precisava de saber algo mais acerca da vida de Pedro.
Precisava de referncias para poder navegar nas guas das futuras
sesses.
     "Fale-me de si" pedi. "A sua infncia, a sua famlia, e tudo o que
achar que  importante. Conte-me tudo o que sentir que eu deva
saber."
     Pedro suspirou profundamente e encostou-se para trs na larga e
macia cadeira. Desapertou a gravata e desabotoou o boto do
colarinho da camisa. A sua linguagem corporal dizia-me que tal no
ia ser fcil para ele.
     Pedro provinha de uma famlia muito privilegiada, tanto
financeira como politicamente. O seu pai possua um grande negcio
e vrias fbricas. Eles viviam nas colinas sobranceiras  cidade,
numa casa espectacular dentro de um condomnio privado e seguro.
     Pedro tinha frequentado as melhores escolas privadas de toda a
cidade. Estudara ingls desde os primeiros anos de escola, e depois
de muitos anos em Miami, o seu domnio da lngua inglesa era
excelente. Era o mais jovem de trs filhos. A irm era a mais velha e,
apesar de ter mais quatro anos que ele, Pedro era muito protector em
relao a ela. O irmo era dois anos mais velho e muito ntimo de
Pedro.
     O pai de Pedro trabalhava arduamente e, em geral, apenas
chegava a casa noite adentro. A me, amas, empregadas e outro
pessoal governavam a casa e tratavam das crianas.
     Pedro estudara gesto na faculdade. Tinha tido vrias
namoradas, mas nenhuma relao sria.
     "De alguma forma a minha me nunca gostou muito das
raparigas com quem eu saa" acrescentou Pedro. "Ela encontrava-
lhes sempre um defeito particular e nunca mo deixava esquecer."
     Nesta altura, Pedro olhou  sua volta pouco  vontade. "O que
foi?" inquiri.
     Ele no respondeu imediatamente, engolindo em seco vrias
vezes antes de comear.
                                                   S O AMOR  REAL - 27




    "Tive um caso com uma mulher mais velha no meu ltimo ano
de faculdade" disse-me lentamente. "Ela era mais velha... e casada."
Pedro fez uma pausa.
    "Tudo bem!" respondi aps alguns momentos, mais para
quebrar o silncio. Podia sentir o seu desconforto e, apesar dos
meus muitos anos de experincia, continuava a no gostar da
sensao. "O marido dela descobriu?"
    "No" respondeu. "Ele no descobriu."
    "As coisas podiam ter sido piores, ento" apontei, salientando
o bvio, tentando confort-lo.
    "H mais" acrescentou sinistramente.
    Acenei com a cabea, esperando que Pedro me informasse.
"Ela ficou grvida... fez um aborto. Os meus pais no sabem
disso." Os seus olhos dirigiam-se para o cho. Ainda se sentia
envergonhado e culpado, anos depois do caso e do aborto.
    "Eu compreendo" comecei. "Posso dizer-lhe o que aprendi
acerca dos abortos?"
    Ele anuiu com a cabea. Ele conhecia a minha investigao
sobre hipnose e vidas passadas.
    "Um aborto provocado ou espontneo, em geral implica um
acordo entre a me e a alma que iria entrar no beb. Ou o corpo
do beb no seria suficientemente saudvel para poder
desempenhar as tarefas planeadas na sua vida futura" continuei,
"ou o tempo no era o adequado para os seus objectivos, ou a
situao exterior modificou-se, como o abandono do pai quando
os planos do beb ou da me requeriam uma figura paterna.
Compreende?"
    "Sim" assentiu, mas no parecia convencido. Eu sabia que as
suas fortes razes catlicas poderiam tornar mais difcil a
sublimao da sua culpa e vergonha. Algumas vezes as nossas
velhas crenas e preconceitos interferem na aquisio de novos
conhecimentos. Voltei ao bsico.
    "Vou falar-lhe apenas da minha investigao" expliquei, "no
do que li ou ouvi dos demais. Esta informao vem dos meus
pacientes, geralmente quando estes se encontram sob hipnose
profunda. Por vezes as palavras so deles, outras parecem provir
de uma fonte mais elevada."
    Pedro assentiu de novo com a cabea, mantendo-se calado.
"Os meus pacientes dizem que a alma no entra de imediato no
corpo. Por volta do tempo da concepo, a alma faz uma reserva.
    Mais nenhuma alma pode possuir aquele corpo. A alma que
reservou o corpo daquele beb em particular pode entrar e sair
deste como desejar. No est confinada. Isto  semelhante aos
comas das pessoas" acrescentei.
    Pedro assinalou estar a compreender, ainda no falando, mas
escutando atentamente.
28 - BRIAN L. WEISS, M.D.




     "Durante a gravidez, a alma fica cada vez mais e mais ligada
ao corpo" continuei "mas a vinculao apenas est completa por
volta da altura do nascimento, pouco tempo antes, durante ou
logo depois."
     Enfatizei este conceito juntando as bases das palmas das
minhas mos e formando com elas um ngulo de noventa graus.
Ento fui fechando as mos de forma a que o resto das minhas
palmas e dedos ficassem unidos, como o smbolo universal para a
orao, denotando a vinculao gradual da alma ao corpo.
     "Nunca podemos magoar ou matar uma alma" acrescentei. "A
alma  imortal e indestrutvel. Encontrar uma forma de voltar, se
esse for o seu plano."
     "O que  que quer dizer com isso?" perguntou Pedro.
     "Tive casos nos quais a mesma alma, depois de um aborto
provocado ou espontneo, volta para os mesmos pais no seu
prximo beb."
     "Incrvel!" respondeu Pedro. Um brilho surgia agora na sua
face, j no to culpada ou envergonhada.
     "Nunca se sabe" acrescentei.
     Aps alguns momentos de contemplao, Pedro suspirou de
novo e cruzou as pernas, ajustando as calas. Tnhamos voltado
de novo  recolha da sua histria.
     "O que  que aconteceu depois disso?" perguntei.
     "Depois de me licenciar voltei para casa. No incio trabalhava
nas fbricas para aprender mais sobre o negcio. Mais tarde voltei
para Miami para gerir o negcio aqui e no estrangeiro. Estou aqui
desde ento" explicou.
     "E como  que vai o negcio?"
     "Muito bem, mas ocupa muito do meu tempo." "Isso  um
grande problema?"
     "No ajuda a minha vida sentimental" disse Pedro, sorrindo.
Ele no estava totalmente a brincar. Agora, com vinte e nove
anos, sentia que estava numa corrida contra o tempo para
encontrar o amor, casar e fundar uma famlia. Corria, mas sem
perspectivas. "Tem tido relacionamentos com mulheres?"
     "Sim", respondeu, "mas nada de especial. Na realidade nunca
me apaixonei. . . espero apaixonar-me um dia" acrescentou ele
com alguma preocupao na voz. "Em breve terei que voltar para
o Mxico e viver l" devaneou, "de forma a tomar conta dos
assuntos do meu irmo. Talvez encontre algum l" comentou
sem convico.
     Pensei que talvez as crticas da me relativamente s suas
namoradas e a sua experincia com a mulher casada e o aborto
fossem um obstculo psicolgico para uma relao amorosa mais
ntima. Trataremos destes assuntos mais tarde, pensei.
                                                 S O AMOR  REAL - 29




     "E como  que est a sua famlia no Mxico?" perguntei,
tornando a atmosfera mais leve enquanto continuava a recolher
informao.
     "Est bem. O meu pai tem j mais de setenta anos, e por isso
o meu irmo e eu..." Pedro parou abruptamente. Engoliu em seco
e respirou fundo antes de continuar. "Assim, tenho mais
responsabilidade no negcio" concluiu ele numa voz calma.
     "A minha me tambm se encontra bem." Fez uma pausa
antes de emendar a sua resposta. "Mas nenhum deles parece ser
capaz de lidar bem com a morte do meu irmo. Consumiu-os
muito. Envelheceram muito."
     "E a sua irm?"
     "Ela tambm est triste, mas tem o marido e os filhos"
explicou Pedro.
     Demonstrei compreender acenando com a cabea. Ela tinha
mais distraces que a ajudavam a lidar com o facto.
     Pedro estava numa forma fsica excelente. A sua nica queixa
era uma dor intermitente no pescoo e ombro esquerdo, mas
esse problema existia h muito tempo e os mdicos no
encontravam nada fora do normal.
     "Aprendi a viver com ela" disse-me Pedro.
     Tomei conscincia do tempo. Olhando para o meu relgio,
reparei que nos tnhamos atrasado vinte minutos. O meu relgio
interno costumava ser muito mais preciso.
     Devia ter estado muito absorto no drama da histria de
Pedro, racionalizei silenciosamente, sem saber que dramas ainda
mais absorventes estavam apenas agora a comear a desenrolar-
se.
     O monge e filsofo budista vietnamita, Thich Nhat Hanh,
escreve sobre como apreciar uma boa chvena de ch. Temos
que estar totalmente despertos no presente para apreciar o ch.
Apenas com a conscincia no presente, as nossas mos podem
sentir o agradvel calor da chvena. Apenas no presente
podemos apreciar o aroma, sentir a doura e saborear a
delicadeza. Se estamos a ruminar sobre o passado ou
preocupados com o futuro, perderemos por completo a
experincia de apreciar a chvena de ch. Olharemos para a
chvena, e o ch ter j terminado.
     A vida  assim. Se no estamos totalmente no presente,
quando olharmos  nossa volta este ter desaparecido. Teremos
perdido a sensao, o aroma, a delicadeza e a beleza da vida.
Parecer ter passado a correr por ns.
     O passado terminou. Aprendamos com ele e deixemo-lo ir. O
futuro ainda no est aqui. Planeemos, sim, mas no gastemos o
tempo a preocuparmo-nos com ele. A preocupao  uma perda
de tempo. Quando pararmos de ruminar sobre o que j
30 - BRIAN L. WEISS, M.D.




aconteceu, quando pararmos de nos preocuparmos com o que
poder nunca vir a acontecer, ento estaremos no momento
presente. S ento comearemos a experimentar a alegria de
viver.


6
                                  Acredito que quando uma pessoa morre a sua Alma retorna 
                             Terra; Revestida de um novo disfarce carnal, outra me a d  luz.
                            Com membros mais vigorosos e um crebro mais inteligente, a velha
                                                                      alma retoma o caminho.
                                                                              JOHN MASEFIELD



     Pedro voltou ao meu gabinete uma semana depois para a sua
segunda sesso. O desgosto ainda o atormentava, roubando-lhe
os pequenos prazeres e interferindo com o seu sono. Comeou por
me contar um sonho estranho que tinha tido duas vezes na
semana anterior.
    "Eu estava a sonhar com outra coisa qualquer quando de
repente uma mulher mais velha apareceu" explicou Pedro.
"Reconheceu a mulher?" perguntei.
    "No" respondeu ele imediatamente. "Ela parecia estar nos
seus sessenta ou setenta. Vestia um bonito vestido branco, mas
no estava em paz. O seu rosto revelava angstia. Estendeu a
mo para mim, e no parava de repetir as mesmas palavras."
    "O que  que ela disse?"
    "`D-lhe a mo... d-lhe a mo. Sabers. Estende-lhe a tua
mo. D-lhe a mo.' Foi isto o que ela disse."
    "D a mo a quem?"
    "No sei. Ela disse apenas `D-lhe a mo."' "Havia mais
alguma coisa no sonho?"
    "Na realidade no. Mas eu reparei que ela segurava uma pena
branca numa mo."
    "O que  que isso significa?" perguntei.
    "O senhor  que  o mdico" relembrou-me Pedro.
    Sim, pensei. Eu sou o mdico. Eu sabia que os smbolos
podiam significar quase tudo, dependendo das experincias
nicas do sonhador bem como dos arqutipos universais descritos
por Carl Jung ou os smbolos populares de Sigmund Freud.
    Este sonho, de qualquer forma, no parecia freudiano.
    Reagi ao comentrio "O senhor  que  o mdico" e  sua
implcita necessidade de uma resposta.
    "No tenho a certeza" respondi honestamente. "Pode
significar muitas coisas. A pena branca pode simbolizar paz ou um
                                                  S O AMOR  REAL - 31




estado espiritual ou muitas outras coisas. Teremos que explorar o
sonho." acrescentei, relegando a sua interpretao para o futuro.
    "Tive o sonho de novo ontem  noite" disse Pedro. "A mesma
mulher?"
    "A mesma mulher, as mesmas palavras, a mesma pena"
esclareceu Pedro. "`D-lhe a mo... d-lhe a mo. Estende-lhe a
mo. D-lhe a mo."'
    "Talvez as respostas surjam durante as regresses" sugeri.
"Est preparado?"
    Ele assentiu com a cabea, e comemos. Eu j sabia que
Pedro conseguia atingir um estado profundo de hipnose, pois j
tinha analisado os seus olhos.
    A capacidade de revirar os olhos para cima, tentando olhar
para o cimo da cabea, e depois deixar que as plpebras
descaiam lentamente enquanto se mantm os olhos para cima,
est altamente correlacionada com a capacidade de se poder ser
profundamente hipnotizado.
    Eu meo, assim, a parte de esclertica, ou a parte branca dos
olhos, que est visvel quando as pupilas atingem o seu pice.
Tambm observo a parte branca que se v enquanto as plpebras
fecham lentamente. Quanto maior a quantidade de branco visvel,
maior a profundidade do transe que essa pessoa pode atingir.
    Os olhos de Pedro reviraram quase completamente nas rbitas
quando o testei. S a parte mais pequena do rebordo inferior da
sua ris, a parte colorida do olho, permanecia visvel. E enquanto
as suas plpebras fechavam lentamente, a ris no descia de
forma alguma. Era bvio que ele podia atingir um estado de
transe profundo.
    Por isso, fiquei ligeiramente surpreendido quando Pedro
mostrou dificuldade em relaxar-se. Uma vez que o teste do "rolar
dos olhos" media a capacidade fsica de relaxar profundamente e
de atingir nveis profundos de hipnose, era manifesto que a sua
mente estava a interferir. Por vezes, alguns pacientes que esto
habituados a ter tudo sob controlo tm dificuldade em deixar-se ir.
    "Limite-se a relaxar" aconselhei-o. "No se preocupe com o
lhe vem  mente. No importa se hoje acontece alguma coisa ou
no. Isto  um treino" acrescentei, tentando anular qualquer tipo
de presso que ele estivesse a sentir. Eu sabia que ele queria
desesperadamente encontrar o irmo.
     medida que eu ia falando, Pedro ia relaxando cada vez mais.
Comeou a entrar num transe profundo. A sua respirao tornou-
se mais lenta, e os seus msculos distenderam-se. Parecia
afundar-se ainda mais na cadeira reclinvel de couro branco. Os
seus olhos moviam-se lentamente sob as plpebras fechadas 
medida que ia comeando a visualizar imagens.
    Lentamente, levei-o para trs no tempo.
32 - BRIAN L. WEISS, M.D.




     "Para comear, limite-se a regressar ao momento da sua
ltima refeio agradvel. Utilize todos os seus sentidos. Recorde-
o completamente. Veja quem estava consigo. Lembre-se das
sensaes" instrui-o.
     Ele f-lo, mas as memrias de diversas refeies atropelavam-
se, no se focando apenas numa. Ainda tentava manter o
controlo. "Descontraia ainda mais profundamente" disse. "A
hipnose  apenas uma forma de concentrao focada. Nunca
perde o controlo. Est sempre no comando. Toda a hipnose  auto-
hipnose." A sua respirao tornou-se ainda mais profunda.
     "Mantm sempre o controlo" disse-lhe. "Se alguma vez ficar
ansioso enquanto recorda ou experimenta algo, pode flutuar por
cima e observar  distncia, como se estivesse a ver um filme. Ou
pode abandonar a cena e ir para qualquer stio que deseje,
visualizar a praia, ou a sua casa, ou qualquer local seguro para si.
Se estiver muito desconfortvel, pode mesmo abrir os olhos e
estar de novo aqui, desperto e alerta.
     "Isto no  o Star Trek" acrescentei. "No ser teleportado
para um outro local. So apenas memrias, como outras
quaisquer, tal como quando recordou as refeies agradveis.
Est sempre em controlo."
     Nesse momento ele deixou-se ir. Levei-o de volta  sua
infncia e Pedro sorriu abertamente.
     "Consigo ver os ces e os cavalos da quinta" disse-me. A sua
famlia possua uma quinta a algumas horas da cidade, e muitos
fins-de-semana e frias foram passados a.
     A famlia estava junta.  seu irmo estava vivo, vibrante, ria.
Permaneci em silncio durante alguns momentos, deixando que o
Pedro apreciasse a sua memria de infncia.
     "Est pronto para retroceder ainda mais?" perguntei. "Sim."
     "ptimo. Vamos ver se consegue lembrar-se de alguma coisa
de uma vida passada." Contei de cinco para um enquanto Pedro se
visualizava a atravessar uma porta magnfica para um outro
tempo e lugar, para uma vida passada.
     Logo que cheguei ao nmero um, vi que os seus olhos
estremeciam descontrolados. Repentinamente estava alarmado.
Comeou a soluar.
     " terrvel... terrvel!" arquejou. "Eles foram todos mortos...
esto todos mortos." Os restos dos corpos estavam espalhados
por toda a parte. O fogo tinha destrudo a aldeia, com as suas
estranhas tendas redondas. Apenas uma tenda se mantinha
intacta, incongruentemente em p na periferia da carnificina e
destruio. As suas bandeiras coloridas e as grandes penas
brancas agitavam-se fortemente na fria luz do sol.
                                                 S O AMOR  REAL - 33




    Os cavalos, o gado e os bois tinham desaparecido. Era
evidente que ningum tinha sobrevivido ao massacre. Os
"cobardes" vindos do Leste tinham feito isto.
    "Nenhum muro, nenhum senhor da guerra os vai proteger de
mim" jurou Pedro. A vingana teria que ser deixada para mais
tarde. Ele estava atordoado, sem esperana, devastado.
    Aprendi ao longo dos anos que as pessoas na sua primeira
regresso gravitam frequentemente para o evento mais
traumtico de uma vida passada. Tal ocorre por a emoo do
trauma estar muito fortemente gravada nas suas psiques e ser
carregada pela alma para as futuras encarnaes.
    Eu queria saber mais. O que  que tinha precedido esta
experincia horrenda? O que teria acontecido depois?
    "Recue no tempo dentro dessa vida" pedi-lhe. "Recue para
tempos mais felizes. O que  que recorda?"
    "H muitos yurts... tendas. Somos um povo poderoso"
respondeu ele. "Aqui sou feliz!" Pedro descreveu um povo nmada
que caava e criava gado. Os seus pais eram os lderes, e ele era
um forte e hbil cavaleiro e caador.
    "Os cavalos so muito velozes. So pequenos com grandes
caudas" disse ele.
    Casara com a mais bela rapariga do seu povo, com quem
tinha brincado em criana e amado desde sempre. Podia ter-se
casado com a filha de um chefe vizinho, mas preferiu casar por
amor. "Qual  o nome dessa terra?" perguntei.
    Ele hesitou. "Acho que vocs lhe chamam Monglia."
    Eu sabia que a Monglia tinha provavelmente um nome
bastante diferente quando o Pedro a vivera. A lngua era
completamente diferente. Ento como  que o Pedro, falando
daquele tempo, conhecia a palavra Monglia? Porque ele estava a
recordar, as suas memrias estavam a ser filtradas atravs da sua
mente actual.
     processo  semelhante ao de ver um filme. A mente actual
est muito consciente, observando e comentando. A mente
compara as personagens e temas do filme com aqueles da vida
actual.  paciente  o observador do filme, o seu crtico e seu
actor, tudo ao mesmo tempo.  paciente pode assim utilizar o seu
conhecimento actual de histria ou geografia para ajudar a datar
e a situar acontecimentos e lugares. Ao longo do filme ele pode
manter-se num estado profundamente hipnotizado.
    Pedro podia recordar vividamente a Monglia que existira h
muitos sculos e, no entanto, podia falar ingls e responder s
minhas perguntas enquanto o fazia.
    "Sabe o seu nome?"
    De novo, ele hesitou. "No, no me recordo."
34 - BRIAN L. WEISS, M.D.




    Pouco mais havia. Ele tinha um filho, e o seu nascimento fora
uma grande felicidade no s para o Pedro e sua esposa como
tambm para os seus pais e para o resto do seu povo. Os pais da
sua mulher tinham falecido vrios anos antes do casamento,
assim ela no era apenas a sua mulher, mas tambm uma filha
para os seus pais.
    Pedro estava exausto. Ele no queria voltar para a aldeia
devastada e mais uma vez confrontar-se com os restos da sua
vida destruda e, assim, despertei-o.
    Quando uma memria de uma vida passada  traumtica e
carregada de emoo, pode ser muito til voltar uma segunda
vez, e mesmo uma terceira. Em cada repetio a emoo negativa
 atenuada e o paciente recorda ainda mais. Ele tambm aprende
mais,  medida que as distraces e bloqueios emocionais so
reduzidos. Eu sabia que o Pedro tinha mais a aprender da sua vida
passada.
    Pedro tinha dado a si mesmo mais dois ou trs meses para
resolver os seus assuntos pessoais e profissionais em Miami.
Ainda tnhamos tempo suficiente para explorar a sua vida passada
na Monglia mais detalhadamente. Tambm tnhamos tempo para
explorar outras vidas passadas. Ainda no tnhamos encontrado o
seu irmo. Em vez disso ele tinha encontrado uma nova srie de
perdas devastadoras: a sua amada esposa, filho, pais,
comunidade.
    Estaria eu a ajud-lo ou estaria a aumentar ainda mais o peso
do seu fardo? S o tempo o diria.
    Depois de um dos meus workshops, uma participante contou-
me uma histria maravilhosa.
    Quando ela era pequena, se deixasse propositadamente a sua
mo pendurada do lado de fora da cama, sentia que uma outra
mo segurava carinhosamente a dela, e ficava tranquila
independentemente da ansiedade que estivesse a sentir. Muitas
vezes, contudo, quando a sua mo acidentalmente descaa para
fora da cama, o aperto de mo surpreendia-a e ela instintiva e
abruptamente retirava a mo, quebrando o contacto.
    Ela sempre soubera quando procurar o contacto com a mo
para se sentir confortada. No existia, claro, nenhuma forma fsica
debaixo da cama.
    Ao crescer, a presena da mo manteve-se. Casou, mas nunca
falou ao marido desta experincia, pois parecia-lhe ser muito
infantil.
    Quando engravidou do seu primeiro filho, a mo desapareceu.
Ela sentiu falta da sua familiar e carinhosa companheira. No
existia nenhuma mo real que segurasse a dela daquela mesma
forma.
                                                                     S O AMOR  REAL - 35




    O seu beb nasceu, uma linda filha. Pouco depois do
nascimento, estando deitadas juntas na cama, o beb segurou-lhe
a mo. Um reconhecimento sbito e poderoso daquela velha
sensao familiar avassalou a sua mente e corpo.
    O seu protector tinha regressado. Ela chorou de felicidade e
sentiu-se imersa numa enorme vaga de amor. Era uma conexo
que sabia existir muito para alm do mundo fsico.



7
                 Foste tu aquela Donzela que outrora Abandonou a Terra odiada, !, diz-me em
                      verdade, E voltaste agora para nos visitar de novo? Ou eras aquele doce e
                       sorridente Jovem?... Ou algum da prole celestial Descido de um trono de
                   nuvens para fazer o bem ao mundo? Ou pertences s hostes de asas douradas,
                 Que ataviadas com roupagem humana Descem  Terra do seu destinado assento
                E aps breve estadia entre ns, voam de voltam rapidamente Como para mostrar
                  como so as criaturas celestes; E assim incendiar o corao dos homens, Para
                                          que desdenhem este mundo srdido, e aspirem ao Cu?
                                                                                  JOHN MILTON

    Ao     entrar no meu gabinete para a sua terceira sesso,
Elisabeth parecia menos deprimida. Os seus olhos estavam mais
brilhantes. "Sinto-me mais leve", disse-me ela. "Sinto-me mais
livre..." A sua breve recordao dela prpria como um adolescente
que havia sido arrastado borda fora tinha comeado a atenuar
alguns dos seus medos. No apenas o medo da gua e do escuro,
mas tambm medos mais bsicos e profundos, como o da morte e
da extino. Ela tinha morado sendo aquele rapaz, mas, no
entanto, existia de novo como Elisabeth. A um nvel
subconsciente, o seu sofrimento poderia estar atenuado, devido
ao conhecimento de que tinha vivido anteriormente e viveria de
novo, de que a morte no era final. E se ela podia nascer de novo,
renovada e revigorada, num novo corpo, ento tambm os seus
entes queridos o podiam fazer. Tambm todos ns podemos
renascer para lidar mais uma vez com as alegrias e as agruras,
com os triunfos e as tragdias da vida na Terra.
     Elisabeth entrou rapidamente num profundo transe hipntico.
Em poucos minutos, os seus olhos moviam-se sob as plpebras
fechadas  medida que ela observava um panorama antigo.
     "A areia  linda" comeou, recordando uma vida como um
ndio americano no Sul, provavelmente na costa oeste da Florida.
" to branca... s vezes quase cor-de-rosa...  to fina como o
acar." Por um momento fez uma pausa. "O Sol pe-se sobre o
grande oceano. Para Este existem grandes pntanos, com muitos
pssaros e animais. Existem muitas pequenas ilhas entre os
pntanos e o mar. As guas esto cheias de peixe. Ns pescamos
36 - BRIAN L. WEISS, M.D.




o peixe nos rios e entre as ilhas." Fez novamente uma pausa, e
continuou.
     "Estamos em paz. A minha vida  muito feliz. A minha famlia
 grande; parece que tenho parentesco com muita gente da
minha aldeia. Conheo as razes, plantas, ervas. . . Posso fazer
medicamentos a partir de plantas... Sei como curar."
     Nas culturas dos ndios americanos a utilizao de poes
curativas ou outras prticas holsticas no eram penalizadas. Em
vez de ser chamados bruxos e afogados ou queimados, os
curandeiros eram respeitados e frequentemente venerados.
     Fi-la avanar um pouco ao longo dessa vida, mas no
descobrimos quaisquer traumas. Era uma vida pacfica e
aprazvel. Morreu de velhice, rodeada por toda a aldeia.
     "Existe muito pouca tristeza ligada  minha morte" reparou
ela aps flutuar sobre o seu velho corpo mirrado e examinando a
cena de cima, "mas apesar disso toda a minha aldeia parece ali se
encontrar." Ela no estava de todo perturbada pela ausncia de
sofrimento dos que a rodeavam. Havia um grande respeito e
carinho por ela, pelo seu corpo e pela sua alma. Apenas faltava a
tristeza.
     "Ns no choramos a morte, porque sabemos que o esprito 
eterno. Ele volta sob a forma humana se o seu trabalho no
estiver terminado" explicou ela. "Por vezes, com um exame
cuidadoso do novo corpo, a identidade do anterior pode ser
conhecida." Ela ponderou este conceito por alguns momentos.
"Procuramos sinais de nascena onde antes existiam cicatrizes e
outros sinais" elaborou.
     "Pelo    mesmo    motivo, tambm        no    celebramos      os
nascimentos. . . apesar de ser bom ver de novo o esprito." Ela fez
uma pausa, talvez para procurar palavras para descrever este
conceito.
     "Embora a Terra seja muito bonita e mostre continuamente a
harmonia e interconexo de todas as coisas... o que  uma grande
lio... a vida nela  muito mais dura. Com os grandes espritos
no existe doena, dor, separao... No h ambio, competio,
dio, medo, inimigos... Existe apenas paz e harmonia. Assim
qualquer esprito, ao voltar, no pode estar feliz por deixar tal
lugar. Seria errado festejar quando o esprito est triste. Seria algo
muito egosta e insensvel" concluiu ela.
     "O que no significa que no demos as boas vindas ao esprito
acabado de chegar" acrescentou rapidamente. " importante
mostrarmos o nosso amor e afecto nessa altura em que est to
vulnervel."
     Tendo explicado este fascinante conceito de morte sem
tristeza e nascimento sem celebrao, ficou silenciosa,
repousando. Aqui, mais uma vez, estava o conceito de
                                                   S O AMOR  REAL - 37




reencarnao e o encontro sob forma fsica da famlia, amigos e
amantes de vidas passadas.
     Em todos os tempos e em diversas culturas atravs da
histria, este conceito tem surgido de forma aparentemente
independente. A vaga memria daquela antiga vida pode t-la
trazido de novo para a Florida, recordando-a a um nvel profundo
de um lar ancestral. Talvez a impresso da areia e do mar, das
palmeiras e dos pntanos de mangues tenha tocado a memria da
sua alma, ajudando-a a recuar ainda mais no tempo, numa
seduo subconsciente. Pois aquela vida tinha sido muito
agradvel, repleta de satisfao, que no existia na sua vida
presente.
     Talvez tenham sido estes estmulos antigos que a tenham
levado a inscrever-se na Universidade de Miami, o que a levou 
sua posterior mudana para Miami, ao ganhar a bolsa. No era
coincidncia. O destino exigia que ela estivesse aqui.
     "Est cansada?" perguntei, voltando a minha ateno para
Elisabeth, que ainda descansava tranquilamente na cadeira
reclinvel.
     "No" respondeu ela calmamente. "Quer explorar uma outra
ida?" "Sim." Mais silncio.
     Mais uma vez viajmos para trs atravs do tempo e, mais
uma vez, ela emergiu numa terra antiga.
     "Isto  uma terra despovoada" observou Elisabeth depois de
ter examinado a cena. "H montanhas altas... estradas
poeirentas... os comerciantes passam nestas estradas...  uma
rota para os comerciantes que se deslocam para Este e Oeste.:."
     "Sabe que pas ?" perguntei, procurando pormenores.
     No me queria intrometer com demasiadas perguntas ao lado
esquerdo do crebro, a parte lgica. Tais perguntas poderiam
interferir com o carcter imediatista da experincia, que  mais
uma funo intuitiva, do lado direito do crebro. Mas Elisabeth
estava num estado de hipnose extremamente profundo. Ela podia
responder s perguntas e, no entanto, continuar a presenciar
vividamente esta cena. Os pormenores tambm eram
importantes.
     "ndia... creio" respondeu hesitante. "Talvez a Oeste... No
creio que as fronteiras sejam bem definidas. Vivemos nas
montanhas e existem desfiladeiros que os comerciantes tm que
atravessar" acrescentou, voltando  cena.
     "V-se a si prpria?" perguntei.
     "Sim... sou uma rapariga... com cerca de quinze anos. A minha
pele  mais escura, e tenho cabelo negro. As minhas roupas esto
sujas. Trabalho nos estbulos... a cuidar dos cavalos e das mulas...
Somos muito pobres. O clima  to frio; as minhas mos esto to
38 - BRIAN L. WEISS, M.D.




geladas a trabalhar aqui." A face contorcida num esgar, Elisabeth
cerrava os punhos.
     Esta jovem era naturalmente inteligente, mas sem educao.
A sua vida era dolorosamente difcil. Os comerciantes abusavam
dela com frequncia, algumas vezes deixavam-lhe algum dinheiro.
A famlia era incapaz de a proteger. Um frio entorpecedor e fome
constante atormentavam a sua vida. Havia apenas uma pequena
luz que brilhava na existncia daquela rapariga.
     "Existe um jovem comerciante que passa por aqui muitas
vezes com o pai e os outros. Ele ama-me e eu amo-o. Ele 
divertido e gentil, e rimo-nos muito juntos. Eu s queria que ele
pudesse ficar para podermos estar juntos todo o tempo."
     Tal no aconteceria. Ela morreu aos dezasseis anos. O seu
corpo, j desgastado pelos elementos e pela dureza da vida,
rapidamente sucumbiu a uma pneumonia. A famlia estava  sua
volta quando ela morreu.
     Ao rever esta breve vida, Elisabeth no estava triste. Tinha
aprendido uma lio importante.
     "O amor  a fora mais poderosa do Universo" disse ela
suavemente. "O amor pode florescer e desabrochar mesmo num
solo gelado e nas condies mais duras. Existe sempre e em todo
o lado. O amor  uma flor de todas as estaes."
     A sua face estava radiante com um belo sorriso.
     Um paciente meu, um advogado catlico, tinha acabado de
recordar uma vida na Europa dos finais da Idade Mdia. Tinha
relembrado a sua morte naquela vida, uma vida repleta de
avareza, violncia e fraude. Tinha conscincia de que alguns
desses traos tinham permanecido na sua vida actual.
     Agora, reclinado na macia cadeira de couro do meu gabinete,
apercebia-se de que estava a flutuar fora do seu corpo nessa vida
medieval. Subitamente, encontrou-se num ambiente infernal,
entre fogo e demnios. Isso surpreendeu-me. Apesar de ter
testemunhado milhares de mortes em vidas passadas de
pacientes meus, nunca ningum tinha tido uma experincia com o
Inferno. Quase invariavelmente as pessoas eram atradas para
uma luz indescritivelmente bela, uma luz que renova e recarrega
as energias do esprito. Mas, o Inferno?
     Esperei que qualquer coisa acontecesse, mas ele relatou que
ningum lhe prestava ateno. Ele tambm esperava. Minutos
passaram. Finalmente, uma figura espiritual, que ele identificou
como Jesus, surgiu e caminhou na sua direco. Era o primeiro ser
que reparava nele.
     "No percebes que tudo isto  iluso?" disse-lhe Jesus. "S o
amor  real!" Ento, fogo e demnios desapareceram
instantaneamente, revelando a bela luz que sempre ali tinha
estado, despercebida, por trs da iluso.
                                                                   S O AMOR  REAL - 39




    Por vezes temos o que esperamos, mas pode no ser real.



8
                                    o segredo do mundo que todas as coisas subsistam e no
                        morram, mas apenas se afastem um pouco da vista e depois voltem de
                     novo. Nada est morto; os homens fingem-se mortos, e suportam funerais
                        simulados e obiturios lgubres, e ali se erguem olhando pela janela,
                                         sos e escorreitos, nalgum novo e estranho disfarce.
                                                                   RALPH WALDO EMERSON
     Tanto o Pedro quanto eu precisvamos de aprender mais
sobre as origens do seu desespero, que tinha sido ainda mais
acentuado pela trgica morte do irmo. Precisvamos de
compreender melhor a superficialidade das suas relaes.
Estariam as constantes criticas da me s suas namoradas e a
culpa em relao ao aborto a bloquear o seu amor? Ou
simplesmente ainda no tinha conhecido a mulher certa?
     O processo de regresso  como perfurarem busca de
petrleo. Nunca se sabe onde o petrleo est, mas quanto maior a
profundidade atingida maior a probabilidade de o encontrar.
     Hoje regrediramos a um nvel ainda mais profundo.
     Pedro s recentemente tinha comeado a recordar as suas
vidas passadas. Com frequncia, no incio, as vidas passadas so
abordadas nos seus pontos mais traumticos. Tal aconteceu de
novo.
     "Sou um soldado... ingls, penso eu" observou Pedro. "Muitos
de ns so trazidos em navios para capturar a fortaleza do
inimigo.
      gigantesca, com muros muito altos e espessos. Encheram o
porto com grandes pedras. Temos que encontrar uma outra forma
de entrar." Enquanto a invaso era adiada ele permaneceu em
silncio.
     "Avance no tempo" sugeri. "Veja que se passa a seguir." Dei-
lhe trs pancadinhas leves na testa de forma a focar a sua
ateno e ajud-lo a ultrapassar o lapso de tempo.
     "Passmos pelas pedras e abrimos uma brecha na fortaleza"
respondeu. Comeou a gemer e a suar. "Pequenos tneis. . .
corremos por eles, mas no sabemos para onde vamos. .. Os
tneis so estreitos e baixos. Temos que ir em fila indiana e
dobrarmo-nos enquanto corremos."
     Pedro comeou a suar profusamente. Respirava muito
rapidamente, e parecia extremamente perturbado.
     "Vejo uma pequena sada ali  frente... Estamos a passar
atravs dessa porta."
40 - BRIAN L. WEISS, M.D.




     "Ai!" gemeu ele subitamente. "Os Espanhis esto do outro
lado da porta. Eles esto a matar-nos  medida que passamos, um
de cada vez... Eles feriram-me com uma espada!" Arquejou,
levando a mo ao pescoo. A sua respirao tomou-se ainda mais
rpida. Arfava, agora, buscando desesperadamente ar e o suor
caa-lhe da cara, ensopando a camisa. Subitamente os seus
movimentos cessaram. A respirao tornou-se regular e ele ficou
calmo.  medida que eu lhe secava a testa e o rosto com um leno
de papel, a sudao diminua.
     "Estou a flutuar sobre o meu corpo" anunciou Pedro. "Deixei
aquela vida... tantos corpos.. . tanto sangue aliem baixo. . . mas
agora estou acima disso tudo." Flutuou em silncio por alguns
momentos.
     "Reveja essa vida" instrui-o. "O que  que aprendeu? Quais
foram as lies?"
     Ele ponderou sobre estas questes de uma perspectiva mais
elevada. "Aprendi que a violncia  fruto de uma profunda
ignorncia. Eu morri sem sentido, longe do meu lar e dos meus
entes queridos. Morri devido  avidez de outros. Tanto os Ingleses
como os Espanhis foram estpidos, matando-se por ouro em
terras longnquas. Roubando ouro dos demais e matando-se
mutuamente por isso. Avidez e violncia mataram essas pessoas...
Todos eles esqueceram o amor."
     Ficou mais uma vez em silncio. Decidi deix-lo descansar e
digerir estas lies incrveis. Tambm eu comecei a meditar sobre
as lies de Pedro. Atravs dos sculos, desde a morte v de
Pedro numa fortaleza distante do seu lar em Inglaterra, o ouro
transformou-se em dlares, libras, ienes, e pesos, mas
continuamos a matar-nos por ele. De facto, tal tem vindo a
acontecer atravs da histria. Quo pouco temos aprendido ao
longo dos sculos! Quanto mais necessitamos de sofrer para nos
lembrarmos de novo do amor?
     A cabea de Pedro comeou a mover-se de um lado para o
outro na cadeira. Ele tinha um sorriso divertido na cara. Tinha
entrado espontaneamente numa outra vida, muito mais recente.
Depois de Pedro ter comeado a recordar vidas passadas, as suas
experincias visuais eram particularmente vvidas.
     "O que  que est a sentir?" perguntei.
     "Sou uma mulher" observou. "Sou bastante bonita. O meu
cabelo  loiro e comprido... a minha pele  muito plida." Com
grandes olhos azuis e roupas elegantes, Pedro era uma prostituta
muito requerida na Alemanha aps a I Guerra Mundial. Apesar de
o pas estar a atravessar um perodo de inflao galopante, os
ricos ainda tinham dinheiro para os seus servios.
                                                  S O AMOR  REAL - 41




     Pedro teve alguma dificuldade em lembrar-se do nome desta
elegante mulher. "Magda, creio" disse. Eu no o queria distrair da
sua avaliao visual.
     "Sou muito bem sucedida neste negcio" disse Magda
orgulhosamente. "Sou confidente de polticos, lderes militares e
homens de negcios muito importantes." Ela parecia um tanto
frvola  medida que se ia recordando.
     "Eles esto todos obcecados pela minha beleza e pela minha
habilidade" acrescentou. "Sei sempre exactamente o que fazer."
Magda possua uma voz excelente e frequentemente actuava em
elegantes soires. Tinha aprendido a manipular os homens.
     Provavelmente devido a todas as vidas passadas como
homem, pensei eu sem o dizer.
     Ento a voz de Pedro desceu a um sussurro. "Eu influencio
estas pessoas... Consigo fazer com que eles alterem decises...
Eles fazem-no por mim" disse ela, impressionada com o seu status
e capacidade para influenciar estes poderosos homens.
     "Geralmente sei mais do que eles" continuou ela de certa
forma pesarosa. "Eu ensino-lhes poltica!" Magda gostava do
poder e da intriga poltica. O seu poder poltico era, no entanto,
indirecto; tinha sempre que ser mediado por homens, e isto
frustrava-a. Numa vida futura, Pedro no iria necessitar de
intermedirios.
     Um homem jovem, em particular, distinguia-se dos outros.
"Ele  mais srio e inteligente que os demais" observou Magda.
"Os seus cabelos so castanhos e os olhos muito azuis... Ele revela
paixo em tudo o que faz! Passamos muitas horas apenas a falar.
Acredito, tambm, que nos amamos." Ela no reconheceu este
homem como algum na sua vida actual.
     Pedro parecia triste e uma lgrima formou-se no canto do seu
olho esquerdo.
     "Deixei-o por outro... um homem mais velho, poderoso e rico,
que me queria em exclusivo... No segui o meu corao. Cometi
um erro terrvel. Ele ficou tremendamente ferido com o meu acto.
Nunca me perdoou... Nunca compreendeu." A Magda tinha
procurado segurana e poder extrnseco, tendo posto estas
qualidades  frente do amor, a verdadeira fonte de fora e
segurana.
     Aparentemente, a sua deciso foi uma daquelas que marca
um ponto de viragem na vida, uma bifurcao na estrada que,
uma vez escolhida, no permite que se volte atrs.
     O seu idoso amante perdeu o poder  medida que a Alemanha
fazia a brutal viragem para os novos partidos da violncia.
Abandonou-a. Magda perdera o rasto do seu jovem apaixonado.
Depois, o seu corpo comeou a deteriorar-se devido a uma doena
42 - BRIAN L. WEISS, M.D.




sexual crnica, provavelmente sfilis. Estava deprimida e no tinha
vontade para resistir  implacvel doena.
     "V para o fim dessa vida" pedi-lhe. "Veja o que  que lhe
acontece, quem  que est  sua volta."
     "Estou numa cama reles... num hospital.  um hospital para os
pobres. H muita gente aqui, doentes e a gemer... os mais pobres
dos pobres. Esta deve ser uma cena vinda do Inferno!"
     "V-se a si prpria?"
     "O meu corpo est grotesco" respondeu Magda. "Existem
mdicos ou enfermeiras  sua volta?"
     "Eles esto por a" respondeu ela amargamente. "Mas no me
prestam nenhuma ateno... No esto de forma alguma tristes.
Eles desaprovam a minha vida e o que eu fiz. Esto a castigar-
me."
     Uma vida de beleza, poder, e intriga terminara desta forma
terrvel. Pouco depois flutuava sobre o seu corpo, finalmente livre.
"Agora sinto-me to em paz" acrescentou. "Quero apenas
descansar."
     Pedro estava silencioso na cadeira. Iria rever mais uma vez as
lies daquela vida. Estava exausto e eu despertei-o.
     A dor crnica que Pedro sentia no pescoo e ombro esquerdo
desapareceu gradualmente ao longo das semanas seguintes. Os
mdicos nunca tinham encontrado a origem desta dor. Claro que
nunca tinham considerado que uma ferida mortal de uma espada
de h vrios sculos pudesse ser uma causa provvel.
     Fico constantemente espantado com a falta de viso da
maioria das pessoas. Conheo muita gente diariamente obcecada
pela educao dos filhos: qual o melhor infantrio, escolas
privadas versus escolas pblicas, quais os mais eficientes cursos
de preparao para ingresso no ensino superior, como maximizar
as notas e actividades extracurriculares de forma a dar aos filhos
uma margem para poderem entrar naquela faculdade, naquela
universidade, ad infinitum. Depois o mesmo ciclo recomea com
os netos.
     Mas estas pessoas pensam que o mundo est parado no
tempo, que o futuro ser uma rplica do presente.
     Se continuamos a cortar as nossas florestas e a destruir as
fontes de oxignio, o que  que estas crianas iro respirar dentro
de vinte ou trinta anos? Se envenenamos o nosso sistema de gua
e os ciclos de alimentos, o que  que iro comer? Se cegamente
continuamos a produzir clorofluorcarbonetos e outros resduos
orgnicos e a abrir buracos na camada de ozono, podero eles
viver ao ar livre? Se sobreaquecemos este planeta atravs do
efeito de estufa, com a subsequente subida do nvel dos oceanos
e inundao das nossas costas, se exercemos demasiada presso
nas linhas tectnicas ocenicas e continentais, onde  que eles
                                                    S O AMOR  REAL - 43




iro viver? E os filhos e netos na China, frica, Austrlia e todos os
outros     stios   esto    igualmente    vulnerveis     pois    so
inexoravelmente residentes deste planeta. E j agora, considere o
seguinte. Se e quando reencarnar voc for uma dessas crianas?
     Assim, como  que podemos preocupar-nos tanto com testes
de admisso e faculdades quando talvez no exista um mundo
para os nossos descendentes?
     Por que est toda a gente to obcecada em viver mais tempo?
Por que espremer mais alguns infelizes anos a um final j de si
penoso? Para qu a preocupao com os nveis de colesterol,
dietas de farelo, contagens de lpidos, exerccios aerbicos, e
assim sucessivamente?
     No faz mais sentida viver com alegria o agora, tornar pleno
cada dia, amar e ser amado, do que preocuparmo-nos tanto
acerca da nossa sade fsica num futuro que desconhecemos? E
se no houver futuro? E se a morte  uma libertao para a
felicidade?
     No tome isto como um convite para negligenciar o seu corpo,
nem uma desculpa para fumar ou beberem excesso ou usar
drogas ou ser imensamente obeso. Estas condies causam
infelicidade, desgosto e incapacidade. Apenas o convido a no se
preocupar tanto com o futuro. Encontre a sua felicidade hoje.
     A ironia  que, assumindo esta atitude desprendida e vivendo
alegremente o presente, provavelmente ir viver mais anos.
     Os nossos corpos e almas so como os carros e os seus
condutores. Lembre-se sempre que  o condutor, no o carro. No
se identifique com o veculo. A nfase dada actualmente ao
prolongar da durao das nossas vidas, em viver at aos cem
anos ou mais,  uma loucura.  como ficar com o seu velho Ford
depois deste ter passado os 200.000 ou 300.000 quilmetros. A
estrutura metlica do carro est a enferrujar, a transmisso foi
reparada cinco vezes, coisas caem do motor e, no entanto,
recusamo-nos a troc-lo. E ali, as virar da esquina, est outro
automvel, novinho em folha,  sua espera. A nica coisa que tem
que fazer  sair devagarinho do velho Ford e deslizar para dentro
do novo automvel. O condutor, a alma, nunca muda. Apenas o
carro.
     E, a propsito, at pode ser que, ao longo do caminho, se
venha a encontrar dentro de um Ferrari!




9
44 - BRIAN L. WEISS, M.D.




                                      To longe quanto posso lembrar, inconscientemente recorri s
                            experincias de um estado prvio de existncia. . . Vivi na Judeia h mil
                            e oitocentos anos, mas nunca soube que existia um Cristo entre os meus
                              contemporneos. Como as estrelas que me olharam quando eu era um
                                pastor na Assria, olham-me agora como nativo da Nova Inglaterra.
                                                                            HENRY DAVID THOREAU

     Duas   semanas haviam passado desde a ltima sesso com
Elisabeth, dado esta ter de fazer uma viagem de negcios.
Viagens para fora da cidade no eram raras para ela. O bonito
sorriso com que tinha terminado a ltima sesso havia-se
desvanecido; as realidades e presses do dia a dia tinham mais
uma vez cobrado o seu preo.
     No entanto, ela estava ansiosa para continuar a sua viagem
atravs dos tempos idos. Tinha comeado a recordar
acontecimentos       e   lies   importantes    de   outras   vidas.
Experimentara um vislumbre de felicidade e esperana. Agora
queria mais.
     Facilmente atingiu um estado de transe profunda.
     Elisabeth recordou as pedras de Jerusalm com as suas cores
particulares, que se alteram de acordo com a luz do dia e da noite.
Umas vezes douradas, outras vezes matizadas de rosa ou bege.
Mas a cor dourada voltava sempre. Recordou a sua cidade perto
de Jerusalm com as pequenas ruas de terra e pedra, as casas, os
habitantes, as suas roupas, os seus costumes. Havia algumas vinhas
e figueiras, alguns campos eram de linho e noutros o trigo crescia. A
gua vinha do poo ao fundo da rua. Junto dele erguiam-se antigos
carvalhos e romzeiras. Era um perodo de intensa actividade
religiosa e espiritual na Palestina, como sempre parece ter sido, de
novas mudanas com a esperana sempre presente, mas tambm a
opresso, a dureza dos dias, a luta pela sobrevivncia, o domnio dos
invasores de Roma.
     Ela lembrava-se do seu pai, de nome Eli, que trabalhava em casa
como oleiro. Utilizando a gua do poo, ele criava formas do barro,
fazendo taas, jarras, e muitos outros artigos para a sua casa e para
os aldees, e mesmo alguns para vender em Jerusalm. Por vezes,
mercadores ou outros viajantes passavam pela aldeia e compravam
as suas canecas, taas ou recipientes de cozinha. Elisabeth forneceu
muito mais descries da roda do oleiro, do ritmo do p do pai na
roda e pormenores da vida nessa pequena aldeia. O seu nome era
Miriam e era uma rapariga feliz que vivia em tempos turbulentos. Em
breve a sua vida iria mudar devido ao alastramento dessa violncia
at  sua aldeia.
     Progredimos para o acontecimento seguinte significativo naquela
vida: a morte prematura do pai s mos de soldados romanos. Estes
atormentavam com frequncia os primeiros Cristos que viveram na
Palestina naquele tempo. Concebiam jogos cruis apenas para seu
                                                    S O AMOR  REAL - 45




divertimento. Um desses jogos tinha morto acidentalmente o querido
pai de Miriam.
     Os soldados ataram os tornozelos de Eli e arrastaram-no pelo
cho puxado por um cavalo montado por um soldado. Depois de um
minuto infindvel, o cavalo tinha parado. O corpo do pai estava
ferido, mas tinha sobrevivido  provao. A filha, aterrorizada, podia
ouvir os soldados rir estrepitosamente. Mas eles ainda no tinham
terminado.
     Dois dos romanos ataram as pontas livres da corda  volta do
seu prprio trax e comearam aos saltos e aos repeles, imitando
cavalos. O pai de Miriam tombou para a frente e a cabea bateu
numa pedra grande. Foi assim que ficou mortalmente ferido.
     Os soldados deixaram-no na estrada poeirenta.
     A falta de sentido de tudo aquilo somou-se  lancinante angstia
de Miriam, um dio amargo e desesperado somou-se  violenta
morte do pai. Aquilo fora apenas um passatempo para os soldados.
Eles nem sequer conheciam o seu pai. Eles no tinham sentido o seu
toque suave quando cuidava dos seus pequenos cortes e ndoas
negras de infncia. Eles no sabiam do seu bom humor quando
trabalhava na roda. No tinham cheirado o seu cabelo depois dele
tomar banho. No tinham provado os seus beijos nem sentido os
seus abraos. Eles no tinham passado todos os dias das suas vidas
com aquele homem meigo e carinhoso.
     No entanto, em poucos minutos de horror, eles extinguiram uma
vida linda e encheram os restantes anos da vida de Miriam com um
desgosto que nunca iria realmente sarar, com uma perda que nunca
poderia ser substituda, com um vazio que nunca seria colmatado.
Por passatempo. A ausncia de sentido ultrajava-a e lgrimas de dio
juntaram-se s de dor.
     Ficou a baloiar-se para trs e para a frente no cho poeirento e
manchado de sangue, embalando a cabea do pai no seu colo. Ele j
no podia falar. Sangue corria do canto da boca. Ela podia ouvir o
estertor no seu peito cada vez que ele lutava para respirar. A morte
estava muito prxima. A luz dos seus olhos aproximava-se do
crepsculo, do fim do seu dia.
     "Amo-te pai" sussurrou ela suavemente, olhando-o tristemente
nos olhos mortios. "Amar-te-ei para sempre."
     Os olhos sem luz do pai fitaram-na num sinal de compreenso
antes de se fecharem para sempre.
     Ela continuou a embal-lo at ao pr do Sol desse dia, quando a
famlia e os outros aldees suavemente levaram o corpo para que
pudesse ser preparado para a inumao. Na sua mente ela ainda
podia ver os seus olhos. Estava certa de que ele a havia
compreendido.
     Sentado em silncio, imobilizado pela profundidade do desespero
de Elisabeth, reparei que o gravador no estava a funcionar. Pus uma
46 - BRIAN L. WEISS, M.D.




cassete nova e a luz vermelha da gravao acendeu. Estvamos a
gravar de novo.
     A minha mente relacionou a dor actual de Elisabeth com o
desgosto sofrido na Palestina h quase dois mil anos. Seria este mais
um caso em que o desgosto antigo se combinava com o actual?
Ira a experincia da reencarnao e o conhecimento de haver
vida aps a morte curar este desgosto?
     Voltei de novo a minha ateno para Elisabeth.
     "Avance no tempo. Avance para o prximo acontecimento
significativo nessa vida" instrui-a.
     "No h nenhum" respondeu ela. "O que quer dizer?"
     "Nada mais acontece de significativo. Eu posso ver para a
frente... mas nada acontece."
     "Nada de nada?"
     "No, nada" repetiu ela pacientemente. "Casa-se?"
     "No, eu no vivo muito mais tempo. No tenho vontade de
viver. Eu realmente no tenho muito cuidado comigo mesma." A
morte do pai tinha-a afectado profundamente, levando-a
aparentemente a uma profunda depresso e a uma morte
prematura. "Deixei o corpo dela" anunciou Elisabeth.
     "O que  que est a sentir agora?"
     "Estou a flutuar... estou a flutuar..." A sua voz arrastava-se.
Em breve recomeou a falar, mas as palavras j no eram dela. A
sua voz era agora grave e muito forte. Elisabeth podia fazer o que
Catherine e muito poucos dos meus pacientes podiam fazer. Ela
podia transmitir mensagens e informaes dos Mestres, seres no-
fsicos de um nvel mais elevado. O meu primeiro livro est repleto
da sabedoria destes.
     Eu podia apreender mensagens semelhantes quando
meditava, mas as palavras pareciam sempre mais cheias de
sentido quando provinham dos meus pacientes. Eu sabia que tinha
que desenvolver a confiana nas minhas prprias capacidades de
ouvir, receber, e perceber esses mesmos conceitos provenientes
dessas mesmas origens.
     "Lembra-te" disse a voz. "Lembra-te de que s sempre amado.
Ests sempre protegido e nunca ests s... Tambm s um ser de
luz, de sabedoria, de amor. E nunca poders ser esquecido. Nunca
poders passar despercebido ou ser ignorado. Tu no s o teu
corpo; tu no s o teu crebro, nem mesmo a tua mente. s um
esprito.
     Tudo o que tens a fazer  despertares de novo para a
memria, para recordar. O esprito no tem limites, nem os limites
do corpo fsico nem o alcance do intelecto ou da mente.
     "Quando a energia vibratria do esprito  reduzida para que
meios ambientes mais densos, como o teu plano tridimensional,
possam ser experimentados, o resultado  que o esprito sofre
                                                  S O AMOR  REAL - 47




uma espcie de cristalizao e  transformado em corpos cada
vez mais densos. O mais denso de todos  o estado fsico. Neste
estado a razo vibratria  a mais baixa de todas. O tempo parece
ser mais rpido neste estado pois est inversamente relacionado
com a razo vibratria.  medida que a razo vibratria aumenta,
o tempo torna-se mais lento.  por esta razo que pode haver
dificuldade na escolha do corpo certo bem como da altura certa
para a reentrada no estado fsico. A oportunidade pode ser
perdida devido  disparidade do tempo... Existem muitos nveis de
conscincia, muitos estados vibratrios. No  importante que
conheas todos estes nveis.
     "O primeiro nvel de sete  aquele que  mais importante para
ti.  importante experimentar no primeiro plano em vez de
abstrair e intelectualizar sobre os planos mais elevados.
Eventualmente ters que experiment-los todos... A tua tarefa 
ensinar a partir da experincia - pegar naquilo que  crena e f e
transform-lo em experincia, de forma que a aprendizagem fique
completa, porque a experincia transcende a crena. Ensina-os a
experimentar. Remove o seu medo. Ensina-os a amar e a ajudar-se
mutuamente...Tal envolve o livre arbtrio dos demais. Mas alcana-
os com amor, com compaixo, para ajudar outros -  isto que
deves fazer no teu plano.
     "Os seres humanos pensam sempre neles como sendo os
nicos seres. Tal no  o caso. Existem muitos mundos e muitas
dimenses... muitas, muitas mais almas do que invlucros fsicos.
Alm disso, uma alma pode dividir-se se o desejar e ter mais que
uma experincia ao mesmo tempo. Tal  possvel, mas requer um
nvel de desenvolvimento que a maior parte no atingiu.
Eventualmente vero que, como uma pirmide, existe apenas
uma alma. E toda a experincia  partilhada simultaneamente.
Mas isto ainda no  para agora.
     "Quando olhas para os olhos de outra pessoa, qualquer
pessoa, e vs a tua prpria alma devolver o olhar, ento sabers
que atingiste um outro nvel de conscincia. Neste sentido a
reencarnao no existe, uma vez que todas as vidas e
experincias so simultneas. Mas no mundo tridimensional, a
reencarnao  to real quanto o tempo, as montanhas ou os
oceanos. E uma energia como outras energias e a sua realidade
depende da energia daquele que a apreende. Enquanto o que
apreende percebe um corpo fsico e objectos slidos, a
reencarnao  real para ele. A energia consiste em luz, amor e
conhecimento. A aplicao deste conhecimento com amor 
sabedoria... Existe, actualmente, uma grande falta de sabedoria
no teu plano."
     Elisabeth calou-se. Tal como Catherine, ela podia recordar os
pormenores das suas vidas fsicas passadas, mas nada das
48 - BRIAN L. WEISS, M.D.




mensagens que transmitia a partir de um estado entre vidas.
Ambas estavam em estados muito mais profundos quando
transmitiam estas mensagens. Muito poucos pacientes atingem
uma profundidade tal que a amnsia  induzida. Tal como
acontecia com Catherine, as mensagens de Elisabeth podiam
ajudar a corrigir a "falta de sabedoria" no nosso plano.
     Muito conhecimento ainda iria ser recolhido antes que
Elisabeth terminasse.
     O meu contacto com a sabedoria dos Mestres tem sido
limitado desde que Catherine se curou e a sua terapia terminou.
No entanto, em sonhos ocasionais, inacreditavelmente vvidos e
quase lcidos, recebo mais informao, tal como as expus nas
ltimas pginas de Muitas Vidas, Muitos Mestres. E, por vezes, as
mensagens vm quando estou num estado de profunda
meditao, semelhante ao do sonho. Por exemplo, foi-me
apresentado um sistema de psicoterapia para o sculo XXl, um
sistema de natureza psico-espiritual e que pode substituir as j
excessivamente utilizadas e gastas tcnicas do passado.
     As mensagens e imagens encheram o meu crebro a grande
velocidade com uma clareza e um brilho perturbadores.
Infelizmente no podia "gravar" a minha mente, a estao
receptora. As ideias so como pedras preciosas, mas os seus
engastes - as minhas palavras a tentar definir e explicar os
pensamentos rpidos e incisivos - so como coisas sem valor. O
incio era uma mensagem clara.
     "Tudo  amor...Tudo  amor. Com o amor vem a compreenso.
Com a compreenso vem a pacincia. E ento o tempo pra. E
tudo  agora."
     Imediatamente, compreendi a verdade destes pensamentos. A
realidade  o presente. O conflito no passado ou no futuro causa
dor e doena. A pacincia pode parar o tempo. O amor de Deus 
tudo.
     Pude tambm compreender de imediato o poder curativo
destes pensamentos. Comecei a compreender.
     "O amor  a resposta final. O amor no  uma abstraco,
mas uma energia real, ou um espectro de energias, que podes
"criar" e manter no teu ser. Basta que te abras ao amor. Estars a
comear a tocar Deus dentro de ti mesmo. Sente-te cheio de
amor. Expressa o teu amor.
     "O amor dissipa o medo. No podes ter medo quando ests a
sentir amor. Uma vez que tudo  energia e o amor contm todas
as energias, tudo  amor. Este  um forte indcio para a natureza
de Deus.
     "Quando ds amor, sem medo, podes perdoar. Podes perdoar
os outros e podes perdoar a ti mesmo. Comeas a ver na
perspectiva correcta. Culpa e raiva so reflexos do mesmo medo.
                                                  S O AMOR  REAL - 49




A culpa  uma raiva subtil dirigida para dentro. O perdo dissipa a
culpa e a raiva. So emoes desnecessrias que provocam
sofrimento. Perdoa. Perdoar  um acto de amor.
     "O orgulho pode ser um obstculo no caminho do perdo. O
orgulho  uma manifestao do ego. O ego  um `eu' falso e
transitrio. Tu no s o teu corpo. Tu no s o teu crebro. Tu no
 o teu ego. Tu s maior que todos eles. Necessitas do teu ego
para sobreviver no mundo tridimensional, mas apenas daquela
parte que processa a informao. O resto - orgulho, arrogncia,
desconfiana, medo -  pior do que intil. O resto do ego separa-te
da sabedoria, alegria e Deus. Tens que transcender o teu ego e
encontrar o teu verdadeiro `eu'. O verdadeiro `eu'  a parte
permanente, a mais profunda de ti mesmo.  sensato, pleno de
amor, seguro e alegre. "O intelecto  importante no mundo
tridimensional, mas a intuio -o ainda mais.
     "Inverteste a realidade e a iluso. A realidade  o
reconhecimento da tua imortalidade, divindade e eternidade. A
iluso  o teu mundo transitrio tridimensional. Esta inverso est
a prejudicar-te. Anseias pela iluso da segurana em vez da
segurana da sabedoria e amor. Anseias por ser aceite quando, na
realidade, nunca podes ser rejeitado. O ego cria a iluso e
esconde a verdade. O ego deve ser eliminado para que ento a
verdade possa ser vista.
     "Com amor e compreenso vem a perspectiva da pacincia
infinita. Qual  a pressa? De todas as formas o tempo no existe;
apenas parece que existe. Quando no ests a viver o presente,
quando ests absorvido pelo passado ou preocupado com o futuro,
infliges a ti prprio grande desgosto e angstia. Tambm o tempo
 uma iluso. Mesmo no mundo tridimensional, o futuro  apenas
um sistema de probabilidades. Por que te preocupas tanto?
     "Pode ser feita terapia ao `eu'. Compreenso  terapia. Amor
 a maior das terapias. Terapeutas, professores e gurus podem
ajudar, mas apenas por um tempo limitado. A direco  para o
interior e, mais cedo ou mais tarde, o caminho interior deve ser
percorrido sozinho. Apesar de, na realidade, nunca estares
sozinho.
     "Se isso te  necessrio, mede o tempo em lies aprendidas,
no em minutos, horas ou anos. Podes curar-te em cinco minutos
se atingires o conhecimento devido. Ou em cinquenta anos.  tudo
o mesmo.
     "O passado deve ser lembrado e depois esquecido. Deixa-o ir.
Isto  verdadeiro para os traumas de infncia e para os traumas
de vidas passadas. Mas tambm  verdadeiro para atitudes, ideias
erradas, sistemas de crenas metidos  fora na tua cabea, para
todos os velhos pensamentos. De facto, para todos os
pensamentos. Como  que podes ver de uma forma clara e
50 - BRIAN L. WEISS, M.D.




renovada com todos esses pensamentos? E se necessitasses de
aprender alguma coisa nova? Com uma nova perspectiva?
     "Os pensamentos criam a iluso da separao e da diferena.
O ego perpetua essa iluso, e esta iluso gera medo, ansiedade e
um sofrimento tremendo. Medo, ansiedade e sofrimento geram
por sua vez raiva e violncia. Como pode existir paz no mundo
quando estas emoes caticas predominam? Simplesmente
liberta-te. Volta  origem do problema. Ests de volta a
pensamentos, antigos pensamentos. Pra de pensar. Em vez disso,
utiliza a tua sabedoria intuitiva para viver de novo o amor. Medita.
V que tudo est interligado e interdependente. V a unidade, no
as diferenas. V o teu verdadeiro `eu'. V Deus.
     "A meditao e a visualizao ajudar-te-o a parar de pensar
tanto e a iniciares a viagem de volta. A cura acontecer.
Comears a usar a mente que no usavas. Vers.
Compreenders. E tornar-te-s mais sbio. Ento haver paz.
     "Tens uma relao contigo mesmo e com os outros. Viveste
em muitos corpos e em muitos tempos. Ento pergunta ao teu
`eu' actual porque  que  to receoso. Por que tem medo de
assumir riscos razoveis? Tens medo pela tua reputao, medo do
que os outros possam pensar? Esses medos so condicionados na
infncia ou mesmo antes dela.
     "Faz a ti mesmo as seguintes perguntas: O que  que h a
perder? O que  que pode acontecer de pior? Estou feliz por viver
o resto da minha vida desta forma?  isto assim to arriscado
tendo como pano de fundo a morte?
     "No teu crescimento, no tenhas medo de despertar raiva nos
outros. A raiva  apenas a manifestao da sua insegurana. Ao
temeres essa raiva ests a impedir a tua evoluo. A raiva seria
meramente estpida se no criasse tanto sofrimento. Elimina a
tua prpria raiva em amor e perdo.
     "No deixes que a depresso ou a ansiedade atrasem o teu
crescimento. Depresso implica esquecimento, perder a
perspectiva e tomar as coisas como garantidas. Torna-te mais
perspicaz. Restabelece os teus valores. Lembra-te do que no
deve ser tomado por garantido. Muda a tua perspectiva e lembra-
te do que  mais e menos importante. Sai da calha. Lembra-te de
ter esperana.
     "Ansiedade  estar perdido no ego.  perder as prprias
referncias. Existe uma vaga recordao de perda de amor, um
orgulho ferido, uma perda de pacincia e paz. Lembra-te, nunca
ests s.
     "Nunca percas a coragem de arriscar. s imortal. Nunca
poders ser ferido."
     Por vezes as mensagens so muito menos psicolgicas e
parecem ter uma origem mais antiga, mais didctica. O estilo 
                                                  S O AMOR  REAL - 51




bastante diferente.  quase como se eu estivesse a fazer um
ditado.
     "Existem muitos tipos de karma, dvidas a ser saldadas. O
karma individual pertence s obrigaes prprias dessa entidade,
exclusivamente dela. Mas existe tambm o karma de grupo, as
dvidas colectivas desse grupo, e existem muitos grupos: religies,
raas, nacionalidades, e assim sucessivamente. Num nvel mais
abrangente, existe o karma planetrio que com o tempo ir
afectar o destino do planeta. No karma de grupo as dvidas
individuais no vo sendo apenas acumuladas e contabilizadas,
mas o resultado , eventualmente, aplicado ao grupo, pas ou
planeta. A aplicao desse karma de grupo determina o futuro do
grupo ou pas. Mas tambm se aplica ao indivduo que reencarna,
tanto dentro do grupo ou pas, ou simultaneamente e
interceptando mas no dentro, ou num ponto mais tardio no
tempo.
     "A aco torna-se aco correcta quando se transforma numa
aco ao longo do Caminho, ao longo da Senda que conduz a
Deus. Todas as outras sendas so becos sem sada ou iluses, e a
aco ao longo destes no  aco correcta. Assim a aco
correcta promove a espiritualidade do indivduo e o seu retorno. A
aco que promove justia, piedade, amor, sabedoria e os
atributos que chamamos divinos ou espirituais  inevitavelmente
aco correcta. O fruto da aco correcta  o objectivo desejado.
Os frutos das aces ao longo de outros caminhos, so
transitrios, ilusrios e falsos. Tais frutos so armadilhas
enganadoras, no sendo o que realmente desejamos. Os frutos da
aco correcta englobam todos os nossos objectivos, desejos e
tudo o que necessitamos ou desejamos.
     "A fama  um exemplo. Aquele que procura a fama como um
fim em si mesmo pode atingi-la por algum tempo. Mas essa fama
ser temporria e no ser gratificante. Se, no entanto, a fama
vem sem ser convidada, como resultado de uma aco correcta,
aco dentro do Caminho, essa fama perdurar e ser apropriada.
     Mas para a pessoa no Caminho, tal no ter importncia. Esta
 a diferena entre a fama procurada de forma egosta, para o
indivduo, e a fama no procurada ou desejada, um subproduto da
aco correcta. A primeira  iluso e  passageira. A segunda 
real e permanente, aderindo  alma. A primeira agrava o karma e
deve ser saldada; a segunda, no."
     Por vezes as mensagens surgem muito rpida e sucintamente.
"O objectivo no  ganhar, mas abrir-se."
     Depois, como se fosse de novo a sua vez, vem mais
informao da fonte psicolgica e as impresses curtas e incisivas
como um relmpago.
52 - BRIAN L. WEISS, M.D.




     "Deus perdoa, mas tu tambm tens que ser perdoado pelas
pessoas. . . e tens que perdo-las. O perdo tambm  da tua
responsabilidade. Deves perdoar e ser perdoado. A psicanlise no
repara os estragos. Assim, tens que ir para alm do compreensvel
e efectuar mudanas, melhorar o mundo, reparar relaes,
perdoar os outros e aceitar o seu perdo. Ser activo na procura da
virtude  de extrema importncia. No basta falar. Compreenso
intelectual sem a aplicao do remdio no  suficiente. Expressar
o teu amor ."


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                                                             J aqui estive antes, Mas quando ou
                            como no sei dizer; Conheo a relva para l da porta, O cheiro doce e
                              penetrante, O som sussurrante, as luzes junto  costa. J antes foste
                              minha - H quanto tempo, no sei dizer: Mas no momento em que ao
                            voo daquela andorinha O teu pescoo curvou assim, Algum vu caiu, -
                                                                  soube tudo dos tempos antigos.
                                                                        DANTE GABRIEL ROSSETTI

     Pedro entrou a meio de uma vida passada difcil. Por vezes
as vidas mais difceis oferecem as melhores oportunidades para
aprender, para progredir mais rapidamente ao longo dos nossos
caminhos. Por vezes, as vidas passadas relativamente fceis
oferecem menos oportunidades para o progresso. So tempos
para repousar. Esta no era, definitivamente, uma vida fcil. De
imediato, Pedro ficou irado cerrando com fora os maxilares.
     "Eles esto a obrigar-me a ir e eu no quero... eu no desejo
aquele tipo de vida!"
     "Aonde  que o obrigam a ir?" perguntei-lhe, procurando um
esclarecimento.
     "Para o sacerdcio, para ser um monge... eu no quero!"
disse ele insistentemente. Permaneceu em silncio durante um
momento, ainda zangado. Ento comeou a explicar.
     "Eu sou o filho mais novo.  suposto que o faa. Mas eu no
quero deix-la... Estamos apaixonados; se eu for, algum que no
eu ficar com ela... No consigo suportar tal coisa. Antes morrer!"
     Mas ele no morreu. Em vez disso, gradualmente, resignou-se
ao inevitvel. Tinha que se separar do seu amor. O seu corao
estava destroado, mas ele continuou a viver.
     Anos passaram.
     "Agora no  assim to mau. A vida  pacfica. Sou muito
dedicado ao abade e decidi ficar com ele..." Depois de mais
silncio, um reconhecimento.
     "Ele  o meu irmo... o meu irmo. Eu sei que  ele. Somos
muito prximos. Posso ver os seus olhos!"
                                                 S O AMOR  REAL - 53




     Pedro tinha finalmente encontrado o irmo morto. Eu sabia
que agora a sua dor comearia a sarar. De facto, os irmos tinham
estado juntos antes. E, como tal, poderiam estar juntos outra vez.
Mais anos passaram. O abade envelheceu.
     "Ele deixar-me- em breve" predisse Pedro. "Mas estaremos
juntos de novo, no Cu... Rezmos para isso." Pouco tempo depois
o abade morreu e Pedro sofreu.
     Rezou e meditou e a hora da sua morte aproximou-se. Tinha
contrado uma tuberculose e tossia. Respirar era difcil. Os seus
irmos espirituais permaneceram  sua cabeceira.
     Deixei-o passar rapidamente para o outro lado. No era
necessrio voltar a sofrer.
     "Aprendi sobre a ira e o perdo" comeou ele, nem esperando
que eu lhe perguntasse sobre as lies dessa vida.
     "Aprendi que a ira  uma tolice. Corri a alma. Os meus pais
fizeram o que achavam que era melhor tanto para eles como para
mim. No entendiam a intensidade das minhas paixes nem que
eu tinha o direito de determinar a orientao da minha vida e no
eles. Tinham boas intenes, mas no compreendiam. Eles eram
ignorantes... mas eu tambm fui ignorante. Tambm eu j dirigi as
vidas de outros. Assim, como  que os posso julgar ou estar
zangado com eles, se eu fiz o mesmo?
     Mais uma vez ficou em silncio, depois resumiu. "Esta  a
razo por que o perdo  to importante. Todos ns fizemos coisas
pelas quais condenamos os demais. Se queremos ser perdoados,
ento temos de perdoar. Deus perdoa-nos. Tambm ns devemos
perdoar." Ele ainda estava a rever as lies.
     "Eu no teria conhecido o abade se tivesse seguido o meu
caminho" concluiu. "Existe sempre compensao, graa, bondade,
basta apenas procurarmos. Se eu tivesse permanecido zangado e
amargo, se tivesse ficado ressentido com a minha vida, teria
perdido o amor e a bondade que encontrei no mosteiro."
     Havia ainda outras pequenas lies.
     "Aprendi sobre o poder da orao e da meditao"
acrescentou ele. Estava em silncio mais uma vez e ponderava
sobre as lies e implicaes daquela vida santa.
     "Talvez tenha sido melhor sacrificar o amor romntico"
conjecturou, "pelo amor maior de Deus e dos meus irmos."
     Tanto eu como ele no estvamos seguros a este respeito.
Muitas centenas de anos depois, na Alemanha, a alma de Pedro,
em Magda, tinha escolhido um caminho muito diferente.
     O passo seguinte na caminhada de Pedro em busca do ponto
de encontro entre o amor espiritual e o romntico deu-se
imediatamente depois da sua recordao do monge.
     "Estou a ser puxado para uma outra vida" anunciou
abruptamente. "Tenho que ir!"
54 - BRIAN L. WEISS, M.D.




     "Deixe-se ir" incentivei-o. "O que  que est a acontecer?" Ele
ficou em silncio durante alguns minutos.
     "Estou estendido no cho, gravemente ferido... H soldados
ao meu lado. Eles arrastaram-me sobre o cho e as rochas... estou
a morrer!" arfou ele.
     "Di-me muito a cabea e o lado do meu corpo" murmurou ele
numa voz fraca. "Eles j no esto interessados em mim."
     O resto da histria deste pobre homem surgiu lentamente.
Quando ele deixou de dar acordo os soldados partiram. Podia v-
los acima dele com os seus uniformes curtos de couro e botas.
No estavam contentes. Tinham apenas querido divertir-se e no
mat-lo deliberadamente. Tambm no estavam tristes. Para eles
estas pessoas no valiam muito. No final de contas, tinha sido
uma brincadeira pouco satisfatria.
     A sua filha correu para ele, gritando e chorando, e
suavemente colocou a sua cabea no seu colo. Embalou-o
ritmadamente, e ele podia sentir a vida a esvair-se do seu corpo
despedaado. As costelas deviam estar partidas, porque cada vez
que respirava sentia uma dor aguda. Sentia o sangue na boca.
     Agora, as suas foras esvaam-se rapidamente. Tentou falar
com a filha, mas no conseguiu dizer uma palavra. Um estertor
distante subia das profundezas do seu corpo.
     "Eu amo-te, pai" ouviu-a dizer docemente. Estava demasiado
fraco para responder. Amava muito esta filha. Iria sentir a falta
dela para alm do humanamente suportvel.
     Os seus olhos fecharam-se pela ltima vez e a incrvel dor
desapareceu. Mas de alguma forma ele ainda conseguia ver.
Sentiu-se imensamente leve e livre. Deu por si a olhar para o seu
corpo despedaado, a cabea e os ombros pousados, inertes, no
colo da filha. Ela soluava, sem qualquer conscincia de que ele
agora estava em paz e de que a dor tinha desaparecido. Ela
concentrava-se apenas no corpo dele, um corpo que j no o
continha, embalando-o para a frente e para trs.
     Ele podia agora deixar a sua famlia, se o quisesse. Eles
ficariam bem. S teriam que se lembrar que tambm eles
deixariam os seus corpos quando o seu tempo chegasse.
     Tornou-se consciente da luz maravilhosa, mais bela e brilhante
do que mil sis. No entanto, podia olhar directamente para ela.
Algum dentro ou perto da luz lhe acenava. A sua av! Ela parecia
to jovem, to radiante, to saudvel. Desejou ir ter com ela e, no
mesmo momento, estava com ela junto da luz.
     " bom ver-te de novo, meu filho" pensou ela, surgindo as
palavras na conscincia dele. "J l vai tanto tempo."
     Ela abraou-o com os seus braos de esprito e caminharam
juntos para a luz.
                                                 S O AMOR  REAL - 55




     A assombrosa histria de Pedro absorveu-me por completo.
Comovido pela sua dor ao deixar a filha, podia sentir a tristeza
profunda nas suas palavras de despedida. No entanto, alegrei-me
com o encontro com a sua av.
     Se eu no estivesse to envolvido pelas emoes do
momento, que tambm evocavam a memria trgica da morte do
meu filho, talvez a minha mente tivesse estabelecido a ligao
entre Pedro e Elisabeth.
     Eu tinha ouvido antes as palavras da filha. Como Miriam,
Elisabeth tinha-se baloiado para trs e para a frente no cho
ensanguentado, embalando o seu pai moribundo e tinha
sussurrado o mesmo lamento. As histrias eram perfeitamente
similares.
     Naquele momento, para alm da emoo que obscurecia a
minha compreenso, tinham passado vrias semanas e dzias de
doentes desde o relato de Elisabeth, o que atenuava ainda mais a
minha conscincia do facto.
     A descoberta da forma como os seus destinos estavam
entrelaados ficaria adiada para um outro dia.
     A minha mente recuou at  curta vida do meu filho mais
velho, Adam. Penso que foi a vivacidade do desgosto da filha de
Pedro, naquela vida antiga, que despoletou esta memria.
     Eu e a Carole tnhamo-nos confortado nos braos um do outro
depois daquele telefonema do mdico do hospital logo pela
manh. A vida de Adam tinha terminado aos 23 dias. Uma notvel
cirurgia de corao aberto no o tinha podido salvar. Chormos e
consolmo-nos. No havia mais nada que pudssemos fazer
naquele momento.
     O nosso desgosto parecia esmagador, muito para alm do que
 fsica e mentalmente suportvel. At respirar se tornou difcil.
Doa respirar fundo, o ar passava dificilmente, como se existisse
um espartilho apertado  volta dos nossos peitos, um espartilho
de dor, mas sem atilhos para desapertar.
     Com o tempo, a intensidade lancinante da nossa tristeza foi-
se embotando, mas o vazio nos nossos coraes permaneceu.
Tnhamos o Jordan e a Amy, crianas nicas e especiais, mas que
no substituam Adam.
     A passagem do tempo ajudou. Como a ondulao num lago
depois de uma pesada pedra perturbar a sua calma superfcie, as
ondas de dor dissiparam-se lentamente. Como as primeiras ondas
que apertadamente cercam a pedra, tudo nas nossas vidas estava
ligado a Adam.
     Mas com o tempo, novas pessoas e experincias entraram nas
nossas vidas. Eles no estavam to directamente ligados a Adam
e  nossa dor. As ondas atenuavam-se a afastavam-se. Mais novos
acontecimentos, mais novas coisas, mais novos conhecimentos.
56 - BRIAN L. WEISS, M.D.




Espao para respirar. J podamos respirar fundo novamente. O
sofrimento nunca se esquece, mas,  medida que o tempo passa,
pode-se viver com ele.
     Reencontrmos Adam novamente dez anos mais tarde em
Miami. Ele falou connosco atravs de Catherine, a paciente
descrita em Muitas Vidas, Muitos Mestres, e as nossas vidas
nunca mais foram as mesmas. Depois de uma dcada de dor,
comemos a compreender a imortalidade das almas.


11
                                           Muitas vezes o homem vive e morre Entre as suas duas
                               eternidades, A da raa e a da alma, E a velha Irlanda sabia-o bem
                             Quer o homem morra no seu leito Ou uma bala o derrube, Uma breve
                               separao dos entes queridos  o pior que tem a recear. Embora a
                              labuta dos coveiros seja pesada, Afiadas as suas ps, fortes os seus
                            msculos, Mais no fazem que devolver os homens que enterram, Mais
                                                                     uma vez  memria humana.
                                                                                       W B. YEATS

     Elisabeth soluava em silncio sentada na j familiar cadeira
reclinvel. A sua maquilhagem arrastada pelas lgrimas, corria-lhe
face abaixo. Dei-lhe um leno de papel que ela passou
distraidamente pelos olhos enquanto os rastos do negro rmel lhe
traavam o rosto at ao queixo.
     Ela tinha acabado de relatar uma sua vida anterior como uma
mulher irlandesa, uma vida que tinha decorrido pacificamente e
com muita felicidade. No entanto, o forte contraste com a sua vida
actual, com as suas perdas e desespero, magoava-a. Por isso ela
chorava, apesar do final feliz. Eram lgrimas de tristeza e no de
alegria.
     A sesso daquele dia tinha comeado com muito menos
dramatismo. Elisabeth s recentemente tinha reunido a coragem e
a autoconfiana para arriscar uma relao, desta vez com um
homem mais velho que conhecera h pouco tempo. Inicialmente,
Elisabeth sentiu-se atrada por ele devido ao facto de ele ter
dinheiro e posio. Mas no havia uma atraco "qumica", pelo
menos da sua parte. A sua cabea pedia-lhe para assentar, para
aceitar a segurana que ele lhe oferecia. Ele parecia gostar
bastante dela e, afinal, que alternativas  que estavam ali para
ela?
     O corao de Elisabeth disse no. No te deixes ir. Tu no o
amas e sem amor o que  que existe?
     O argumento do seu corao venceu por fim. Ele pressionava-
a para aprofundar a relao, para ter relaes sexuais, para
estabelecer compromissos. Elisabeth decidiu terminar. Estava
                                                 S O AMOR  REAL - 57




aliviada, triste por estar de novo s, mas no deprimida.
Resumindo, ela estava a lidar com o fim desta relao de uma
forma muito apropriada. E, no entanto, aqui estava ela, olhos
vermelhos, nariz a correr e a pintura a desfazer-se cara abaixo.
     Quando comemos o processo de regresso, Elisabeth caiu
num transe profundo e, mais uma vez, a fiz recuar no tempo.
Desta vez ela emergiu na Irlanda, h muitos sculos atrs.
     "Sou muito bonita" comentou logo depois de se observar.
"Tenho cabelo escuro e olhos azuis claros. Visto-me de forma
muito simples e no uso pinturas ou jias... como se estivesse a
esconder-me. A minha pele  to branca, como leite."
     "A esconder-se de qu?" inquiri, seguindo a deixa.
     Ela permaneceu em silncio por alguns momentos procurando
a resposta. "Do meu marido... sim, dele. Oh, ele  grosseiro! Bebe
demasiado e torna-se violento. . . E to egosta. .. eu amaldioo
este casamento!"
     "Por que o escolheu?" perguntei inocentemente.
     "Eu no o escolhi... Nunca o escolheria. Foram os meus pais
que o fizeram e agora esto mortos... Eles esto mortos, mas eu
continuo a ter que viver com ele. Ele  tudo o que eu tenho
agora", disse, com uma frgil tristeza que se juntava  raiva na
sua voz.
     "Tm filhos? Vive mais algum consigo?" perguntei.
     "No." A sua raiva diminua, mas a tristeza era agora mais
evidente. "Eu no posso. Eu tive um... aborto. Houve uma grande
hemorragia. . . e infeco. Dizem que no posso ter filhos... Ele
tambm est zangado comigo por isso... ele culpa-me... por no
lhe dar filhos. Como se o quisesse!" Ela estava de novo
perturbada.
     "Ele bate-me" acrescentou numa voz subitamente suave. "Ele
bate-me como se eu fosse um co. Eu odeio-o por isso." Parou de
falar e formaram-se lgrimas nos cantos dos olhos.
     "Ele bate-lhe?" ecoei.
     "Sim" respondeu ela simplesmente.
     Esperei por mais, mas ela estava relutante em pormenorizar.
"Onde  que ele lhe bate?" insisti.
     "Nas costas, braos, cara. Em todo o stio." "Pode faz-lo
parar?"
     "Por vezes. Costumava reagir e bater-lhe, mas assim ele
magoava-me ainda mais. Ele bebe demasiado. O melhor que
posso fazer  deixar que ele bata. Eventualmente, acaba por se
cansar e parar. . . at  prxima vez."
     "Olhe para ele com ateno" incitei-a. "Olhe para os olhos
dele. Veja se o reconhece como algum da sua vida actual."
58 - BRIAN L. WEISS, M.D.




      Os olhos de Elisabeth estreitaram-se e franziu a testa como se
estivesse a fazer um esforo para ver melhor, apesar de as suas
plpebras permanecerem fechadas.
      "Eu conheo-o!  o George...  o George!"
      "ptimo. Est de volta a essa vida. Os espancamentos
pararam."
      Ela tinha reconhecido George, o banqueiro, com o qual tinha
tido uma relao um ano e meio antes. Essa relao tinha
terminado quando George se tinha tornado fisicamente violento.
      Padres como os maus tratos fsicos podem persistir por
muitas vidas, se no forem reconhecidos e quebrados. Num nvel
subconsciente, Elisabeth e George tinham-se lembrado um do
outro. Mais uma vez se tinham encontrado e ele tinha tentado
maltrat-la de novo. No entanto, Elisabeth aprendera uma
importante lio ao longo dos sculos. Desta vez ela tinha a fora
e o respeito por si mesma para terminar a relao logo depois dos
maus tratos comearem. Quando as origens nas vidas passadas so
descobertas  ainda mais fcil romper com os padres destrutivos.
      Olhei para a Elisabeth. Ela estava silenciosa. Parecia to triste e
desiludida. Eu j tinha informao suficiente sobre o seu marido
violento e decidi lev-la para a frente no tempo.
      "Vou contar de trs para um e tocar-lhe na testa" disse-lhe.
"Quando o fizer, avance no tempo para o prximo acontecimento
significativo    dessa     vida.    Enquanto     conto,    concentre-se
completamente nele. Veja o que lhe acontece."
      Quando cheguei a um, ela comeou a sorrir feliz. Fiquei contente
de que existisse um pouco de luz naquela vida triste.
      "Ele morreu, graas a Deus, e eu estou to feliz" disse ela
efusivamente. "Estou com um homem que amo. Ele  to bom e
meigo. Nunca me bate. Estamos felizes juntos." O seu sorriso de
felicidade nunca se desvaneceu.
      "Como  que o seu marido morreu?" inquiri.
      "Numa taberna" respondeu,  medida que o seu sorriso
desaparecia. "Foi morto numa rixa. Disseram-me que ele tinha sido
esfaqueado no peito com uma faca comprida. Deve ter perfurado o
corao. Disseram-me que havia sangue por todo o lado."
      "No estou triste por ele ter morrido" continuou. "De outra forma
no teria conhecido o John. John  um homem maravilhoso." O seu
sorriso radiante tinha voltado.
      Mais uma vez a pressionei para avanar no tempo. "Avance no
tempo" instru, "e veja o que acontece a si e a John. V para o
prximo acontecimento significativo nas vossas vidas."
      Durante uns momentos ficou silenciosa, a examinar os anos.
"Estou muito fraca. O meu corao est muito irregular" arquejou ela.
"No consigo recuperar o flego!" Ela tinha avanado at ao dia da
sua morte.
                                                    S O AMOR  REAL - 59




     "O John est perto de si?" perguntei.
     "Oh, sim. Est sentado na cama a segurar a minha mo. Est
muito preocupado, muito solcito. Sabe que me vai perder. Estamos
tristes por isso, mas felizes por termos vivido tantos bons anos
juntos." Fez uma pausa recordando a cena em que John estava
sentado na cama. S a relao de Elisabeth com a me se tinha
aproximado deste incrvel nvel de amor, alegria e intimidade que ela
partilhava com John.
     "Olhe atentamente para o John. Olhe para o seu rosto e olhos.
Veja se o reconhece como sendo algum da sua vida actual."
Frequentemente, o reconhecimento ocorre de imediato com uma
certeza absoluta, quando a pessoa olha para os olhos do outro. Os
olhos podem realmente ser a janela da alma.
     "No" disse ela simplesmente. "No o conheo."
     Fez mais uma vez uma pausa e, ento, disse alarmada.
     "O meu corao est a ceder" declarou. "Est muito irregular.
Sinto que tenho que deixar este corpo agora."
     "No faz mal. Deixe esse corpo. Diga-me o que acontece."
Depois de alguns momentos ela comeou a descrever os
acontecimentos que seguiram a sua morte. O seu rosto estava em
paz e a respirao calma.
     "Estou a flutuar acima e ao lado do meu corpo, junto do canto do
tecto. Posso ver o John sentado junto do meu corpo. Ficou ali sentado.
No se quer mexer dali. Agora ficar sozinho. S nos tnhamos um ao
outro."
     "Ento nunca tiveram filhos?" perguntei para esclarecer. "No, eu
no podia. Mas isso no era importante. Tnhamo-nos um ao outro e
isso era suficiente para ns." Recaiu no silncio. O seu rosto estava
em paz, esboando um sorriso.
     "Isto  to bonito. Tenho conscincia de uma luz maravilhosa 
minha volta. Ela atrai-me e eu quero segui-la.  uma luz linda.
Restaura a nossa energia!"
     "Siga-a" concordei.
     "Estamos a viajar ao longo de um bonito vale com rvores e
flores por todo o lado... Estou a aperceber-me de muitas coisas, muita
informao, muito conhecimento. Mas no quero esquecer John. Eu
devo recordar John e se aprender todas estas coisas poderei
esquec-lo e no quero isso!"
     "Tambm se lembrar de John" afirmei, mas no tinha realmente
a certeza. O que era esse outro conhecimento que estava a receber?
Perguntei-lhe.
     " tudo acerca de tempos de vidas e energias, de como usamos
as nossas vidas para aperfeioar as nossas energias, para que
possamos passar para nveis mais elevados. Eles esto a falar-me
sobre energia, sobre amor e de como estes so a mesma coisa...
60 - BRIAN L. WEISS, M.D.




quando compreendemos o que o amor realmente . Mas eu no
quero esquecer John!"
     "Eu lembro-lhe tudo sobre o John." "ptimo."
     "H algo mais?"
     "No,  tudo por agora ..." Ento ela acrescentou "Podemos
aprender mais sobre o amor ao dar ateno s nossas intuies."
Talvez este ltimo comentrio tivesse mais do que um nvel de
significado, especialmente para mim. Anos antes, os Mestres, falando
atravs da Catherine, disseram-me no final das sesses com ela e
das espantosas revelaes: "O que te dizemos fica por aqui. Agora
ters que aprender atravs da tua prpria intuio." No haveria
mais revelaes atravs da hipnose de Catherine. Elisabeth
descansava. Tambm hoje no haveria mais revelaes. Acordei-a e,
logo que a sua mente se reorientou para o tempo presente, ela
comeou a chorar de mansinho.
     "Por que est a chorar?" perguntei-lhe com carinho.
     "Porque eu o amava tanto e acho que nunca mais amarei
ningum daquela forma. Nunca conheci nenhum homem que
pudesse amar assim e que me amasse com a mesma intensidade. E,
sem esse amor, como  que a minha vida pode estar completa?
Como  que eu poderei ser completamente feliz?"
     "Nunca se sabe" objectei, mas sem muita convico. "Pode
conhecer algum e mais uma vez apaixonar-se loucamente. Pode
mesmo conhecer John outra vez, num outro corpo."
     "Claro" disse ela cm algum sarcasmo. As suas lgrimas
continuavam a cair. "Est aperras a tentar fazer-me sentir melhor.
Tenho mais hipteses de ganhar a lotaria do que encontr-lo outra
vez."
     As probabilidades de acertar na lotaria, lembrei-me, eram de
catorze milhes para um.
     Em Atravs do Tempo descrevi o reencontro de Ariel e Anthony.
     O reencontro com uma alma gmea aps uma prolongada
separao involuntria pode ser uma experincia por que vale a pena
esperar - mesmo que essa espera seja de sculos.
     Numa viagem pelo sudoeste, uma antiga paciente minha, Ariel,
biloga, encontrou um australiano chamado Anthony. Ambos eram
indivduos emocionalmente maduros, que j tinham sido casados, e
rapidamente se apaixonaram e ficaram noivos. De volta a Miami,
Ariel sugeriu que Anthony fizesse uma sesso de regresso comigo,
s para saber se ele conseguia faz-lo e "ver o que saa dali". Ambos
estavam curiosos por saber se Ariel aparecia de alguma forma na
regresso de Anthony.
     Anthony acabou por mostrar ter capacidades de regresso
soberbas. Quase instantaneamente regressou a uma movimentada
vida no Norte de frica, por volta do tempo de Anbal, h mais de
dois mil anos atrs. Nessa vida, Anthony tinha sido membro de uma
                                                     S O AMOR  REAL - 61




civilizao muito avanada. A tribo a que pertencia tinha a pele clara,
e eles eram fundidores de ouro capazes de utilizar fogo lquido como
arma, espalhando-o na superfcie dos rios. Anthony era um jovem de
vinte e tal anos, no meio de uma guerra de quarenta dias com uma
tribo vizinha de pele mais escura, muito mais numerosa que os
defensores.
      Na realidade, a tribo de Anthony tinha treinado alguns membros
da tribo inimiga na arte da guerra e um desses antigos alunos
liderava o assalto. Cem mil homens da tribo inimiga, com espadas e
machados, estavam a atravessar com cordas um largo rio, enquanto
que Anthony e o seu povo espalhava fogo lquido no seu prprio rio,
esperando que ele atingisse os atacantes antes que eles chegassem
 margem.
      Para proteger as mulheres e crianas, a tribo que se defendia
colocou a maior parte deles em grandes barcos de velas cor de
violeta no meio de um lago enorme. Neste grupo estava a jovem
noiva de Anthony que devia ter dezassete ou dezoito anos. No
entanto, subitamente, o fogo lquido ficou fora do controlo e os
barcos comearam a arder. A maior parte das mulheres e crianas da
tribo pereceram naquele trgico acidente, incluindo a noiva de
Anthony que era a sua grande paixo.
      Esta tragdia quebrou o moral dos guerreiros que
rapidamente foram derrotados. Anthony foi um dos poucos que
escapou  chacina depois de brutais combates corpo a corpo.
Eventualmente, acabou por escapar por uma passagem secreta
que levava at uma srie de salas por baixo do grande templo
onde a tribo guardava os seus tesouros.
      Ali, Anthony encontrou mais um sobrevivente, o seu rei. Este
ordenou-lhe que o matasse e Anthony, leal soldado, f-lo contra a
sua vontade. Aps a morte do rei, Anthony ficou completamente
s no templo escuro, onde passou o seu tempo a escrever a
histria do seu povo em folhas de ouro, que em seguida selou em
grandes urnas ou vasos. Foi ali que acabou por morrer de fome e
desgosto pela perda da sua noiva e do seu povo.
      Havia ainda mais um pormenor. A sua noiva, naquela vida,
tinha reencarnado como Ariel na vida actual. Os dois juntos de
novo como amantes, dois mil anos depois. Finalmente, o
casamento h muito adiado ia ter lugar.
      Anthony e Ariel tinham estado separados apenas por uma
hora quando ele saiu do meu gabinete. Mas a exuberncia do seu
encontro era tal que parecia que no se viam h dois mil anos.
Anthony e Ariel casaram recentemente. O encontro sbito,
intenso e, aparentemente, ocasional tem para eles um novo
significado e a relao j to apaixonada de ambos est agora
imbuda de uma sensao de aventura contnua.
62 - BRIAN L. WEISS, M.D.




    Anthony e Ariel planeiam ir ao Norte de frica para tentar
encontrar o local da sua vida passada em comum e para ver que
outros detalhes podem descobrir. Sabem que o que quer que
encontrem apenas poder aumentar a exaltao mtua.


12                                    Embora possa no ser um rei na minha vida
                                      futura, tanto melhor: nem por isso deixarei
                                        de viver uma vida activa e, acima de tudo,
                                                       colherei menos ingratido.
                                                           FREDERICO, O GRANDE

     Ele  transpirava abundantemente, pela segunda vez, apesar
do forte ar-condicionado no meu gabinete. O suor corria-lhe pelo
rosto, ensopava-lhe a camisa, deslizava pelo pescoo abaixo. Um
momento antes, agitava-se com arrepios e o seu corpo tremia.
Mas a malria podia provocar aquilo, alternando um frio de gelar
os ossos e um calor impiedoso. Francisco estava a morrer desta
terrvel doena, s e a milhares de quilmetros de distncia dos
seus entes queridos. Era uma forma terrvel e dolorosa de morrer.
     Pedro tinha iniciado esta consulta deslizando para um
profundo e relaxado estado de transe hipntico. Tinha
rapidamente recuado no tempo e no espao para uma vida
passada e, imediatamente, comeara a suar. Tentei secar-lhe a
testa com lenos de papel, mas era como tentar parar uma cheia
com as mos. O suor continuava a correr. Esperava que o
desconforto fsico causado pelo suor torrencial no afectasse a
profundidade e intensidade do seu estado de transe.
     "Sou um homem... de cabelo preto e pele bronzeada" arfou
por entre v suor. "Estou a descarregar um grande navio de
madeira...
     a carga  pesada... Aqui faz um calor de rachar... Vejo
palmeiras e frgeis estruturas de madeira ao p... Sou um
marinheiro... Estamos no Novo Mundo."
     "Sabe o nome?" inquiri.
     "Francisco... o meu nome  Francisco. Sou um marinheiro."
Eu estava a referir-me ao nome do local, mas ele tornara-se
consciente do seu nome naquela vida.
     "Sabe o nome desse local?" perguntei de novo.
     Fez uma pausa, por momentos, ainda suando profusamente.
"No vejo isso" respondeu. "Um desses malditos portos... Aqui h
ouro. Na selva... algures nas montanhas distantes. Havemos de
encontr-lo... Posso ficar com algum do que encontrarmos...
Maldito lugar!"
     "De onde  que veio?" perguntei, procurando mais
pormenores. "Sabe onde fica a sua casa?"
                                                  S O AMOR  REAL - 63




     "No outro lado do oceano" respondeu ele pacientemente.
"Em Espanha... foi de onde viemos." Naquele plural ele inclua os
seus companheiros marinheiros que descarregavam a carga do
navio sob um sol escaldante.
     "Tem famlia em Espanha?" inquiri.
     "A minha mulher e o meu filho esto l... Sinto a sua falta,
mas eles esto bem... especialmente devido ao ouro que lhes
envio. A minha me e irms tambm l esto. No  uma vida
fcil... Tenho muitas saudades deles."
     Queria saber mais sobre a sua famlia.
     "Vou faz-lo regredir no tempo" disse-lhe, "de volta  sua
famlia em Espanha, para a ltima vez em que estiveram juntos,
antes de iniciar esta viagem para o Novo Mundo. Vou bater
levemente na sua testa e contar de trs para um. Quando chegar
a um estar em Espanha com a sua famlia. Poder lembrar-se de
tudo.
     "Trs... dois... um. J l est!"
     Os olhos de Pedro moviam-se debaixo das plpebras
fechadas  medida que ele examinava a cena.
     "Posso ver a minha mulher e o meu filho pequeno. Estamos
sentados para comer... Vejo a mesa e as cadeiras de madeira... A
minha me tambm est l" observou.
     "Olhe para a cara deles, para os seus olhos" instru. "Veja se
os reconhece como sendo algum da sua vida actual." Estava
preocupado com a possibilidade de que a deslocao entre vidas
pudesse desorientar Pedro e o fizesse deixar totalmente o tempo
do Francisco. Mas ele lidava bem com isso.
     "Reconheo o meu filho.  o meu irmo... Oh sim, ele  Juan...
como  belo!" Ele tinha j encontrado o irmo anteriormente no
corpo do abade, quando Pedro era um monge. Apesar de nunca
se terem encontrado como amantes, Juan era uma alma gmea
constante. A ligao entre as suas almas era maravilhosamente
prxima.
     Ele ignorou a me, concentrando-se completamente na sua
jovem esposa.
     "Amamo-nos profundamente" comentou. "Mas no a
reconheo desta vida. O nosso amor  muito forte."
     Permaneceu em silncio por algum tempo, apreciando a
memria da sua jovem esposa e do profundo amor que haviam
partilhado h quatrocentos ou quinhentos anos atrs numa
Espanha to diferente da actual.
     Iria alguma vez Pedro experimentar este tipo de amor? Teria
a alma da esposa de Francisco viajado atravs dos sculos at
hoje e, se assim fosse, encontrar-se-iam?
     Levei Francisco de novo para o Novo Mundo em busca de
ouro. "Regresse ao porto" instru, "onde esteve a descarregar o
64 - BRIAN L. WEISS, M.D.




navio. Agora avance no tempo at ao prximo acontecimento
significativo na vida desse marinheiro. Vou contar de trs para
um e bater levemente na testa. Nessa altura concentre-se nesse
acontecimento - o prximo acontecimento significativo."
     "Trs... dois... um. Est l." Francisco comeou a tremer.
     "Tenho tanto frio" queixou-se. "Mas sei que aquela febre
infernal vai voltar!" Como prevera, momentos depois a forte
exsudao comeou outra vez.
     "Raios!" praguejou. "Isto vai matar-me, esta doena... e os
outros deixaram-me para trs... Eles sabem que eu no posso
aguentar... Sabem que j no h esperana para mim... Estou
condenado neste lugar esquecido por Deus. E nem sequer
encontrmos os montes de ouro que juram existir."
     "Sobrevive a essa doena?" perguntei suavemente.
     Ele ficou silencioso e espermos. "Eu morri disto. Nunca mais sa
da selva... a febre matou-me e nunca mais verei a minha famlia. Eles
ficaro muito desgostosos... O meu filho  to jovem." O suor na cara
de Pedro misturava-se agora com as lgrimas. Estava a sofrer com a
sua morte prematura, sozinho, numa terra desconhecida, de uma
doena estranha que nenhuma habilidade de marinheiro poderia
derrotar.
     Fi-lo desligar-se do corpo de Francisco e ele flutuou num estado
de calma e tranquilidade, liberto da febre e da dor, para alm da
desgosto e sofrimento. O seu rosto estava em paz e descontrado, e
eu deixei-o descansar.
     Analisei este padro de perdas nas anteriores vidas de Pedro.
Tantas separaes dos seus entes queridos. Tanto sofrimento. A
medida que ele ia traando o seu caminho atravs das incertas e
nebulosas brumas do tempo iria ele ser capaz de os encontrar de
novo? Encontr-los-ia a todos?
     As vidas de Pedro continham muitos padres, no apenas
perdas. Nesta regresso, ele recordou ser um espanhol, mas ele
tambm tinha sido um soldado ingls, morto pelo inimigo espanhol
aquando da invaso da fortaleza. Tinha recordado ser homem e
recordara ser mulher. Tinha vivido como guerreiro e como padre.
Tinha perdido pessoas e tinha-as encontrado.
     Depois de ter morrido como monge, rodeado pela sua famlia
espiritual, Pedro reviu as lies daquela vida.
     "O perdo  to importante" disse-me. "Todos ns fizemos
aquelas coisas pelas quais condenamos os outros... Temos que os
perdoar." As suas vidas ilustravam a sua mensagem. Ele tinha de
aprender de todos os lados para verdadeiramente compreender.
Todos ns temos. Mudamos de religio, raa, nacionalidade.
Experimentamos vidas de extrema riqueza e de abjecta pobreza, de
doena e de sade. Temos de aprender a rejeitar todo o preconceito e
                                                    S O AMOR  REAL - 65




dio. Aqueles que no o fizerem, simplesmente trocaro de lugar,
voltando nos corpos dos seus inimigos.
     Eric Clapton, na sua cano "Tears in Heaven", pergunta se o seu
jovem filho, que morreu tragicamente num acidente, saberia o seu
nome se se encontrassem no Cu. Esta pergunta  universal e
eterna. Como reconheceremos os que ammos? Se e quando nos
encontrarmos de novo, no Cu ou na Terra, mais uma vez em corpos
fsicos, reconhec-los-emos, reconhecer-nos-o?
     Muitos dos meus doentes parecem simplesmente saber. Quando
esto numa vida passada olham para os olhos de uma alma gmea,
e "sabem". No Cu ou na Terra, sentem uma vibrao ou uma
energia, passando-se o mesmo com os seus entes queridos.
Vislumbram a personalidade mais profunda, e surge um
conhecimento interior - um conhecimento que provm do corao.
Surge uma conexo.
     Como so os olhos do corao que frequentemente vem em
primeiro lugar, as simples palavras no podem transmitir a certeza
do reconhecimento da alma. No existe dvida ou confuso. Mesmo
sendo o corpo muito diferente do actual, a alma  a mesma. A alma 
reconhecida e o reconhecimento  absoluto, para alm de qualquer
dvida.
     Por vezes o reconhecimento de uma alma pode ter origem na
mente e pode ocorrer mesmo antes do corao "ver". Este tipo de
reconhecimento ocorre com frequncia em bebs ou crianas
pequenas. Exibem um certo maneirismo fsico ou um comportamento
nico, dizem uma palavra ou uma frase, e os pais ou avs amados
so instantaneamente reconhecidos. Podem ter uma cicatriz ou sinal
congnito idntico ao do ser amado, ou talvez apenas segurem na
mo ou olhem para si daquela maneira especial. Voc saber.
     No Cu no existem sinais de nascena. Como a cano
pergunta, ser que o filho de Eric Clapton o ajudar no Cu? Dar a
mo a Eric? Ajud-lo- a levantar-se?
     No Cu, onde os corpos fsicos no so necessrios, o
reconhecimento da alma pode ocorrer atravs de um conhecimento
interior, da percepo da energia especial do ente querido, da sua luz
ou vibrao. Senti-lo-, no corao. A existe uma profunda sabedoria
intuitiva, e o reconhecimento  total e imediato. Eles podem mesmo
ajudar nesse reconhecimento assumindo a forma do corpo que
possuram na sua ltima encarnao consigo. Voc v-los- como
os viu na Terra, frequentemente mais jovens e saudveis. Clapton
conclui que encontrar paz para l das portas do Cu. Quer seja
para l das portas do Cu, para l da porta que permite recordar
vidas passadas juntos, ou para l da porta que leva a vidas futuras
com os seus entes queridos, nunca estar s. Eles sabero o seu
nome. Dar-lhe-o a mo. Traro paz e alegria ao seu corao.
Vezes sem conta, os meus doentes, quando profundamente
66 - BRIAN L. WEISS, M.D.




hipnotizados, dizem-me que a morte no  um acidente. Quando
bebs e crianas pequenas morrem, -nos dada a oportunidade de
aprender importantes lies. Eles so nossos professores,
ensinando-nos acerca de valores, de prioridades e, acima de tudo,
de amor. Com frequncia, as lies mais importantes so as que
advm dos tempos mais difceis.

13
                                    O nosso nascimento no  mais que um sono
                                                             e um esquecimento;
                              A Alma que nasce connosco, a estrela da nossa vida,
                                                   Teve o seu ocaso noutro lugar,
                                                                 E vem de longe,
                                                      No em puro esquecimento
                                                         Nem em extrema nudez,
                                         Mas arrastando nuvens de glria viemos
                                                     De Deus que  a nossa Casa.
                                 O Cu estende-se  nossa volta na nossa infncia!
                                                           WILLIAM WORDSWORTH

     Apesar do seu sucesso a recordar vidas passadas, Elisabeth
ainda continuava a sofrer. Intelectualmente, tinha comeado a
aceitar o conceito de continuidade da alma e da recorrncia da
conscincia em corpos fsicos subsequentes. Tinha vivido o
encontro de almas gmeas ao longo dessas viagens. Mas as
memrias no tinham trazido a sua me de volta. No
fisicamente. Ela no podia abra-la ou falar com ela. Tinha
imensas saudades.
     Quando Elisabeth entrou no gabinete para a sesso de hoje,
decidi experimentar algo diferente, algo que tinha feito com vrios
graus de sucesso com outros pacientes. Como de costume, iria
ajud-la a atingir um estado profundo de relaxamento. Iria, ento,
gui-la na visualizao de um bonito jardim, faz-la caminhar para
o jardim e descansar. Enquanto descansava, iria sugerir que um
visitante se viria juntar a ela no jardim e que Elisabeth poderia
comunicar com ele atravs de pensamentos, voz, viso,
sentimentos ou qualquer outra forma.
     Tudo o que Elisabeth experimentasse a partir deste ponto,
viria da sua mente e no das minhas sugestes.
     Ela afundou-se na familiar cadeira reclinvel de couro e
rapidamente entrou num tranquilo estado hipntico. Contei para
trs, de dez para um, aprofundando ainda mais aquele estado. Ela
imaginou-se a descer uma escada em espiral. Quando chegou ao
fundo das escadas pde visualizar o jardim  sua frente. Caminhou
para o jardim e encontrou um local para descansar. Falei-lhe
acerca do visitante, e espermos.
                                                  S O AMOR  REAL - 67




     Pouco tempo depois, ela apercebeu-se de que uma luz
maravilhosa se aproximava. No gabinete silencioso, Elisabeth
comeou a chorar suavemente.
     "Por que est a chorar?" questionei.
     " a minha me... Posso v-la na luz. Ela est to bonita, to
jovem.
     Agora falando directamente para a me, acrescentou " to
bom ver-te." Elisabeth sorria e chorava ao mesmo tempo.
     "Pode falar com ela; pode comunicar com ela" lembrei
Elisabeth. A partir deste ponto no disse mais nada, uma vez que
no queria interferir com o reencontro. Elisabeth no estava a
recordar uma memria ou a viver algum acontecimento que j
tivesse ocorrido. Esta experincia estava a ocorrer agora.
     O encontro com a me estava a ter lugar vvida e
emocionalmente na mente de Elisabeth. O facto de tal reencontro
existir de uma forma to intensa na sua mente conferia um grau
considervel de realidade  sua experincia. O potencial para a
ajudar a curar o seu desgosto estava agora presente.
     Permanecemos sentados em silncio por alguns minutos, um
silncio por vezes pontuado por suspiros. As vezes, podia ver uma
lgrima a rolar pelo rosto de Elisabeth. Ela sorria com frequncia.
Finalmente, comeou a falar.
     "Ela j se foi embora", disse muito calmamente. "Tinha que ir
mas voltar." Elisabeth permaneceu profundamente relaxada
mantendo os olhos fechados enquanto conversvamos.
     "Ela comunicou consigo?" perguntei.
     "Sim, ela contou-me muitas coisas. Disse-me para confiar em
mim. Disse `Confia em ti prpria. Ensinei-te tudo o que precisas
de saber! "' "O que  que isso significa para si?"
     "Que eu devo acreditar nos meus sentimentos e no deixar
que os outros me influenciem o tempo todo... especialmente os
homens" respondeu com nfase.
     "Disse que os homens se tm aproveitado de mim porque eu
no acredito o bastante em mim mesma, e porque deixo que o
faam. Dei-lhes demasiado poder tirando-o de mim ao mesmo
tempo. Tenho que parar de o fazer.
     "'Somos todos iguais' disse-me ela. As almas no so
masculinas ou femininas. Tu s to bonita e poderosa como
qualquer outra alma do Universo. No te esqueas disso; no te
distraias com as suas formas fsicas.' Foi isto que ela me disse."
     "Disse mais alguma coisa?"
     "Sim, h mais" respondeu, mas sem pormenorizar. "O qu?"
perguntei.
     "Que ela me ama muito" acrescentou de forma delicada. "Que
ela est bem. Est a ajudar muitas almas do outro lado... Estar
sempre presente para mim... Havia ainda outra coisa."
68 - BRIAN L. WEISS, M.D.




     "O qu?"
     "Para ser paciente. Alguma coisa acontecer em breve,
alguma coisa importante. E eu devo confiar em mim mesma."
     "O que  que vai acontecer?"
     "No sei" respondeu suavemente. "Mas quando acontecer
confiarei em mim mesma" acrescentou com uma convico que
nunca tinha ouvido antes na sua voz.
     Sentado na sala verde do programa de televiso "Donahue",
testemunhei uma cena espantosamente surrealista. Ali estava
Jenny Cockell, uma mulher de quarenta e um anos, inglesa,
sentada junto do seu filho, Sonny, de setenta e cinco anos, e da
sua filha, Phyllis, que na altura tinha sessenta e nove anos. A
histria deles era bem melhor e mais convincente que a de Bridey
Murphy, um famoso caso de reencarnao, ponto de referncia na
poca.
     Desde muito cedo, na sua infncia, Jenny sabia que numa vida
passada recente havia morrido subitamente deixando os seus oito
filhos virtualmente rfos. Ela conhecia factos detalhados sobre as
suas vidas, no incio do sculo vinte, na Irlanda rural. O seu nome,
naquela vida, era Mary.
     A famlia de Jenny no a contrariou, mas no dispunham de
fundos nem de interesse suficiente para investigar as fantsticas
histrias da criana sobre uma sua outra vida de pobreza e tragdia
na Irlanda h dcadas atrs. Jenny cresceu sem saber se as suas
vvidas recordaes eram reais ou no..
     Finalmente, Jenny teve os recursos para comear a sua
investigao. Encontrou cinco dos oito filhos de Mary Sutton, uma
irlandesa que morreu em 1932, devido a complicaes depois do
nascimento do seu oitavo filho. Os filhos de Mary Sutton confirmaram
muitas das incrivelmente pormenorizadas memrias de Jenny. E
pareciam convencidos de que Jenny era Mary a sua "falecida" me.
     E ali estava eu a assistir quela reunio, na sala verde do
programa de Donahue.
     A minha mente divagou e recordei a sequncia inicial do velho
programa de televiso "Ben Casey". Era uma srie sobre mdicos
que ia para o ar nos finais dos anos cinquenta ou incio dos sessenta.
A minha me, de uma forma subtil, encorajava-me a ver este
programa, influenciando-me implacavelmente a escolher a medicina
como carreira.
     O programa "Ben Casey" comeava sempre com smbolos
universais, e o j idoso neurocirurgio, mentor do jovem Dr. Ben
Casey, entoava "Homem... Mulher... Nascimento... Morte... Infinito."
Ou algo de parecido. Mistrios universais, enigmas indecifrveis.
Sentado na sala verde, prestes a participar no "Donahue" na minha
qualidade de perito em memrias de vidas passadas, eu estava a
                                                             S O AMOR  REAL - 69




conseguir as respostas que tinham escapado ao jovem Ben Casey e
a todos os outros.
     Homem? Mulher? No decurso das nossas vidas mudamos de
sexo, religio e raa de forma a aprender de todos os ngulos e
pontos de vista. Estamos todos na escola. Nascimento? Se nunca
morremos realmente, ento no nascemos realmente. Somos todos
imortais, divinos e indestrutveis. A morte no  mais do que
atravessar uma porta para um outro quarto. Continuamos a voltar
por forma a aprender determinadas lies, ou caractersticas, como
amor... perdo... compreenso... pacincia... discernimento... no-
violncia... Temos que desaprender outras caractersticas como
medo... raiva... ganncia... dio... orgulho... ego... que so resultado
de velhos condicionamentos. S ento podemos formar-nos e deixar
esta escola. Temos todo o tempo do mundo para aprender e
desaprender. Somos imortais; somos infinitos; temos a natureza de
Deus.
     Enquanto olhava Jenny e os seus idosos filhos, mais coisas ainda
me ocorriam.
     "Aquilo que um homem planta  aquilo que um homem colhe." O
conceito de karma  definido virtualmente palavra por palavra em
todas as grandes religies.  uma sabedoria antiga. Somos
responsveis por ns mesmos, pelos outros, pela comunidade, e pelo
planeta.
     Impulsionada pela sua necessidade de cuidar dos filhos e
proteg-los, Jenny tinha sido atrada mais uma vez at eles. Nunca
perdemos os que amamos. Continuamos a voltar, unidos e reunidos
de novo. Que poderosa energia unificadora  o amor.

14
                                                                    A minha doutrina :
                                                Vive de forma a que o teu maior desejo
                                       seja viver outra vez - esse  o teu dever  pois,
                                            quer queiras quer no, vivers novamente!
                                                                             NIETZSCHE

    Existem muitas vias, ou tcnicas, para ajudar um paciente a
relembrar vidas passadas atravs da hipnose. Uma dessas vias 
uma porta. Com frequncia ponho os pacientes em transe
hipntico profundo e fao-os atravessar uma porta que eles
escolhem, uma porta para uma vida passada. "Imagine-se num
bonito corredor ou trio, com grandes e magnficas portas ao
fundo e de cada lado. Estas so portas para o seu passado, e
mesmo para as suas vidas passadas. Podem conduzi-lo a
experincias espirituais. Enquanto eu conto de cinco para um,
uma dessas portas abrir-se-, uma porta para o passado. Esta
porta pux-lo-. Atra-lo-. V para a porta.
70 - BRIAN L. WEISS, M.D.




     "Cinco. A porta est a abrir-se. Esta porta ajud-lo- a
compreender quaisquer bloqueios ou obstculos para a alegria e
felicidade na sua vida actual. V para a porta.
     "Quatro. Est na porta. V do outro lado uma luz linda.
Atravesse a porta em direco  luz.
     "Trs. Atravesse a luz. Est noutro tempo e noutro lugar. "No
se preocupe com o que  fantasia, imaginao, memria
presente, smbolo, metfora, ou qualquer combinao de tudo
isto. E a experincia que conta. Viva tudo o que surgir na sua
mente.
     Tente no pensar, julgar ou criticar. Viva apenas. O que quer
que seja que venha  conscincia, est bem. Pode analisar depois.
"Dois. Est quase l, quase a atravessar a luz. Quando eu disser
`um' estar l e juntar-se-  pessoa ou  cena que est do outro
lado da luz. Concentre-se quando eu disser `um'.
     "Um! J l est. Olhe para os ps e veja que tipo de sapatos
est a usar. Olhe para as roupas, pele, mos. So as mesmas ou
esto diferentes? Preste ateno aos pormenores."
     A porta  apenas uma das muitas vias para o passado. Todas
levam para o mesmo local, para uma vida passada ou experincia
espiritual que  importante para a situao actual desta vida.
Elevadores que regridem no tempo; uma estrada, um caminho ou
mesmo uma ponte que atravessa a nvoa do tempo; atravessar
um riacho, regato, curso de gua ou um pequeno rio para a outra
margem, para uma outra vida; uma mquina do tempo, com o
doente no painel de controlo - estes so apenas algumas imagens
dos inumerveis caminhos ou pontes para o passado. Com o Pedro
utilizei a imagem das portas.
     Quando ele tentou olhar para os seus ps depois de emergir
da luz, encontrou-se em vez disso a olhar para uma grande
mscara de pedra de um deus.
     "Ele tem um nariz comprido e dentes grandes e curvos. A
boca. . . os lbios... so estranhos, muito grandes e largos. Os
olhos so redondos e muito encovados e afastados. Tem um olhar
muito mau... Os deuses podem ser cruis."
     "Como sabe que  um Deus?" " muito poderoso."
     "H muitos deuses ou ele  o nico?"
     "H muitos, mas ele  o mais poderoso... Ele controla a chuva.
Sem chuva no poderamos cultivar alimentos" explicou Pedro
simplesmente.
     "Est ali? Pode saber quem ?" inquiri.
     "Estou ali. Sou uma espcie de padre. Tenho conhecimentos
sobre os cus, o sol, a lua e as estrelas. Ajudo a fazer os
calendrios."
     "Onde  que faz esse trabalho?"
                                                 S O AMOR  REAL - 71




     "Num edifcio feito de pedra. Tem escadas que o rodeiam e
pequenas janelas atravs das quais observamos e medimos. 
muito complicado, mas sou bom nisto. Eles confiam em mim para
as medidas... Sei quando os eclipses ocorrem."
     "Parece que  uma civilizao muito voltada para a cincia"
comentei.
     "Apenas nalguns aspectos, na astronomia e na arquitectura. O
resto  retrgrado, muito baseado na superstio" esclareceu. "H
outros padres e respectivos apoiantes que s esto interessados
no poder. Usam a superstio e o medo para iludir o povo e
manter o seu poder. So apoiados por nobres que ajudam a
controlar os guerreiros.  uma aliana para manter o poder nas
mos de uns poucos."
     O tempo e a cultura que Pedro descrevia podia ser antiga,
mas tcnicas de controlo e alianas polticas formadas para
ganhar e manter o poder so eternas. As ambies dos homens
parecem nunca mudar.
     "Como  que usam a superstio para iludir o povo?" "Culpam
os deuses por acontecimentos naturais. Ento culpam o povo por
enfurecer ou desagradar aos deuses... assim as pessoas tomam-se
responsveis pelos eventos naturais, como cheias, secas,
terramotos ou erupes vulcnicas. Quando o povo no tem
qualquer culpa... nem os deuses... So eventos naturais e no
aces de retaliao de deuses zangados... mas o povo no o
sabe. As pessoas permanecem ignorantes e receosas - tm receio
pois sentem-se responsveis por tais calamidades." Pedro fez uma
pausa por alguns minutos e ento continuou.
     " um erro responsabilizarmos os deuses pelos nossos
problemas e calamidades. Tal d aos padres e nobres demasiado
poder... Ns sabemos mais dos eventos naturais que o povo. Em
geral, sabemos quando comeam e quando terminam.
Compreendemos os ciclos. Um eclipse  um acontecimento
natural que pode ser calculado e previsto. No  um acto de raiva
e punio dos deuses... mas  isto que eles dizem ao povo." Pedro
falava rapidamente; palavras e conceitos brotavam dele sem eu
ter de o instigar.
     "Os padres consideram-se a si mesmos como os interlocutores
dos deuses. Dizem ao povo que so os nicos intermedirios, que
sabem o que os deuses querem. Eu sei que isso no  verdade...
sou um dos padres." Pensou em silncio durante alguns
momentos. "Continue" sugeri.
     "Os padres desenvolveram um elaborado e cruel sistema de
sacrifcios para apaziguar os deuses." A sua voz baixou a um
sussurro. "At mesmo sacrifcios humanos."
     "Humanos?" ecoei.
72 - BRIAN L. WEISS, M.D.




    "Sim" murmurou ele. "Eles no tm que os fazer muitas vezes,
pois tal incute muito medo no povo. Existem rituais de
afogamento e rituais de matana... Como se os deuses
necessitassem de sangue humano!" A voz de Pedro subia 
medida que a raiva se apoderava dele. "Eles manipulam as
pessoas com rituais de medo. At escolhem quem vai ser
sacrificado. Isto confere-lhes tanto poder quanto o dos deuses.
Escolhem quem vai viver e quem vai morrer."
    "Tem que participar nos rituais de sacrifcio?" perguntei-lhe
cuidadosamente.
    "No" respondeu. "Eu no acredito neles. Eles deixam-me
entregue s minhas observaes e clculos."
    "Eu nem sequer acredito na existncia desses deuses"
sussurrou num tom confidencial.
    "No?"
    "No. Como  que os deuses podem ser to mesquinhos e
insensatos quanto as pessoas? Quando observo o cu e a
maravilhosa harmonia entre o sol e a lua, os planetas e estrelas...
como  que tal inteligncia, tal sabedoria pode ser mesquinha e
insensata ao mesmo tempo? No faz sentido. Damos a esses ditos
deuses as nossas caractersticas. Medo, raiva, inveja, dio - so
nossas e projectamo-las nos deuses. Eu acredito que o verdadeiro
deus est para alm das emoes humanas. O verdadeiro deus
no necessita dos nossos rituais e sacrifcios."
    Esta antiga reencarnao de Pedro possua uma grande
sabedoria. Falava facilmente, mesmo de assuntos tabu, e como
no parecia cansado decidi continuar.
    "Chega alguma vez a tornar-se mais influente como padre?"
perguntei. "Ganha mais poder nessa vida?"
    "No" respondeu. "Eu no governaria assim se tivesse poder.
Educaria as pessoas. Deix-las-ia aprender por elas mesmas.
Acabaria com os sacrifcios."
    "Mas os padres e nobres poderiam perder o poder" objectei.
"E se as pessoas deixassem de os ouvir?"
    "No deixaro" disse. "O verdadeiro poder vem do
conhecimento. A verdadeira sabedoria  saber aplicar esse
conhecimento de uma forma solcita e benevolente. O povo 
ignorante, mas tal pode mudar. Eles no so estpidos." O padre
estava a ensinar-me poltica espiritual e eu podia sentir a verdade
nas suas palavras. "Continue" pedi, aps outro perodo de silncio.
    "No h mais" respondeu. "Deixei aquele corpo e estou a
descansar."
    Isto surpreendeu-me. Eu no lhe tinha dito para sair do corpo.
No tnhamos vivido uma cena de morte e no existia nenhum
acontecimento chocante ou traumtico que o pudesse ter
deslocado espontaneamente do corpo. Lembrei-me que ele tinha
                                                      S O AMOR  REAL - 73




entrado naquela vida de uma forma pouco usual, confrontado com
a enorme face de pedra do deus da chuva.
     Talvez no houvesse nada mais a ganhar com o exame
daquela vida, e a mente superior de Pedro sabia-o bem. E por isso
ele saiu. Teria sido um lder fabuloso!
     Em Novembro de 1992, a Igreja ilibou Galileu da culpa da sua
"heresia abominvel", em que sustentava que a Terra no era o
centro do Universo, mas que na realidade girava  volta do Sol. A
investigao que absolveu Galileu comeou em 1980 e durou doze
anos e meio. O trabalho da Inquisio, em 1633, foi finalmente
desfeito trezentos e cinquenta e nove anos depois. Infelizmente, a
estreiteza de esprito  muitas vezes ultrapassada ainda mais
lentamente.
     Todas as instituies parecem ter falta de viso. Indivduos
que nunca pem em causa as suas presunes e sistemas de
crenas so igualmente estreitos de esprito. Como podem eles
assimilar novas informaes e novos conhecimento quando as
suas mentes esto vendadas por crenas e velhos conceitos no
comprovados?
     H anos atrs, num estado de transe profundo, Catherine
disse-me "A nossa tarefa agora  a de aprendermos, a de nos
tornarmos semelhantes a Deus atravs do conhecimento.
Sabemos to pouco... Pelo conhecimento aproximamo-nos de
Deus para depois podermos descansar. Em seguida regressamos
para ensinar e ajudar os outros."
     O conhecimento s pode fluir para mentes abertas.


 15                                                        Sei que sou imortal.
                                       Sem dvida j antes morri dez mil vezes.
                                           Rio-me do que chamam devassido,
                                              e conheo a amplitude do tempo.
                                                               WALT WHITMAN

    Os   sonhos tm muitas funes. Ajudam a processar e a
integrar   os   acontecimentos   do   dia.   Fornecem    pistas,
frequentemente na forma de smbolos ou metforas, que
contribuem para a resoluo dos problemas quotidianos -
relaes, medos, trabalho, emoes, doenas e muito mais.
Podem ajudar-nos a alcanar os nossos desejos e objectivos, se
no fisicamente, pelo menos atravs da realizao de fantasias.
Ajudam-nos a analisar acontecimentos passados, lembrando-nos
do seu paralelismo no presente. Protegem o sono disfarando
estmulos como a ansiedade que, de outra forma, nos acordariam.
Os sonhos tambm tm funes mais profundas. Podem fornecer
pistas para recuperar memrias reprimidas ou perdidas, tanto da
74 - BRIAN L. WEISS, M.D.




infncia e do perodo intra-uterino como de vidas passadas.
Fragmentos de vidas passadas emergem muitas vezes durante o
estado de sonho, particularmente naqueles em que quem sonha
v cenas decorridas anos ou sculos antes do seu nascimento.
     Os    sonhos    podem    ser   psquicos    ou   precgnitos.
Frequentemente, estes sonhos especficos podem prever o futuro.
A sua exactido varia, pois o futuro parece ser um sistema de
probabilidades e inevitabilidades, e ainda porque a capacidade
das pessoas para interpretar com preciso os prprios sonhos
varia tremendamente. Estes sonhos psquicos ou precgnitos so
experimentados por muitas pessoas de todas as culturas e
estratos sociais. No entanto, muitas delas ficam chocadas quando
os seus sonhos, literalmente, se tornam realidade.
     Um outro tipo de sonho psquico ocorre quando 
experimentada uma comunicao com uma pessoa distante. A
pessoa pode estar viva e geograficamente distante, ou a
comunicao pode dar-se com a alma ou a conscincia de
algum que morreu, tal como um parente ou um amigo querido.
De igual forma pode haver comunicao com um esprito
anglico, um professor ou um guia. As mensagens nestes sonhos
so, em geral, muito importantes e genuinamente comoventes.
     Tambm ocorrem sonhos de "viagem", nos quais as pessoas
tm a experincia de visitar locais em que nunca estiveram
fisicamente. Os pormenores daquilo que vem podem ser
confirmados mais tarde. Quando a pessoa visita, na realidade, o
local geogrfico, mesmo que seja meses ou anos depois do
sonho, pode ter a sensao de dj vu ou de familiaridade.
     Por vezes, o viajante vai a locais que parecem no existir
neste planeta. Estes sonhos podem ser muito mais do que
imaginao nocturna. Podem ser experincias msticas ou
espirituais a que se tem acesso por o ego e as barreiras
cognitivas estarem relaxados durante o sono e o sonho.
Conhecimento e sabedoria adquiridos neste tipo de sonhos de
"viagens" podem modificar vidas.
     Neste dia, quando a noite se transformava em madrugada,
Elisabeth teve um desses sonhos.
     Elisabeth apareceu mais cedo para a consulta, desejosa de
me contar o sonho que tinha tido na noite anterior. Estava menos
ansiosa e mais descontrada que nunca. Contou-me que as
pessoas no seu local de trabalho comeavam a comentar que ela
estava com melhor aparncia, que estava a ser mais simptica e
paciente, ainda mais que a "velha Elisabeth" antes da morte da
me.
     "Este no foi um dos meus sonhos tpicos" salientou. "Este
sonho era mais vivo e real. Ainda me lembro de todos os
                                                 S O AMOR  REAL - 75




pormenores, e geralmente costumo esquecer-me rapidamente da
maioria dos meus sonhos, como sabe."
     Eu andava a incentiv-la a escrever os sonhos logo que
acordasse. Manter um dirio dos sonhos ao p da cama e anotar
aquilo de que se recordar logo ao acordar melhora
significativamente a memria. De outra forma o contedo do
sonho  esquecido rapidamente. Elisabeth era um pouco
preguiosa para anotar os sonhos, e, usualmente, quando
chegava para a consulta j tinha esquecido a maioria dos
pormenores, se no mesmo o sonho inteiro.
     Mas este sonho era diferente, to real que todos os
pormenores estavam gravados na sua mente.
     "Primeiro, entrei numa sala grande. No existiam janelas,
candeeiros ou luzes no tecto. Mas as paredes, de alguma forma,
brilhavam. Emitiam luz suficiente para iluminar toda a sala."
     "As paredes estavam quentes?" perguntei.
     "Acho que no. Emitiam luz, mas no emitiam calor. Se bem
que eu no toquei nas paredes."
     "Que mais  que viu na sala?"
     "Eu sabia que era uma espcie de biblioteca, mas no
conseguia ver quaisquer prateleiras ou livros. No canto da sala
estava uma esttua da Esfinge. De cada lado da esttua havia
duas cadeiras velhas, velhas no sentido de antigas. No eram dos
tempos modernos. Quase como tronos feitos de pedra e
mrmore." Ficou em silncio por uns momentos, o olhar
vagueando para cima e para a esquerda  medida que recordava
as cadeiras antigas.
     "O que  que acha que uma esttua da Esfinge estava a fazer
ali?" inquiri.
     "No sei. Talvez porque a biblioteca nos ajude a compreender
coisas secretas. Lembrei-me da adivinha da Esfinge. O que  que
caminha sobre quatro pernas de manh, duas durante o dia e
trs  noite? O homem. Um beb que gatinha torna-se um adulto,
que se torna um idoso que necessita de uma bengala para
caminhar. Talvez tenha algo a ver com esta adivinha. Ou com os
enigmas em geral."
     "Pode ser" concedi recordando dipo e a primeira vez que
tinha ouvido falar do enigma.
     "No entanto, tambm podem existir outros significados"
acrescentei. "Por exemplo, e se a Esfinge de alguma forma fornece
uma pista para a natureza da biblioteca ou mesmo para a sua
estrutura ou localizao?" A mente que sonha pode ser muito
complexa.
     "No estive l tempo suficiente para descobrir" respondeu.
"Apercebeu-se de mais alguma coisa na sala?"
76 - BRIAN L. WEISS, M.D.




     "Sim" disse imediatamente. "Ali ao lado estava um homem
vestido com uma longa tnica branca. Acho que ele era o
bibliotecrio. Decidia quem podia entrar na sala e quem no
podia. Por alguma razo foi-me permitida a entrada."
     Nesta altura o pragmatismo da minha mente j no se podia
conter por mais tempo.
     "Mas como  que uma sala pode ser biblioteca e no ter
livros?" proferi abruptamente.
     "Essa  a parte estranha" comeou a explicar. "Tudo o que
tinha a fazer era estender os braos com as palmas das mos para
cima e o livro de que precisava formava-se nas minhas mos!
Num instante o livro estava completo. Parecia que vinha
directamente da parede e se solidificava nas minhas mos."
     "Que tipo de livro recebeu?"
     "No me recordo exactamente. Um livro sobre mim e as
minhas vidas. Tive medo de o abrir."
     "Medo de qu?"
     "No sei. Que ali estivesse algo de mau, algo de que tivesse
vergonha."
     "O bibliotecrio ajudou-a?"
     "Na realidade, no. Limitou-se a rir. Ento, disse `As rosas tm
vergonha dos seus espinhos?' E riu-se ainda mais."
     "Depois o que  que aconteceu?"
     "Ele acompanhou-me  sada, mas eu senti que
eventualmente compreenderia o que ele queria dizer e voltaria
sem ter medo de ler o meu livro." Ela ficou silenciosa, pensativa.
     "Isso foi o fim do sonho?" incitei.
     "No. Depois de deixar a biblioteca entrei numa sala onde eu
estava a assistir a uma aula. Estavam ali quinze ou vinte
estudantes. Um homem jovem parecia-me fortemente familiar,
como se fosse o meu irmo... mas no era o meu irmo Charles."
Referia-se ao irmo da sua vida presente, que vivia na Califrnia.
     "A que tipo de aula estava a assistir?" "No sei."
     "Havia algo mais?" perguntei.
     Ela respondeu hesitantemente. "Sim."
     Estranhei a hesitao, agora, depois de j ter revelado
algumas cenas do sonho muito pouco usuais.
     "Apareceu um professor" continuou, numa voz que mal
passava de um murmrio. "Tinha uns olhos intensamente
castanhos, cuja cor mudava para uma tonalidade violeta muito
bonita, regressando de novo ao castanho. Era muito alto e usava
apenas uma tnica branca. Estava descalo... Veio ter comigo e
olhou-me fixamente."
     "E ento?"
                                                 S O AMOR  REAL - 77




     "Senti-me envolvida na mais incrvel sensao de amor. Soube
que tudo iria ficar bem, que tudo aquilo que estava a atravessar
fazia parte de um plano e que esse plano era perfeito."
     "Ele disse-lhe isso?"
     "No, no precisou de o fazer. Na realidade, ele no disse
nada. Apenas senti essas coisas, mas de alguma forma pareciam
provir dele. Eu podia sentir tudo. Soube tudo. Soube que no havia
nada a recear... nunca mais... e ento ele foi-se embora."
     "E que mais?"
     "Senti-me muito leve. A ltima coisa de que me lembro  de
flutuar na nuvens. Estava a sentir-me to amada e to segura...
Ento acordei."
     "Como  que se sente agora?"
     "Sinto-me bem, mas a sensao est a desaparecer. Consigo
recordar todo o sonho, mas a sensao est a tomar-se mais
fraca. O trnsito com que tive de lutar para aqui chegar no
ajudou."
     A vida de todos os dias a interferir de novo nas experincias
transcendentais.
     Uma mulher escreveu-me a agradecer-me por ter escrito o
meu primeiro livro. A informao no livro tinha-a ajudado a
compreender e a aceitar dois sonhos que tinha tido - sonhos que
estavam separados por mais de duas dcadas. A sua carta ficou
destruda quando o furaco Andrew devastou o meu gabinete,
mas eu lembro-me bem dela.
     Desde o tempo em que era pequena, ela sabia que iria ter
uma criana especial chamada David. Cresceu, casou-se e teve
duas filhas, mas nenhum filho. Chegou aos trinta e cinco anos e
comeou a ficar cada vez mais preocupada. Onde  que estava o
David?
     Num sonho muito ntido, um anjo apareceu-lhe e disse "Podes
ter o teu filho, mas ele s poder ficar contigo durante dezanove
anos e meio.  aceitvel para ti?"
     A mulher concordou.
     Uns meses mais tarde, ficou grvida e David nasceu. Era de
facto uma criana especial - bondoso, sensvel e cheio de amor.
"Uma velha alma" como ela dizia.
     Ela nunca contou o seu sonho a David, nem lhe falou do
acordo com o anjo. Aconteceu que ele morreu aos dezanove anos
e meio vtima de um tipo raro de cancro no crebro. Ela sentiu-se
culpada, angustiada, esmagada pela dor, revoltada. Por que tinha
aceite a proposta do anjo? Seria ela de alguma forma responsvel
pela morte de David?
     Um ms depois da morte de David, num sonho vvido, o anjo
reapareceu. Desta vez David estava com o anjo e disse-lhe. "No
78 - BRIAN L. WEISS, M.D.




sofras tanto. Eu amo-te. Fui eu que te escolhi. Tu no me
escolheste."
    E ela compreendeu.

16
                                    E realmente uma slida prova de que o homem sabe
                                      muitas das coisas antes de nascer, o facto de que,
                                       quando criana, absorve to rpida e facilmente
                                             inmeros conceitos, o que mostra que no
                                              est a aprend-los pela primeira vez, mas
                                                            a record-los e a evoc-los.
                                                                                CCERO

     Fiquei    momentaneamente        confuso.   Pedro    tinha    j
atravessado uma porta na sua mente para um outro tempo e
lugar. Pelo movimento dos seus olhos, sabia que ele estava a
observar alguma coisa. "Pode falar" disse-lhe, " e mesmo assim
manter-se num estado profundo de transe e continuar a observar
e a experimentar. O que  que v?"
    "Vejo-me a mim" respondeu Pedro. "Estou deitado num
campo.  noite. O ar est fresco e limpo... Vejo muitas estrelas."
    "Est sozinho?"
    "Sim. No h mais ningum  volta."
    "Qual  o seu aspecto fsico?" perguntei, procurando
pormenores de forma a saber mais do tempo e local no qual ele
tinha emergido. "Sou eu mesmo... com cerca de doze anos... O
meu cabelo  curto."
    " voc mesmo?" questionei, ainda no tendo percebido que
Pedro tinha simplesmente recuado para a infncia e no para uma
vida passada.
    "Sim" respondeu ele simplesmente. "De volta ao Mxico
quando era um rapaz."
    Ento compreendi e mudei de esquema de actuao,
procurando saber mais dos seus sentimentos. Queria descobrir
porque  que a sua memria havia escolhido esta recordao em
particular do vasto leque disponvel.
    "Como  que se sente?"
    "Sinto-me feliz. H qualquer coisa de muito calmo no cu
nocturno. As estrelas pareceram-me sempre to familiares e
amistosas... Gosto de identificar as constelaes e v-las
caminhar atravs do cu  medida que as estaes mudam."
    "Na escola, estuda as estrelas?"
    "No muito, s um bocadinho. Mas leio sobre elas por conta
prpria. Acima de tudo gosto de observ-las."
    "Existe mais algum na sua famlia que tambm goste de
observar as estrelas?"
                                                 S O AMOR  REAL - 79




     "No" respondeu "s eu."
     Subtilmente passei a dirigir-me ao seu ego ou inteligncia
mais elevada, para a sua perspectiva alargada, de forma a saber
mais acerca da importncia desta memria. J no estava a falar
com o rapaz de doze anos.
     "Qual  a importncia desta recordao do cu nocturno?"
perguntei. "Por que seleccionou a tua mente esta recordao em
particular?"
     Ele permaneceu em silncio por alguns momentos. O seu
rosto distendeu-se na doce luz da tarde.
     "As estrelas so um presente para mim" comeou lentamente.
"So um conforto. So uma sinfonia que j ouvi antes, refrescando
a minha alma, lembrando-me do que j me tinha esquecido.
     "E so ainda mais" continuou, de modo algo enigmtico. "So
um caminho que me guia at ao meu destino... Lentamente mas
com segurana... Preciso de ser paciente e no interferir no
caminho. O programa j est estabelecido." Ficou de novo
silencioso.
     Deixei-o descansar enquanto um pensamento invadia a minha
mente. O cu nocturno j existia muito antes da Humanidade.
Num determinado nvel, no teremos todos ouvido aquela antiga
sinfonia? Sero todos os nossos destinos guiados, de igual forma?
E ento outro pensamento me ocorreu, muito claro na sua forma,
mas no tanto no seu contedo. Tambm eu devo ser paciente e
no interferir no destino de Pedro.
     Este pensamento surgiu como uma instruo. Acabou por vir a
ser uma profecia.
     Dado que pacientes como Elisabeth e Pedro desafiam muitas
das minhas velhas crenas sobre a vida e a morte, e mesmo sobre
a psicoterapia, tambm comecei a meditar, ou pelo menos a
divagar, todos os dias. Em estados de relaxamento profundo, os
pensamentos, imagens e ideias surgem de repente na minha
conscincia.
     Um dia, surgiu um pensamento com a premncia de uma
mensagem. Devia examinar mais atentamente os doentes que
estivessem sob tratamento h j longos perodos de tempo, os
meus doentes crnicos. De alguma forma, iria agora v-los sob
uma nova perspectiva, e esta liberdade de viso tambm me
ensinaria mais sobre mim prprio.
     Os doentes que me procuravam agora para terapia por
regresso, tcnicas de visualizao e aconselhamento espiritual
estavam a progredir muitssimo bem. Mas, e esse outro grupo de
doentes, muitos dos quais faziam terapia comigo j antes dos
meus livros terem sido publicados? Por que os veria de forma mais
esclarecida agora? O que  que teria que aprender sobre mim
mesmo?
80 - BRIAN L. WEISS, M.D.




    Como vim a verificar, muito havia ainda a aprender. Tinha
deixado de ser um professor para estes doentes mais antigos; em
vez disso tinha passado a ser um hbito e uma muleta. Muitos
deles tinham-se tomado dependentes de mim, e, em vez de os
desafiar a ser independentes, eu aceitava passivamente o antigo
papel de confidente.
    Tambm eu me tinha tornado dependente deles. Pagavam as
contas, elogiavam-me, faziam-me sentir indispensvel e
reforavam o esteretipo do mdico como semideus na nossa
sociedade. Tinha que enfrentar o meu ego.
    Um por um enfrentei os meus medos. Segurana foi o
primeiro. O dinheiro no  bom nem mau e, embora seja por vezes
importante, no fornece uma segurana real. Precisava de mais
f. Para assumir riscos, para me comprometer com a aco
correcta, tinha que ter a certeza de que iria ficar bem. Examinei os
meus valores, o que era e no era importante na minha vida. 
medida que recordava e realinhava a minha f e os meus valores,
as minhas preocupaes com o dinheiro e a segurana
desapareceram, como o nevoeiro que se levanta sob a luz do Sol.
Senti-me seguro.
    Analisei a minha necessidade de me sentir indispensvel e
importante. Esta era uma outra iluso do ego. Somos todos seres
espirituais, recordei. Todos somos iguais por baixo do nosso
exterior. Todos somos importantes.
    A minha necessidade de ser especial, de ser amado, s poderia
ser verdadeiramente satisfeita a um nvel espiritual, a partir do
meu mago, da divindade dentro de mim. A minha famlia podia
ajudar, mas s at certo ponto. Os meus pacientes no,
certamente. Eu podia ensin-los e eles podiam ensinar-me.
Podamos ajudar-nos mutuamente por uns tempos, mas nunca
poderamos satisfazer as nossas necessidades mais profundas.
Essa busca  uma busca espiritual.
    Os mdicos so professores altamente preparados e capazes
de curar, mas dificilmente semideuses. Somos apenas pessoas
altamente preparadas. Os mdicos so raios na mesma roda, como
todos os outros que colaboram na nossa sociedade.
    As pessoas escondem-se com frequncia por trs das suas
fachadas e rtulos profissionais (doutor, advogado, deputado, etc.),
a maior parte dos quais nem sequer esto concludos antes dos
vinte ou trinta anos. Temos que nos lembrar do que fomos antes de
exibir os nossos ttulos.
    S ento seremos capazes de nos transformarem pessoas
espirituais e repletas de amor, pessoas caridosas, bondosas,
pacficas e cheias de serenidade e alegria. J o somos. Apenas nos
esquecemos e os nossos egos parecem impedir-nos de o recordar.
                                                  S O AMOR  REAL - 81




    A nossa viso est enevoada. Os nossos valores esto
invertidos.  Muitos   psiquiatras   me     confessaram    sentir-se
encurralados pelos seus doentes. Perderam a alegria de ajudar.
    Lembro-os de que tambm eles so seres espirituais. Esto
presos pelas suas inseguranas e egos. Tambm eles necessitam
da coragem para assumir riscos e saltar para a sade e alegria.
82 - BRIAN L. WEISS, M.D.




17
                                 Pois viemos por caminhos diferentes para este lugar.
                                       No sinto que nos tenhamos encontrado antes.
                                        No h dj vu. No me parece que fosses tu,
                                  vestida de violeta  beira-mar, quando a passei a
                                  cavalo em 1206 d.C., ou que estivesses a meu lado
                                     nas guerras de fronteira. Ou l em Gallatins, h
                                  l00 anos atrs, deitada comigo na erva verde-prata
                                    por cima dalguma aldeia da montanha. Sei pela
                                     naturalidade com que vestes roupas finas e a tua
                               boca se move quando falas aos empregados nos bons
                                    restaurantes. Vieste pelo caminho dos castelos e
                                                 catedrais, da elegncia e do imprio.
                                                               ROBERT JAMES WALLER

     Quando acabei de contar de dez para um j Elisabeth estava
num transe hipntico profundo. Os seus olhos moviam-se sob as
plpebras O corpo estava mole e a respirao tinha baixado para
um ritmo bastante relaxado. A sua mente estava agora pronta para
a viagem no tempo.
     Fi-la recuar lentamente, desta vez usando um rio tranquilo
numa montanha como porto para o passado distante. Ela
atravessou o rio para uma luz maravilhosa. Caminhando atravs da
luz, emergiu num outro tempo e outro local, numa vida antiga.
     "Calo sandlias leves" observou, depois de eu a ter instruda
para olhar para os ps. "Tm uma tira mesmo por cima dos
tornozelos. Uso um vestido branco comprido com diferentes
comprimentos. Sobre ele cai uma espcie de vu que me cobre
at aos tornozelos. As mangas so muito largas e terminam nos
cotovelos. Tenho braceletes de ouro em trs nveis dos braos."
Ela observava-se com ateno e pormenorizadamente.
     "O meu cabelo  castanho escuro e comprido, abaixo dos
ombros... Os meus olhos tambm so castanhos... a minha pele 
de um castanho claro."
     "E uma rapariga" assumi.
     "Sim" respondeu ela pacientemente. "Mais ou menos que
idade tem?" "Cerca de catorze."
     "O que  que faz? Onde  que vive?" disparei, fazendo duas
perguntas antes de ela ter tempo de responder.
     "No recinto do templo" respondeu. "Estou a aprender a ser
uma curandeira e ajudar os sacerdotes."
     "Sabe o nome dessa terra?" perguntei. " o Egipto... h muito
tempo atrs." "Sabe em que ano?"
     "No" replicou. "No consigo ver isso... mas  h muito tempo
atrs... muito antigo"
                                                 S O AMOR  REAL - 83




     Voltei s memrias e experincias daquele tempo antigo.
     "Por que est a ser treinada para curandeira e para trabalhar
com os sacerdotes?"
     "Fui seleccionada pelos sacerdotes, tal como os outros. Somos
todos escolhidos de acordo com os nossos talentos e habilidades.
.. Os sacerdotes sabem-no desde que somos muito pequenos."
     Queria saber mais sobre este processo de seleco.
     "Como  que os sacerdotes sabem dos seus talentos?
Observam-na na escola ou com os seus pais?"
     "Oh, no" corrigiu-me ela. "Sabem-no intuitivamente. So
muito sbios. Sabem quem tem habilidade para os nmeros e
deve ser engenheiro ou contador ou tesoureiro. Sabem quem 
capaz de escrever e ser escriba. Sabem quem tem potencial
militar e deve ser treinado para liderar exrcitos. Sabem quais
daro os melhores administradores. Estes sero treinados para ser
governadores e oficiais. Sabem quais so aqueles que possuem
habilidades intuitivas e curativas, e estes sero treinados para
curandeiros e conselheiros ou mesmo para ser sacerdotes."
     "Ento os sacerdotes decidem sobres as ocupaes para que
as pessoas so treinadas" resumi.
     "Sim" concordou ela. "Talentos e potenciais so adivinhados
pelos sacerdotes quando a criana  muito jovem. O seu treino 
ento estabelecido... No h escolha."
     "Esse treino  aberto a qualquer um?"
     "Oh, no" objectou ela. "S aos que pertencem  nobreza, os
que tm parentesco com o Fara."
     "Tm que ser parentes do Fara?"
     "Sim, mas a famlia dele  muito grande. Mesmo os primos
distantes so considerados parte da famlia."
     "Mas e aquelas pessoas com muito talento que no tm
qualquer parentesco?" perguntei, a minha curiosidade fazendo
com que me demorasse neste sistema de seleco familiar.
     "Eles podem estudar" explicou mais uma vez pacientemente.
"Mas s podem progredir at certo ponto... para ser assistentes
dos chefes que pertencem  famlia real."
     "A Elizabeth  parente do Fara?" perguntei. "Uma prima...
no muito prxima"
     "O suficiente" afirmei eu. "Sim" respondeu.
     Decidi continuar, j que a doente a seguir a Elisabeth tinha
cancelado a sua consulta e, portanto, o tempo no me
pressionava tanto como era costume. "Tem alguma famlia
consigo?"
     "Sim, o meu irmo. Somos muito unidos. Ele  mais velho dois
anos. Tambm foi escolhido para ser treinado como curandeiro e
sacerdote. Estamos juntos aqui. Os nossos pais vivem a alguma
84 - BRIAN L. WEISS, M.D.




distncia, e assim  bom ter o meu irmo comigo.. . Estou a v-lo
agora."
     Arrisquei mais uma distraco, procurando pistas para
compreender as relaes de Elisabeth. "Olhe atentamente para a
cara dele. Para os olhos. Reconhece-o como algum na sua vida
actual?"
     Ela parecia estar a perscrutar a cara dele. "No" disse
tristemente. "No o reconheo."
     De certa forma tinha esperado que ela reconhecesse a me
amada, ou talvez o irmo ou pai. Mas no houve qualquer
identificao.
     "Agora avance no tempo at ao prximo acontecimento
significativo na vida dessa rapariga egpcia. Pode lembrar-se de
tudo." Ela avanou no tempo.
     "Agora tenho dezoito anos. Eu e o meu irmo evolumos
muito. Ele est a usar uma saia curta, branca e dourada. Termina
logo acima dos joelhos... Ele  muito bonito" reparou ela.
     "Como  que evoluram?" inquiri, levando-a focar de novo o
processo de treino.
     "Possumos muito mais capacidades. Trabalhamos com varas
especiais para curar, que, quando dominadas, aceleram muito a
regenerao dos tecidos e dos membros." Fez uma pausa por
alguns momentos, a estudar as varetas.
     "Contm uma energia lquida que flui atravs delas... A
energia  concentrada no ponto de regenerao... Podem ser
usadas para fazer crescer membros e curar o tecido, mesmo
aquele que esteja a morrer ou j morto."
     Estava surpreendido. Mesmo a medicina moderna no
consegue realizar estes feitos, apesar de a Natureza o fazer,
como com as salamandras e outros lagartos, cujos membros ou
caudas arrancadas podem crescer de novo. A mais recente
investigao de leses traumticas da espinal medula s agora
comea a controlar a regenerao dos nervos, cerca de quatro ou
cinco mil anos depois do trabalho de Elisabeth com as varetas
que podia induzir a regenerao de membros e tecidos.
     Ela no podia explicar a forma como as varetas funcionavam,
para alm de referir a energia. No tinha o vocabulrio ou os
conceitos mentais para compreender e explicar.
     Comeou a falar de novo, e as razes para a sua falta de
compreenso tornaram-se evidentes.
     "Pelo menos  isso que me dizem. Sou jovem e uma rapariga.
J segurei nas varetas, mas nunca as vi a funcionar. Ainda no vi
essa regenerao... O meu irmo j. A ele  permitido e quando
crescer ser-lhe- permitido este conhecimento sobre a
regenerao. O meu treino terminar antes desse nvel. No
posso progredir at a porque sou mulher" explicou.
                                                    S O AMOR  REAL - 85




     "A ele ser-lhe- permitido o conhecimento de regenerao e
a si no?" perguntei.
     " verdade" comentou. "Ser-lhe- permitido o conhecimento
de segredos mais elevados, mas a mim no."
     Ela fez uma pausa e ento continuou. "Eu no tenho cimes
dele.  o costume... um costume tonto, porque tenho mais
capacidade para curar que muitos homens."
     A sua voz tornou-se num sussurro.
     "De qualquer forma ele revelar-me- os segredos.. .
Prometeu-me. Tambm me vai ensinar como funcionam as
varetas. J me explicou muitas coisas... Contou-me que esto a
tentar fazer reviver pessoas que morreram recentemente!"
     "Que morreram?" ecoei.
     "Sim, mas isso tem que ser feito muito depressa"
acrescentou. "Como  que o fazem?"
     "No sei... Utilizam vrias varetas. Existem cnticos
especiais. O corpo deve ser posicionado de uma forma
determinada. H mais, mas eu no sei... Quando o meu irmo
aprender, ele dir-me-." Aqui terminou a sua explicao.
     A minha mente lgica assumiu que as pessoas que
alegadamente estavam a tentar fazer reviver no estavam
realmente mortas, mas provavelmente prximo da morte, como
os doentes que recuperam de experincias de quase-morte. No
fim de contas, naquele tempo, eles no tinham equipamento para
monitorizar as ondas cerebrais. No podiam determinar o ponto
de ausncia de actividade cerebral, que  a nossa moderna
definio de morte.
     A minha intuio disse-me para manter a mente aberta.
Outras explicaes poderiam existir, explicaes para alm da
minha actual capacidade de compreenso.
     Elisabeth estava silenciosa e eu continuei a interrogar. "H
outras formas de cura?" perguntei-lhe.
     "H muitas" respondeu. "Uma  com as mos. Tocamos na
parte do corpo que necessita de tratamento e enviamos energia
directamente para ela... atravs das nossas mos. Alguns nem
precisam de tocar no corpo. Sentem as zonas de calor com as mos
acima do corpo da pessoa. Dispersamos o calor e removemos a
energia. O calor tem que ser disperso a vrios nveis, no apenas no
mais prximo" explicou. Agora falava rapidamente descrevendo
variaes antigas de tcnicas de cura.
     "Outros podem curar mentalmente. Podem ver na sua mente as
reas onde existem problemas e enviar mentalmente energia para
esses locais. Ainda no consigo fazer isso" acrescentou, "mas
eventualmente aprenderei. Outros tocam no pulso da pessoa com o
segundo e terceiro dedo, unidos, e enviam energia directamente para
a corrente sangunea. Desta forma pode-se atingir os rgos internos,
86 - BRIAN L. WEISS, M.D.




vendo-se a energia purificadora sair pelos dedos dos ps da pessoa."
Elisabeth continuou a sua rpida e cada vez mais tcnica explicao.
     "Agora estou a aprender a pr as pessoas em nveis de transe
muito profundos e a faz-los ver a cura enquanto ocorre, para que
possam completar essa transformao a nvel mental. Damos-lhes
poes para ajud-los a ir a grande profundidade." Por momentos fez
uma pausa.
     Com excepo das poes, esta ltima tcnica assemelha-se
muito s visualizaes hipnticas que eu e outros utilizamos, nos finais
do sculo ~, para estimular o processo de cura.
     "H mais mtodos?" inquiri.
     "Aqueles que evocam os deuses so reservados aos sacerdotes"
respondeu. "Mas esses so-me proibidos."
     "Proibidos?"
     "Sim, porque as mulheres no podem ser sacerdotes. Podemos
ser curandeiras e assistimos os sacerdotes, mas no podemos fazer as
suas funes... Oh, algumas mulheres chamam-se a si mesmas
sacerdotisas e tocam instrumentos musicais nas cerimnias, mas no
tm poder." Com algum sarcasmo na voz, acrescentou "So msicos
como eu sou curandeira; dificilmente so sacerdotes. At Hathor troa
delas."
     Hathor era a deusa egpcia do amor, jbilo e alegria. Tambm era
a deusa da festividade e da dana. Provavelmente Elisabeth estava a
lembrar-se de uma das funes mais esotricas de Hathor, a de
defensora e protectora das mulheres. O escrnio de Hathor para com
estas sacerdotisas enfatizava a oca grandiosidade os seus ttulos.
     Elisabeth ficou mais uma vez em silncio e, enquanto isso, a
minha mente traava paralelismos com o tempo presente. Os telhados
de vidro parecem ser to velhos quanto o prprio tempo.
     A estrada para o progresso parecia estar apenas aberta a alguns,
neste antigo Egipto. Os parentes do fara, considerado ele mesmo
semidivino, podiam avanar, mas os parentes do sexo feminino
rapidamente embatiam contra a barreira do gnero. Os parentes
masculinos do fara eram os poucos privilegiados.
     Elisabeth ainda permanecia em silncio e eu pedi-lhe para
avanar. "Avance no tempo para o acontecimento mais importante
nessa vida. O que  que v?"
     "Agora, eu e o meu irmo somos conselheiros" comentou, depois
de progredir mais alguns anos no futuro. "Trabalhamos com o
governador desta rea e aconselhamo-lo. Ele  um excelente
administrador e tambm um bom chefe militar. Mas  impulsivo e
necessita da nossa intuio e sabedoria interior... Ajudamo-lo a
encontrar um equilbrio."
     " feliz a fazer isso?"
     "Sim, ele  bom para mim e para o meu irmo... Geralmente 
bondoso. Ouve muitas vezes os nossos conselhos...Tambm
                                                    S O AMOR  REAL - 87




continuamos a curar." Ela parecia contente, mesmo exultante. No
tinha casado e, portanto, o irmo era a sua famlia. Avancei-a no
tempo.
     Agora, ela estava visivelmente perturbada. Comeou a chorar e
depois parou "Eu sei demasiado para isto. Preciso de ser forte. No 
que eu receie o exlio ou a morte. De forma alguma. Mas deixar o meu
irmo...  muito duro!" Outra lgrima caiu.
     "O que  que aconteceu?" perguntei, de certa forma assustado
com o sbito declnio da sua sorte.
     "O filho do governador ficou gravemente doente. Morreu antes
que se pudesse fazer qualquer coisa. O governador sabe do nosso
trabalho com a regenerao e das nossas tentativas para trazer  vida
os mortos recentes. Ento, ele exigiu que eu trouxesse o seu filho dos
mortos. Se no o fizesse, enviar-me-ia para o exlio permanente.
Eu conheo aquele lugar. Ningum regressa."
     "E o filho?" perguntei hesitante.
     "No pde ser reanimado. No foi permitido. Ento, eu tenho
que ser punida." Estava triste de novo e as lgrimas mais uma
vez se acumularam nos seus olhos.
     "No faz sentido" disse ela lentamente. "Nunca me deram
permisso para aprender o funcionamento das varetas. Nunca me
permitiram adquirir o conhecimento da regenerao e
reanimao. O meu irmo tinha-me ensinado um pouco, mas no
o suficiente... Eles no sabiam que ele me tinha ensinado algo."
     "O que  que aconteceu ao seu irmo?"
     "Ele no estava e por isso foi poupado. Todos os sacerdotes
estavam para fora. S eu estava ao p... Ele voltou a tempo de
me ver antes do exlio comear. No tenho medo do exlio ou da
morte, apenas de o deixar... No tenho escolha."
     "H quanto tempo est no exlio?" perguntei.
     "No muito" respondeu. "Eu sei como deixar o meu corpo.
Um dia deixei o meu corpo e no voltei. Essa foi a minha morte,
porque sem a alma o corpo morre." Ela tinha saltado para aquele
ponto e falava de uma perspectiva mais elevada.
     "To simples como isso?"
     "No h dor, nenhuma interrupo na conscincia quando se
escolhe tal morte.  por isso que eu no receava a morte. Sabia
que nunca mais poderia ver o meu irmo. No podia fazer o meu
trabalho naquela ilha rida. No havia qualquer razo para
continuar na forma fsica. Os deuses compreendem."
     Ela estava em silncio, a descansar. Eu sabia que o amor
pelo irmo sobreviveria  morte fsica, tal como o amor do irmo
por ela. O amor  eterno. Ter-se-o reencontrado ao longo dos
sculos passados? Encontrar-se-iam no futuro? Tambm sabia
que essa memria ajud-la-ia amenizar o seu sofrimento. Mais
uma vez tinha-se encontrado a si mesma no passado distante. A
88 - BRIAN L. WEISS, M.D.




sua conscincia, a sua alma, tinha sobrevivido  morte fsica e a
sculos para emergir mais uma vez, desta vez como Elisabeth. Se
ela podia sobreviver atravs do tempo, tambm a sua me podia.
Assim como todos ns. Ela no tinha encontrado a me no antigo
Egipto, mas tinha encontrado um irmo amado, uma alma
companheira, que no reconhecera como algum na sua vida
actual. Pelo menos ainda no.
     Gosto de pensar nas relaes das almas como algo
semelhante a uma grande rvore com mil folhas. As folhas que
esto no nosso ramo so-nos intimamente prximas. Podem
mesmo partilhar experincias, experincias de alma, connosco.
Podem existir trs ou quatro ou cinco folhas no nosso ramo.
Tambm estamos muito prximos das folhas que esto no ramo
ao p do nosso. Partilhamos o mesmo tronco. So-nos prximas,
mas no to prximas quanto as do nosso ramo. Prosseguindo
este tipo de raciocnio,  medida que percorremos a rvore,
temos de concluir que estamos ainda relacionados com as folhas
ou almas mais distantes, mas no de forma to ntima como com
as que esto na nossa proximidade imediata. Somos todos parte
de uma rvore, de um tronco. Podemos partilhar experincias.
Conhecer-nos mutuamente. Mas as do nosso ramo so as mais
ntimas.
     E h muitas outras rvores nesta bela floresta. Cada rvore
est ligada s demais atravs do sistema de razes no solo.
Assim, apesar de haver em rvores distantes folhas que parecem
nada ter a ver connosco, a verdade  que estamos ligados a elas
tambm, mesmo remotamente. Todas as folhas esto
relacionadas entre si. Mas estamos mais intimamente ligados s
da nossa rvore. E mais ainda s que esto no nosso ramo. E
quase somos unos com as que nos rodeiam, no mesmo ramo.
     Provavelmente conheceu outras almas mais afastadas na sua
rvore em vidas anteriores. Pode ter tido muitas relaes
diferentes com elas. As suas interaces podem ter sido
extremamente breves. Mesmo um encontro de trinta minutos
pode t-lo ajudado a aprender uma lio, ou ajudado os dois,
como  geralmente o caso. Uma dessas almas pode ter sido o
pedinte na estrada a quem deu uma esmola, o que lhe permitiu
estender a sua compaixo a outro ser humano e permitiu que
quem recebeu aprendesse sobre receber amor e ajuda. Voc e o
pedinte podem nunca mais ter-se encontrado nessa vida, mas
mesmo assim fazem parte do mesmo drama. Os encontros variam
em durao - cinco minutos, uma hora, um dia, um ms, uma
dcada ou mais -  assim que as almas se ligam. As relaes no
se, medem por tempo, mas por lies aprendidas.
                                                                 S O AMOR  REAL - 89




18
                                             Como seria interessante escrever a histria das
                          experincias nesta vida de um homem que se tivesse suicidado na
                          vida anterior; como ele agora esbarra com as mesmas exigncias
                            com que anteriormente se deparou, at chegar  concluso que
                             ter de satisfazer essas exigncias... Os actos da vida anterior
                                                                 do direco  vida actual.
                                                                                    TOLSTOI

    Ele   sentiu a mensagem causticar a sua alma. As palavras,
intensas, marcaram para sempre o seu ser. Enquanto descansava
depois de deixar o seu corpo desfeito, ambos reflectimos sobre os
diferentes nveis de significado destas palavras aparentemente
simples.
     A sesso tinha comeado da forma habitual. Regredi o Pedro
atravs de um mtodo rpido de induo e ele deslizou
rapidamente para um estado profundo e tranquilo. A sua
respirao tomou-se profunda, e os seus msculos relaxaram por
completo. A sua mente, focada pela hipnose, penetrou os usuais
limites do espao e do tempo, e ele recordou acontecimentos que
tinham ocorrido muito antes do seu nascimento como Pedro.
     "Estou a calar sapatos castanhos" observou quando emergiu
nos limites fsicos de uma encarnao prvia. "-Esto velhos e
gastos... Sou um homem com cerca de quarenta anos"
acrescentou sem eu ter perguntado. "Sou careca no cimo da
cabea e o cabelo est a ficar grisalho. As minhas patilhas e barba
j esto brancas.
     A minha barba  curta tem a forma de pra."
     Ele prestava uma ateno considervel a pequenos
pormenores. Gostei da preciso da sua descrio, mas tambm
estava consciente do tempo que decorria.
     "Continue" aconselhei. "Descubra o que  que faz nessa vida.
V para o prximo acontecimento significativo."
     "Os meus culos so pequenos e tm aros de metal" notou,
ainda ocupado com caractersticas fsicas. "O meu nariz  largo e
a minha pele  muito plida:"
     No  pouco usual que um paciente hipnotizado resista s
minhas sugestes. Aprendi que nem sempre posso guiar o
paciente; por vezes,  o paciente que dirige.
     "O que  que faz nesta vida?" perguntei.
     "Sou mdico" respondeu rapidamente, "Um mdico do campo.
Trabalho muito. A maioria das pessoas  pobre, mas sobrevivo. E
acima de tudo so boas pessoas."
     "Conhece o nome do local onde vive?" "Acho que  neste pas,
no Ohio..." "Sabe em que ano?"
90 - BRIAN L. WEISS, M.D.




     "Finais do sculo dezoito, penso"
     "E o seu nome?" inquiri delicadamente. "Thomas... o meu
nome  Thomas." "Tem um ltimo nome?"
     "Comea por um D... Dixon, ou Diggins, ou algo assim... Eu
no me sinto bem" acrescentou.
     "Qual  o problema?"
     "Sinto-me triste... muito triste. No quero continuar a viver!"
Ele tinha saltado para um momento de crise.
     "O que  que o faz estar to triste?" inquiri.
     "J estive deprimido antes" esclareceu. "Vai e vem, mas desta
vez  pior. Nunca foi to mau como agora. Ambas as coisas so
simplesmente demasiado esmagadoras... No posso continuar
assim."
     "Que ambas as coisas?" ecoei.
     "O meu doente morreu. A febre matou-o. Confiaram em mim
para o salvar. Depositaram a sua f em mim e eu nada pude fazer.
     Decepcionei-os... Agora no tm marido, nem pai. Tero que
lutar para sobreviver... No consegui salv-lo!"
     "Por vezes, os doentes morrem apesar dos nossos esforos.
Especialmente no sculo dezoito" acrescentei, tentando
paradoxalmente amenizar a sua culpa e desespero acerca de um
acontecimento que tinha ocorrido h um sculo atrs. No podia
alterar o acontecimento, apenas a sua atitude perante ele. Eu
sabia que Thomas j tinha vivido e agido sobre os seus
sentimentos. O que estava feito, estava feito. Mas ainda podia
ajudar Pedro, levando-o a compreender, a ver de uma perspectiva
mais elevada e afastada.
     Ele estava em silncio. Esperei no o ter arrancado da vida do
mdico ao fazer terapia direccionada a um nvel de compreenso
para alm do de Thomas. Ainda no tinha sequer encontrado o
acontecimento que havia precipitado aquela depresso.
     "Qual  a outra coisa que lhe causa tristeza?" perguntei, como
que tentando colocar o gnio de volta para dentro da lmpada. "A
minha mulher deixou-me" respondeu. Fiquei aliviado por estar a
falar com Thomas mais uma vez.
     "Ela deixou-o?" repeti, incentivando-o a explicar.
     "Sim" respondeu ele tristemente. "A nossa vida era demasiado
difcil. Nem podamos ter crianas. Ela voltou para a famlia em
Boston... Estou muito envergonhado... No pude ajud-la. No
consegui faz-la feliz."
     Nem sequer tentei a terapia com a sua mente mais elevada
nesta altura. Em vez disso, pedi-lhe para avanar no tempo at ao
prximo acontecimento significativo naquela vida. Podamos fazer
terapia mais tarde, enquanto ele revia esta vida ainda em estado
de hipnose, ou mesmo depois, quando ele sasse da hipnose.
                                                    S O AMOR  REAL - 91




     "Tenho uma arma" explicou. "Vou matar-me e acabar com esta
misria!"
     Reprimi o impulso de perguntar porque  que tinha escolhido
uma arma de fogo e no um dos muitos medicamentos ou
venenos disponveis a um mdico daquela altura. Ele tinha
tomado aquela deciso h pelo menos um sculo atrs. A questo
em si era provavelmente a minha forma de intelectualizar o seu
desespero, um desespero de tal magnitude que era capaz de o
levar  auto-aniquilao.
     "O que  que acontece a seguir?" perguntei em vez disso. "Fi-lo"
disse ele simplesmente.. "Dei um tiro na boca, e agora posso ver o
meu corpo... Tanto sangue! Tanto sangue!" Ele j tinha deixado o
corpo e estava a v-lo  distncia.
     "Como  que se sente agora?" perguntei.
     "Confuso... ainda estou triste, estou to cansado" respondeu.
"Mas no posso descansar. Ainda no. .. Est aqui algum para me
ver."
     "Quem  que est a?"
     "No sei. Algum muito importante. Tem qualquer coisa para me
dizer."
     "O que  que lhe diz?"
     "Que eu vivi uma boa vida, at ao fim. No devia ter acabado com
a minha vida. No entanto, ele parece saber que eu faria o que fiz."
     "H algo mais?" perguntei, pondo de lado aquele paradoxo. A
resposta foi-me dada directamente a mim, numa voz mais forte. Seria
ela de Thomas, Pedro, ou de outra pessoa qualquer? Lembrei-me
repentinamente dos Mestres que falavam atravs de Catherine.
Excepto que isto se passava anos depois e Catherine no estava aqui.
     "O importante  estender a mo com amor para ajudar os outros,
no os resultados..Estendam a mo com amor.  a nica coisa que
tm de fazer. Amem-se uns aos outros. Os resultados de ajudar com
amor no so os resultados que procuram. Resultados para o corpo
fsico. Devem curar o corao dos Homens."
     A mensagem era dirigida aos dois mdicos, Thomas e eu, e
ambos ouvimos arrebatados  medida que a mensagem continuava. A
voz era mais forte, mais segura, mais didctica que a de Pedro.
     "Vou-vos ensinar como curar o corao dos homens.
Compreendero. Amem-se uns aos outros!"
     Ambos podamos sentir a fora destas palavras  medida que
eram gravadas nos nossos seres. As palavras estavam vivas. Nunca as
esqueceramos.
     Mais tarde, Pedro disse-me que tinha visto e ouvido nitidamente
tudo o que este visitante luminoso tinha comunicado  palavras que
danavam com a luz enquanto preenchiam o espao entre elas.
     Eu ouvi as mesmas palavras. Tinha a certeza que tambm me
tinham sido dirigidas. Lies importantes me assaltaram. D-te com
92 - BRIAN L. WEISS, M.D.




amor e compaixo, e no te preocupes demasiado com os resultados.
No tentes terminar a tua vida antes do tempo natural. Uma sabedoria
mais elevada trata dos resultados e sabe o tempo para todas as
coisas. O destino e o livre arbtrio coexistem. No meas a cura pelos
resultados fsicos. A cura ocorre a muitos nveis, no apenas no fsico,
e a verdadeira cura deve ocorrer ao nvel do corao. De alguma
forma iria aprender a curar o corao dos Homens. Acima de tudo:
amem-se mutuamente. Sabedoria eterna, facilmente compreendida,
mas praticada apenas por alguns.
     O meu pensamento voltou a Pedro. Dores de separao e de
perda infestavam as suas vidas. Desta vez tinham-no levado ao
suicdio. Ele tinha sido avisado de que no devia acabar com uma vida
prematuramente. Mas novas perdas ocorreram de novo, e a amargura
tinha voltado. Lembrar-se-ia do aviso ou o desespero irremedivel
venc-lo-ia mais uma vez?
     Como  devastador ser mdico e no poder curar o paciente. A
"falha" de Elisabeth no antigo Egipto. O desespero de Pedro como
Thomas, o mdico de Ohio. As minhas prprias dolorosas experincias
como mdico.
     A minha primeira frustrao como mdico, incapaz de parar a
investida de uma doena fatal, ocorreu h j mais de vinte e cinco
anos, durante o meu primeiro turno clnico como estudante do terceiro
ano na Faculdade de Medicina de Yale. Comecei pela pediatria, e fiquei
responsvel por Danny, um rapaz de sete anos com um grande tumor
de Wilms.  um tumor maligno no rim que surge quase
exclusivamente na infncia. Quanto mais jovem for a criana, melhor
o prognstico. Para este cancro, sete anos no era considerado jovem.
     Danny era o primeiro paciente real da minha carreira mdica.
Antes dele, toda a minha experincia tinha-se resumido a aulas,
palestras, laboratrios, e horas a fio sentado  frente dos compndios.
No terceiro ano comeava a nossa experincia clnica. ramos
colocados em enfermarias de hospitais com doentes reais.
Bastava de factos e teoria. O tempo para a aplicao prtica tinha
chegado.
     Tinha que tirar sangue a Danny para anlises de laboratrio e
encarregava-me de todos os procedimentos menores, chamado
"trabalho de sapa" pelos estagirios mais avanados, mas que 
muito significativo para estudantes do terceiro ano.
     Danny era uma criana maravilhosa, mas a nossa ligao foi
mais forte e especial porque ele era o meu primeiro paciente.
Danny lutou heroicamente. Perdeu o cabelo com os enrgicos,
mas txicos, tratamentos de quimioterapia. A barriga estava
seriamente inchada. No entanto, ele estava a melhorar e eu e os
seus pais tivemos esperana. Uma boa percentagem de crianas
era capaz de recuperar deste tipo de doena maligna naquela
altura.
                                                 S O AMOR  REAL - 93




     Eu era o membro mais novo da equipa de tratamento. O
estudante de medicina, em geral, possua menos conhecimentos
clnicos que o interno, residente, ou mdico de servio, os quais
estavam incrivelmente ocupados com o seu trabalho. Por outro
lado, o estudante de medicina tinha mais tempo para passar com
o paciente e a famlia. Em geral, dava uma prioridade maior ao
conhecimento do doente e da sua famlia. ramos normalmente
designados para falar com a famlia e transmitir mensagens ao
paciente.
     Danny era o meu paciente mais importante e eu gostava
muito dele. Passei muitas horas sentado ao lado da sua cama, a
jogar, a ler histrias, ou apenas a falar. Admirava a sua coragem.
Tambm passei algum tempo com os seus pais, frequentemente
no escuro e tristonho quarto de hospital de Danny. At chegmos
a tomar refeies juntos na cantina. Eles estavam assustados,
mas ao mesmo tempo encorajados pela sua recuperao.
     Subitamente, Danny sofreu uma mudana drstica para pior.
Uma perigosa infeco respiratria dominou o seu sistema
imunitrio enfraquecido.
     Tinha dificuldade em respirar, os olhos habitualmente
brilhantes tomaram-se baos e vtreos. Fui posto de parte pelos
membros mais experimentados da equipa clnica. Iniciou-se,
interrompeu-se e mudou-se a administrao de antibiticos,
inutilmente. Danny no recuperava. Fiquei junto dos pais,
sentindo-me impotente e horrorizado. A doena venceu. Danny
morreu.
     Fiquei demasiado perturbado para passar mais tempo com os
seus pais, para alm de uma breve palavra e um abrao.
Identifiquei-me com a dor deles tanto quanto podia na altura. Trs
anos depois, quando o meu prprio filho morreu num hospital,
compreendi ainda melhor. Mas, na altura, senti uma vaga
responsabilidade pela sua morte, como se pudesse ter feito
qualquer coisa, algo, para evit-la.
     O "fracasso" em curar atinge a alma de cada curador. Entendi
o desespero de Thomas.
     Muito menos pacientes psiquitricos morrem das suas
doenas. No entanto, a incapacidade para ajudar um paciente
severamente perturbado toca as cordas da mesma frustrao e
sensao de impotncia.
     Quando fui director do Departamento de Psiquiatria no Mount
Sinai, tratei uma bonita e talentosa mulher nos seus trinta anos.
Uma mulher bem sucedida na carreira com um casamento recente
e feliz. Gradualmente, tinha-se tornado paranica e o seu estado
continuava a piorar, no obstante os medicamentos, a terapia e
todas as outras intervenes. Nem eu nem todos os especialistas
que consultei fomos capazes de determinar a razo, porque o
94 - BRIAN L. WEISS, M.D.




desenvolvimento e os sintomas da doena assim como os
resultados dos exames eram demasiado atpicos de esquizofrenia,
mania, ou qualquer outra das usuais psicoses. O seu estado tinha
comeado a deteriorar-se logo depois de uma viagem ao Extremo
Oriente, e uma anlise revelou anticorpos a um parasita
extremamente elevados. Ainda assim, nenhum tratamento mdico
ou psiquitrico a ajudou e ela piorou gradualmente.
    Mais uma vez, senti a angstia da impotncia, a frustrao do
mdico que no consegue curar.
    Ajudar com o nosso amor, fazer o nosso melhor e no estar
to preocupado com os resultados, essa  a resposta. Este
conceito to simples, que me parece to verdadeiro,  o blsamo
da compreenso de que os mdicos necessitam. Num certo
sentido, eu tinha-me dado com amor a Danny e ele retribura-mo.

19                                      Para sempre os anos cavalheirescos foram
                                                   Com o velho mundo sepultados,
                                                          Fui um Rei na Babilnia
                                                         E tu uma Escrava Crist.
                                                  Eu vi-te, eu tomei-te, eu usei-te,
                                              Dobrei e despedacei o teu orgulho...
                                         E mirades de sis se puserem e nasceram
                                                       Desde ento sobre a tumba
                                                  Decretada pelo Rei da Babilnia
                                          Para aquela que tinha sido sua Escrava.
                                 O orgulho que esmaguei  agora o meu infortnio,
                                                   Pois ele me esmaga novamente.
                                                    O velho ressentimento perdura
                                                              tanto quanto a morte
                                            Pois amamos, e contudo privamo-nos.
                                   Despedao o meu corao na tua dura perfdia,
                                               E despedao o meu corao em vo.
                                                          WILLIAM ERNEST HENLEY

     Elisabeth estava frustrada e desanimada. A sua nova relao
tinha durado apenas dois encontros. Bob evitava-a. Conhecera-o
casualmente h mais de um ano, no trabalho. Era bem sucedido,
bonito e partilhava muitos dos seus interesses. Dissera-lhe que a
sua longa relao com uma mulher casada tinha acabado h
pouco. Bob sempre tivera relaes breves com vrias mulheres,
mas parecia sempre que faltava alguma coisa a essas mulheres.
Segundo ele, acabavam por se revelar superficiais, ou pouco
inteligentes, ou no partilhavam dos seus valores e, assim,
acabava com essas relaes. A sua amante casada aceitava-o
sempre de volta. O marido dela era rico, mas faltava-lhes paixo.
Ela nunca o deixaria, nem  confortvel vida que levavam.
     "s diferente das outras" garantia Bob a Elisabeth. "Temos
muito mais em comum." Disse a Elisabeth que ela era mais
                                                  S O AMOR  REAL - 95




inteligente e bonita que todas as outras e que ele sabia que a sua
relao podia durar.
     Elisabeth convenceu-se de que Bob tinha razo. "Ele esteve
ali o tempo todo e eu nunca tinha realmente reparado nele"
pensou. "Por vezes a resposta est mesmo  frente dos nossos
olhos e no a vemos."
     Ela esqueceu-se de que a razo por que nunca tinha reparado
em Bob e na sua beleza loira era o facto de nunca se ter sentido
atrada por ele. Estava s e desesperada pelo abrao de um
homem. Escutou a cabea e ignorou os avisos do corao.
     O primeiro encontro foi muito prometedor. Saram para jantar
fora, foram ao cinema e conversaram intimamente na praia
enquanto olhavam as ondas batidas pelo vento sob a luz branca
de uma lua quase cheia. "Eu podia apaixonar-me por ti" disse-lhe
ele, acenando-lhe com uma promessa que nunca seria cumprida.
A sua cabea escutou cuidadosamente cada palavra, ignorando a
ausncia de resposta do seu corao.
     O segundo encontro tambm correu bem. Ela divertiu-se e
sentiu que ele tambm. O seu afecto parecia genuno e comeou a
falar de sexo num futuro. Mas nunca voltou a telefonar.
     Finalmente, ela telefonou-lhe. Ele disse-lhe que a queria ver
outra vez, mas estava muito ocupado e era difcil escolher a altura
certa. Assegurou-lhe que no tinha mudado de opinio acerca
dela. Queria realmente v-la; s no podia dizer-lhe quando.
     "Por que escolho sempre falhados?" perguntou-me. "O que h
de errado comigo?"
     "A Elizabeth no escolhe falhados" disse-lhe. "Ele  um
homem bem sucedido e simptico que lhe disse que estava
interessado e disponvel. No se recrimine."
     No o disse, mas por dentro sabia que ela estava certa. Ela
estava a escolher falhados, neste caso um falhado emocional. O
que sucedia  que ele no podia deixar a segurana da sua
amante casada. Preferia ficar dependente e "seguro". Elisabeth
tomou-se a vtima do seu medo e da sua falta de coragem. Melhor
agora que mais tarde, pensei. Elisabeth era forte; recuperaria.
     Ela perguntou-me se ainda tnhamos tempo para uma
regresso. Sentia que alguma coisa importante estava perto da
superfcie e estava ansiosa por descobrir, pelo que prosseguimos.
     Mas, depois de ela emergir numa vida passada, no fiquei
seguro de ter tomado a deciso certa.
     Ela estava numa terra de grandes plancies ondulantes e
montes achatados no topo. Uma terra com animais semelhantes a
iaques e pequenos e geis cavalos, grandes tendas redondas e
gente nmada. Era uma terra de paixo, e uma terra de violncia.
     O marido estava fora com a maioria dos outros homens, a
caar ou em incurses blicas. O inimigo atacou, lanando vagas
96 - BRIAN L. WEISS, M.D.




de cavaleiros sobre os poucos defensores. Os pais do marido
foram mortos primeiro, mutilados por espadas largas e afiadas. O
seu beb morreu a seguir trespassado por uma lana. Um arrepio
agitou o seu esprito. Ela tambm queria morrer, mas tal no era o
seu destino. Capturada pelos jovens guerreiros devido  sua
beleza, tornou-se propriedade do mais forte da horda invasora.
Algumas outras mulheres jovens foram tambm poupadas.
    "Deixem-me morrer!" rogou ao seu captor, mas ele no o
permitiu.
    "Agora s minha" disse simplesmente. "Vais viver na minha
tenda e sers a minha mulher."
    Com excepo do seu marido que nunca mais veria, todos os
seus entes queridos estavam mortos. No tinha escolha. Vrias
vezes tentou escapar, apenas para ser rapidamente apanhada. As
suas tentativas de suicdio eram igualmente impedidas.
    Tornou-se dura, e a sua depresso transformou-se numa raiva
latente, devorando a sua capacidade de amar. O seu esprito
murchou, e ela apenas existia, um corao empedernido preso
num corpo vivo. Nenhuma priso podia ser to redutora ou to
cruel.
    "Vamos recuar no tempo" sugeri. "Vamos recuar para antes do
ataque  aldeia." Contei de trs para um.
    "O que  que v?" perguntei.
    Agora o seu rosto estava sereno e calmo enquanto recordava
os anos anteriores, crescendo, rindo e brincando com o homem
com quem acabaria por casar. Amava profundamente este amigo
de infncia e ele retribua-lhe este amor. Estava em paz.
    "Reconhece o homem com quem casou? Olhe para os seus
olhos." "No, no conheo" respondeu finalmente.
    "Olhe para as outras pessoas da aldeia. Reconhece algum?"
Ela observou atentamente os parentes e amigos naquela vida.
"Sim... sim, a minha me est ali!" proferiu Elisabeth alegremente.
"Ela  a me do meu marido. Somos muito unidas. Quando a
minha me morreu ela acolheu-me como a uma filha. Eu
reconheo-a!"
    "Reconhece mais algum?" inquiri.
    "Ela vive na tenda maior, com as bandeiras e as penas
brancas" respondeu, ignorando a minha pergunta.
    O seu rosto ensombrou-se.
    "Tambm a mataram!" lamentou, saltando de novo para o
massacre.
    "Quem  que a matou? De onde  que eles vieram?"
    "Do Leste, para l do muro... Foi para ali que me levaram."
"Sabe qual  o nome da terra deles?"
    Ela pensou antes de responder. "No. Parece ser algures na
Asia, no norte. Talvez o oeste da China... Temos traos orientais."
                                                  S O AMOR  REAL - 97




"Est bem" retorqui. "Vamos avanar no tempo, nessa vida. O que
 que acontece?"
     "Finalmente deixaram que me matasse, depois de ter
envelhecido e j no ser to atraente" respondeu, sem muita
emoo. "Acho que se fartaram de mim" acrescentou.
     Ela estava agora a flutuar, tendo deixado o seu corpo.
     Pedi-lhe para rever a sua vida. "O que  que v? Quais foram
as lies? O que  que aprendeu?"
     Elisabeth permaneceu em silncio por alguns momentos. E,
ento, respondeu: "Aprendi muitas coisas. Aprendi sobre o dio e
a loucura que  permanecermos agarrados a ele. Podia ter
trabalhado com as crianas mais pequenas, com os mais idosos,
com os doentes, na cidade inimiga. Podia t-los ensinado. . . Podia
t-los amado... mas nunca me permiti amar. Nunca permiti que a
minha raiva se dissipasse. Nunca me permiti abrir mais uma vez o
meu corao. E essas crianas, no mnimo, estavam inocentes.
Eram almas a entrar naquele novo mundo. No tinham nada a ver
com o assalto, com a morte dos meus entes queridos. E, no
entanto, tambm os culpei. Transferi o dio mesmo para as nova
geraes e isso  uma loucura. Podia mago-los, mas acima de
tudo magoei-me a mim. . . Nunca me permiti amar de novo." Ela
fez uma pausa. "E tinha muito amor para dar."
     Fez mais uma pausa e ento pareceu falar de um nvel ainda
mais elevado.
     "O amor  como um fluido" comeou. "Preenche as fendas.
Enche os espaos vazios ao seu prprio ritmo. Somos ns, so as
pessoas que o impedem construindo falsas barreiras. E quando o
amor no pode encher os nossos coraes e as nossas mentes,
quando estamos desligados das nossas almas, que so amor,
ento, todos nos tornamos loucos."
     Pensei nas suas palavras. Sabia que o amor era importante,
talvez a coisa mais importante do mundo. Mas nunca me tinha
apercebido de que a ausncia de amor podia levar-nos  loucura.
     Lembrei-me das famosas experincias do psiclogo, Dr. Harry
Harlow, em que jovens macacos privados do toque, carinho e
amor se tornavam completamente associais, fisicamente doentes
e at morriam. No sobreviviam intactos  falta de amor. Amar
no  uma opo.  uma necessidade.
     Voltei a Elisabeth. "Olhe para a frente no tempo. Como  que
o que aprendeu ento a afecta agora? Como  que esta
aprendizagem, esta recordao, pode ajud-la na sua vida actual
a sentir-se mais feliz, mais cheia de paz, de amor?
     "Devo aprender a soltar a raiva, a no cont-la dentro de mim,
a reconhec-la, a reconhecer as suas origens e deix-la ir. Devo
sentir-me livre para amar, no me conter, e no entanto ainda o
98 - BRIAN L. WEISS, M.D.




fao. No encontrei ningum para amar completamente,
incondicionalmente. Parece haver sempre um problema.
     Ela manteve-se silenciosa durante meio minuto. Subitamente,
comeou a falar com uma voz muito mais profunda e lenta que o
habitual. O quarto estava muito frio.
     "Deus  uno" comeou. Lutava para encontrar as palavras
adequadas. "Tudo  uma vibrao, uma energia. A nica diferena
 a frequncia da vibrao. Assim, Deus, os homens e as rochas
tm a mesma relao que o vapor, a gua e o gelo. Tudo, tudo o
que existe,  feito do todo. O Amor derruba as barreiras e cria a
unidade. A ignorncia cria barreiras, desunio e diferena. Deves
ensinar-lhes estas coisas."
     Este foi o final da mensagem. Elisabeth descansava.
     Pensei nas mensagens de Catherine que pareciam to
semelhantes s de Elisabeth. At o quarto ficava frio quando
Catherine transmitia estas mensagens, tal como quando Elisabeth
o fazia. Meditei nas suas palavras. Curar  o acto de unir, remover
as barreiras. A separao  o que causa a dor. Por que  to difcil
para as pessoas compreender este conceito?
     Apesar de ter conduzido mais de um milhar de regresses
individuais a vidas passadas com os meus pacientes, e muito mais
em grupos, tive apenas uma meia dzia destas experincias na
minha vida. Tinha tido algumas recordaes em sonhos vvidos e
durante um tratamento de shiatsu, ou acupresso. Algumas
destas esto descritas no meus livros anteriores.
     Quando a minha mulher, Carole, terminou o curso de
hipnoterapia para enriquecer as suas habilitaes como assistente
social, conduziu-me nalgumas sesses de regresso a vidas
passadas. Queria fazer a experincia com algum em quem
confiasse e que estivesse bem treinado.
     Praticava meditao h anos, e entrei profunda e rapidamente
em hipnose. Quando as memrias comearam a fluir na minha
mente, eram primordialmente visuais e bastante intensas como as
imagens nos meus sonhos.
     Podia ver-me como um rapaz jovem pertencente a uma famlia
judia abastada em Alexandria, por volta do tempo de Cristo. A
nossa comunidade, sabia-o de uma forma ou outra, ajudara a
financiar as enormes portas douradas do Grande Templo em
Jerusalm. Os meus estudos incluam grego e a filosofia dos
antigos Gregos, especialmente os seguidores de Plato e
Aristteles.
     Lembrei-me de um fragmento da minha vida como esse
jovem, quando tentei aumentar a minha educao clssica
viajando atravs das comunidades clandestinas nos desertos do
sul e grutas da Palestina, e pelo norte do Egipto. Cada
comunidade era uma espcie de centro de aprendizagem,
                                                 S O AMOR  REAL - 99




geralmente de conhecimento mstico e esotrico. Algumas destas
eram provavelmente aldeias essnias.
    Viajei de forma muito simples, levando apenas alguma comida
e roupa. Quase tudo o que precisava era arranjado ao longo do
caminho. A minha famlia tinha dinheiro e ramos conhecidos
destas gentes.
    O conhecimento espiritual que estava a adquirir era excitante
e rpido, e estava a apreciar a viagem.
    Durante vrias semanas, ao longo do caminho de comunidade
para comunidade, fui acompanhado por um homem da minha
idade. Era mais alto do que eu e tinha uns olhos castanhos
intensos. Ambos usvamos tnicas e turbantes na cabea. Ele
emanava paz, e  medida que estudvamos juntos com os sbios
das aldeias, ele apreendia os ensinamentos muito mais
rapidamente que eu. Mais tarde ensinava-me, quando
acampvamos no deserto  volta das fogueiras.
    Depois de algumas semanas, separmo-nos. Fui estudar para
uma pequena sinagoga perto da Grande Pirmide e ele foi para
Oeste.
    Muitos dos meus doentes, incluindo Elisabeth e Pedro,
recordaram vidas na rea da antiga Palestina. Muitos recordaram
o Egipto. Tanto para mim, quanto para eles, as imagens
presenciadas foram extremamente vvidas e reais.
100 - BRIAN L. WEISS, M.D.




20
                                              tu, adolescente ou jovem, que te julgas
                                    esquecido dos deuses, sabe que se te tornares pior
                                     irs para as piores almas, ou se melhorares para
                                      as melhores, e que em qualquer sucesso de vida
                                         e morte fars e sofrers o que algum pode de
                                        igual modo sofrer s mos do seu semelhante.
                                                                Esta  a justia do cu.
                                                                               PLATO

     Na  vida, por vezes, os acontecimentos mais significativos
esto em cima de ns antes de darmos por isso, tal como a
aproximao silenciosa de um gato selvagem. Como  que
podemos no ter reparado numa coisa de tal importncia?  que a
camuflagem  psicolgica.
     A negao, o acto de no ver o que  evidente, porque na
realidade no se quer ver,  o maior dos disfarces. Adicione-se a
isto a fadiga, distraces, racionalizaes, fugas mentais e todos
as outras preocupaes da mente que se erguem no caminho.
Felizmente, a persistncia do destino pode arredar os disfarces e
fazer-nos ver aquilo que precisamos de ver, fazendo o facto
principal destacar-se do pano de fundo, como num caleidoscpio.
     Ao longo dos ltimos quinze anos, tratei com frequncia
casais e famlias que descobriram ter estado juntos em vidas
passadas. Por vezes regredi casais que simultaneamente e pela
primeira vez se descobriram a interagir na mesma vida passada.
Para eles estas revelaes so frequentemente chocantes. Nunca
antes tinham vivido nada assim.
     Ficam em silncio enquanto as cenas se desenrolam no meu
consultrio. S depois, ao sair do tranquilo estado hipntico  que
descobrem que estiveram a observar as mesmas cenas, a sentir
as mesmas emoes. S ento  que tambm eu me torno
consciente das suas ligaes passadas.
     Mas no caso de Elisabeth e Pedro tudo se passou ao contrrio.
As    suas   vidas    presentes   e    passadas   desenrolavam-se
independente e separadamente no meu gabinete. No se
conheciam. Nunca se tinham encontrado. Provinham de pases e
culturas diferentes. Vinham ao meu gabinete em dias diferentes.
Vendo-os separadamente e nunca tendo suspeitado da existncia
de um elo entre eles, nunca tinha feito qualquer conexo. Eles
tinham-se amado e perdido mutuamente ao longo de vidas
passadas.
     Por que no o vi antes? Seria isto tambm o meu destino? 
suposto que eu seja um "casamenteiro" csmico? Estaria
distrado, cansado, em negao? Estaria a racionalizar as
                                                 S O AMOR  REAL - 101




"coincidncias"? Ou estava eu a agir mesmo na altura precisa, a
ideia na sua alvorada, tal com sempre esteve planeado?
     Uma noite apercebi-me. "Eli?" Tinha ouvido isto de Elisabeth
semanas antes, no meu gabinete.
     Mais cedo, nesse mesmo dia, Pedro no tinha conseguido
lembrar-se do seu nome. Em transe hipntico, tinha surgido numa
vida antiga, que j tinha recordado anteriormente. Nessa vida, ele
tinha morrido ao ser arrastado por soldados vestidos de couro. A
sua vida tinha-se esvado enquanto a sua cabea descansava no
colo da sua querida filha, que o embalava ritmadamente com
desespero.
     Talvez houvesse mais a aprender dessa vida. Mais uma vez,
recordou ter morrido nos braos dela, a vida a fugir-lhe. Pedi-lhe
para olhar para ela atentamente, para olhar profundamente para
os seus olhos e ver se a reconhecia como algum na sua vida
actual.
     "No" respondeu tristemente. "No a conheo."
     "Sabe o seu nome?" perguntei, levando toda a sua ateno a
concentrar-se nessa vida antiga na Palestina.
     Ele reflectiu. "No" disse finalmente.
     "Vou tocar-lhe ao de leve na testa enquanto conto de trs
para um. Deixe o seu nome vir  sua cabea,  sua conscincia.
Qualquer nome que ocorra est bem."
     Nenhum nome lhe ocorreu.
     "No sei o meu nome. Nada me ocorre!"
     Mas subitamente algo explodiu dentro de mim, uma exploso
de luz, de compreenso, sbita, clara e ntida.
     "Eli" disse alto. "O seu nome  Eli?"
     "Como  que sabe?" respondeu ele das profundezas do tempo.
"Esse  o meu nome. Uns chamam-me Elihu, e outros Eli... Como 
que sabe? Tambm estava l?"
     "No sei" respondi honestamente. "Apenas me ocorreu."
Fiquei estupefacto com toda a situao. Como  que eu sabia? J
tinha tido rasgos intuitivos ou psquicos antes, mas no
frequentemente. Isto era mais como se eu me lembrasse de
alguma coisa do que como se estivesse a receber uma mensagem
psquica. Lembrasse o qu? No consegui situ-lo. Tentei lembrar-
me, mas no consegui.
     Sabia por experincia que devia deixar de tentar lembrar-me.
Deixa, continua com o que tens a fazer, a resposta provavelmente
vir-te-  conscincia espontaneamente, mais tarde.
     Faltava uma pea importante de um estranho puzzle. Podia
sentir a sua ausncia, sugerindo uma ligao crucial que ainda
faltava descobrir. Mas uma ligao com qu? Tentei, no com
muito sucesso, concentrar-me noutras coisas.
102 - BRIAN L. WEISS, M.D.




     Mais tarde nessa noite, a pea que faltava surgiu sbita, mas
suavemente, na minha mente. De repente, tornou-se consciente.
Tinha a ver com Elisabeth. H cerca de dois meses ela tinha
voltado a contar uma trgica, mas comovente, vida passada, em
que fora filha de um oleiro na antiga Palestina. O seu pai tinha
sido morto "acidentalmente" por soldados romanos, depois de o
terem arrastado atrs de um cavalo. Os soldados no se tinham
importado muito com isso. O corpo dilacerado, a cabea
ensanguentada, tinha sido embalado pela filha enquanto morria
na estrada poeirenta.
     Ela tinha recordado o nome dele naquela vida. O seu nome
era Eli.
     Agora o meu crebro trabalhava febrilmente. Os pormenores
das duas vidas na Palestina encaixavam. As recordaes de Pedro
e Elisabeth daquela vida interligavam-se perfeitamente.
Descries fsicas, acontecimentos e nomes eram iguais. Pai e
filha.
     J trabalhei com muita gente, geralmente casais, que se
encontram em vidas anteriores. Muitos reconhecem as suas almas
gmeas, viajando juntos atravs dos tempos para estarem mais
uma vez unidos na vida actual.
     Nunca antes me tinha deparado com almas gmeas que ainda
no se tivessem encontrado na vida presente. Neste caso, almas
gmeas que tinham viajado quase dois mil anos para estarem
novamente juntas. Tinham percorrido todo esse caminho. Estavam
a centmetros e a minutos um do outro, mas ainda no tinham
feito a conexo.
     Em casa, com as suas fichas arquivadas no meu gabinete,
tentei lembrar-me de algo que apontasse encontros noutras vidas.
No, no como monges. Uma histria, mas no duas, pelo menos
por enquanto. Tambm no nos caminhos de comrcio da ndia,
nem nos pntanos de mangues na Florida, nem nas Amricas
Espanholas infestadas de malria, nem na Irlanda, pelo menos at
ento. Estas eram as nicas vidas que conseguia recordar.
     Outro pensamento comeou a aparecer. Talvez tivessem
estado juntos em algumas ou todas essas vidas, mas no se
tivessem reconhecido um ao outro, porque nunca se tinham
encontrado no presente. Nesta vida no existia nenhum rosto,
nome, indicao, nada que permitisse a ligao com pessoas nas
encarnaes prvias.
     Ento lembrei-me da China Ocidental de Elisabeth, das velhas
e extensas plancies onde o seu povo tinha sido massacrado e
onde ela e outras raparigas tinham sido capturadas. Nessas
mesmas plancies, que Pedro indicou como sendo a Monglia, ele
tinha encontrado a sua famlia, os seus, o seu povo destrudo,
quando regressou.
                                                  S O AMOR  REAL - 103




     Pedro e eu tnhamos suposto que a sua jovem esposa tinha
sido morta no meio do caos, destruio e desespero descritos na
sua recordao. Mas no tinha. Tinha sido capturada e levada para
o resto da vida, nunca mais sendo defendida pelos fortes braos
do seu marido mongol.
     Agora aqueles braos tinha voltado atravs das incertas
nvoas do tempo para abra-la mais uma vez, para a apertar
docemente contra o peito. Mas eles ainda no o sabiam. Apenas
eu sabia.
     Pai e filha. Namorados de infncia. Marido e mulher. Quantas
mais vezes, atravs da histria, teriam eles partilhado as suas
vidas e o seu amor? Estavam de novo juntos, mas no sabiam.
     Ambos estavam ss, ambos sofriam ao longo dos seus
caminhos. Ambos morriam  mngua e, no entanto, havia um
banquete  sua espera, um banquete que eles no podiam cheirar
ou saborear.
     Eu estava severamente limitado pelas "leis" da psiquiatria, se
no pelas mais subtis regras do karma. A lei mais estrita  a da
privacidade ou da confidencialidade. Se a psiquiatria fosse uma
religio, quebrar a confidencialidade de um paciente seria um dos
seus pecados capitais. No mnimo, essa quebra seria considerada
procedimento condenvel. No podia falar de Elisabeth a Pedro,
nem de Pedro a Elisabeth. Qualquer que fosse o karma ou as
consequncias espirituais de intervir no livre arbtrio de outro, as
consequncias da violao da principal lei da psiquiatria eram
muito claras.
     As consequncias espirituais no me teriam detido. Podia
apresent-los e deixar que o destino seguisse o seu rumo. As
consequncias profissionais aterravam-me.
     E se eu estivesse errado? E se uma relao entre eles se
iniciasse, azedasse e acabasse mal? Podia surgir raiva e
amargura. Como  que isto se reflectiria nos sentimentos deles
em relao a mim como terapeuta em que confiavam? Haveria
retrocesso nos seus progressos clnicos? Iria todo o bom trabalho
teraputico ser desfeito? Existiam riscos bem definidos.
     Tambm tinha que examinar os meus motivos subconscientes.
Estaria a minha necessidade de ver os meus pacientes tornar-se
mais felizes e saudveis, de encontrar paz e amor nas suas vidas,
a afectar o meu juzo? Estariam as minhas prprias necessidades
a levar-me a atravessar a fronteira da tica psiquitrica?
     A opo mais fcil seria deixar tudo com estava, no dizer
nada. No havendo mal feito, no h consequncias. Na dvida,
no fazer nada.
     Escrever ou no Muitas Vidas, Muitos Mestres foi uma deciso
semelhante e muito difcil. Escrever o meu primeiro livro ps em
104 - BRIAN L. WEISS, M.D.




perigo toda a minha carreira profissional. Depois de quatro anos de
hesitao decidi escrev-lo.
     Mais uma vez, decidi arriscar. Iria intervir. Iria tentar empurrar o
destino. Como concesso ao meu treino e aos meus medos, iria faz-lo
o mais cuidadosa e subtilmente possvel.
     As cenas e pormenores de pocas histricas especficas
relembradas por Elisabeth, Pedro, e muitos outros dos meus doentes,
so muito semelhantes. Estas imagens no so necessariamente
como aquelas que aprendemos na catequese, nos livros de histria ou
na televiso.
     So semelhantes porque provm de memrias reais. Carolina
Gomez, a anterior Miss Colmbia e primeira dama de honor no
concurso de Miss Universo de 1994, recordou numa regresso ser um
homem nu esquartejado por cavalos de soldados romanos. Esta morte
 semelhante  recordada por Pedro. Alguns outros pacientes
lembram-se igualmente de mortes por esquartejamento, no apenas
no tempo dos Romanos, mas, infelizmente, tambm em muitas outras
culturas.
     Uma paciente minha do Colorado recordou ter sido raptada da
sua tribo nativa americana e nunca mais ter visto a sua famlia.
Eventualmente escapou, mas morreu no equivalente a uma
enfermaria para doentes mentais, no velho Oeste. Quo semelhante 
esta experincia  de Elisabeth na sia.
     O tema da separao e perda  comum nas regresses a vidas
passadas. Todos procuramos sarar as nossas feridas psquicas. Esta
necessidade de cura enfatiza a recordao de velhos traumas, que
causam a nossa dor e os nossos sintomas, em vez da recordao de
tempos serenos e pacficos que no deixam cicatrizes.
     Ocasionalmente, trabalho com duas ou mais pessoas ao mesmo
tempo. Quando o fao, no deixo que nenhum deles fale, uma vez que
poderiam perturbar-se uns aos outros. Recentemente, no meu
gabinete, fiz regredir um casal simultaneamente. As suas regresses
silenciosas tomaram todo o tempo da sesso e no tivemos tempo
para rever as suas experincias.
     O casal saiu do gabinete e comeou a comparar notas.
Incrivelmente, tinham vivido juntos uma vida passada. Ele tinha sido
um oficial ingls nas treze colnias, ela era uma mulher que ali vivia.
Conheceram-se e apaixonaram-se profundamente. Ele foi mandado
regressar a Inglaterra e nunca mais voltou para visitar o seu amor. Ela
ficou devastada com a perda e, no entanto, no havia nada que
qualquer um deles pudesse fazer. A sociedade colonial e os militares
ingleses seguiam estritas regras e costumes.
     Ambos viram e descreveram a mulher colonial nas mesmas
roupas antigas. Ambos descreveram o navio no qual ele tinha partido
das colnias para voltar para Inglaterra e a triste e dolorosa separao
                                                            S O AMOR  REAL - 105




que tinha ocorrido na altura. Todos os detalhes das suas recordaes
coincidiam.
     As suas memrias tambm ilustravam os problemas na sua
relao actual. Um grande problema era o medo quase obsessivo que
ela tinha da separao e a necessidade constante que ele sentia de
voltar e assegurar-lhe que no a abandonaria. O medo dela e a
necessidade dele no tinham qualquer razo de ser na realidade da
relao actual. O padro tinha as suas razes nos tempos coloniais.
     Outros terapeutas que usam a regresso a vidas passadas esto a
deparar-se com os mesmos resultados. Os traumas surgem mais
frequentemente que as memrias pacficas. As cenas de morte so
importantes, porque so frequentemente traumticas. As vidas
passadas parecem familiares e as cenas relevantes parecem
semelhantes, porque os mesmos temas e as mesmas invenes do
homem surgiram em todos os tempos e em todas as culturas.
     "O que aconteceu, de novo acontecer; e o que se fez, de novo
ser feito: debaixo do Sol no h nenhuma novidade." (Eclesiastes
1:9.)

21
                                               Acreditando como acredito na teoria do
                                 renascimento, vivo na esperana de que se no nesta
                                vida, talvez noutra qualquer possa vir a estreitar toda
                                                     a humanidade num abrao amigo.
                                                               MOHANDAS K. GANDHI

    Lutava   contra o tempo que me pressionava. Pedro estava
prestes a terminar a terapia e a mudar-se para o Mxico de vez.
Se Elisabeth e Pedro no se encontrassem em breve, ficariam em
pases diferentes e a probabilidade de se encontrarem nesta vida
diminuiria drasticamente. Os seus sentimentos de tristeza e
desgosto atenuavam-se. Os sintomas fsicos, como a qualidade do
sono, nveis de energia e apetite apresentavam melhorias em
ambos os pacientes.
     Mas a solido e o desalento em encontrar uma relao
amorosa satisfatria permaneciam intactos.
     Antecipando o trmino da terapia de Pedro, tinha reduzido a
frequncia das suas consultas para uma vez de quinze em quinze
dias. No me restava muito tempo.
     Dispus de maneira que as suas prximas consultas fossem
sequenciais, de forma que Pedro fosse atendido logo a seguir 
Elisabeth no horrio daquele dia. Toda a gente que saa e entrava
no meu gabinete tinha de passar pela sala de espera.
     Durante a sesso com Elisabeth, preocupava-me o facto de
Pedro poder faltar  consulta. Coisas acontecem - os carros
106 - BRIAN L. WEISS, M.D.




avariam, surgem emergncias, fica-se doente - e as consultas so
adiadas.
     Mas ele apareceu. Acompanhei Elizabeth  sala de espera.
Olharam um para o outro e os seus olhos demoraram-se mais do
que um momento. Pude sentir o sbito interesse, o vislumbre de
um mundo de possibilidades por baixo da superfcie. Ou seria
apenas um desejo da minha parte?
     A mente de Elisabeth rapidamente reassumiu o seu domnio
usual, dizendo-lhe que ela necessitava de ir, ditando-lhe o
comportamento apropriado. Voltou-se para a porta de sada e
deixou o consultrio.
     Acenei a Pedro e entrmos no meu gabinete.
     "Uma mulher muito atraente" comentou, enquanto se sentava
pesadamente na grande cadeira de couro.
     "Sim" respondi animadamente. "Tambm  uma pessoa muito
interessante."
     "Isso  bom" disse com um vago interesse. A sua ateno j
tinha comeado a divagar. Concentrou-se na tarefa de terminar as
nossas sesses e passar para a prxima fase da sua vida. Tinha j
empurrado o breve encontro com Elisabeth para fora da sua
mente.
     Nem Pedro nem Elisabeth deram seguimento quele encontro
na sala de espera. Nenhum deles pediu mais informao sobre o
outro. A minha manipulao tinha sido demasiado subtil,
demasiado vaga.
     Duas semanas mais tarde, decidi sequenciar de novo as
consultas. A no ser que decidisse ser mais directo e quebrar a
confidencialidade falando directamente a um deles ou a ambos,
esta seria a minha ltima oportunidade. Era a ltima consulta de
Pedro antes de partir.
     De novo olharam um para o outro quando a acompanhei 
sala de espera. Os seus olhos encontraram-se e demoraram-se
ainda mais desta vez. Pedro acenou com a cabea e sorriu.
Elisabeth sorriu de volta. Hesitou por um momento e ento voltou-
se para a porta e saiu.
     Confia em ti mesma! pensei, tentando recordar-lhe
mentalmente uma importante lio. Ela no respondeu.
     Mais uma vez, Pedro no deu seguimento. No me fez
qualquer pergunta sobre ela. Estava absorvido pelos pormenores
da sua mudana para o Mxico e terminou a terapia naquele dia.
     Talvez no esteja destinado a acontecer, pensei. Ambos
estavam melhor, apesar de no estarem felizes. Talvez isso fosse
o suficiente.
     Nem sempre casaremos com a alma a que estamos mais
fortemente ligados. Pode existir mais do que uma para ns, pois
as famlias de almas viajam juntas. Podemos decidir casar com
                                                 S O AMOR  REAL - 107




uma alma companheira  qual estamos menos ligados, uma que
tenha algo especfico para nos ensinar ou para aprender
connosco. O reconhecimento de uma alma gmea pode acontecer
mais tarde, depois de ambos estarmos comprometidos com as
famlias da vida actual. Ou a alma a que estamos mais fortemente
ligados pode ser um dos nossos pais, um filho, um irmo. Ou a
ligao mais forte pode ser com uma alma que no tenha
encarnado durante a nossa vida, mas que est a tomar conta de
ns do outro lado, como um anjo da guarda.
     Por vezes, a nossa alma gmea est disponvel e disposta a
uma relao. Ele ou ela podem reconhecer a paixo e a qumica
entre os dois, os laos ntimos e subtis que implicam ligaes ao
longo de muitas vidas. No entanto, ele ou ela podem ser
prejudiciais para ns.  uma questo de desenvolvimento de
almas.
     Se uma alma  menos desenvolvida e mais ignorante do que a
outra, traos de violncia, avareza, cime, dio e medo podem
surgir na relao. Estas tendncias so prejudiciais para a alma
mais     evoluda,   mesmo     vindo   de   uma    alma    gmea.
Frequentemente, fantasias de salvamento surgem com o
pensamento "Eu posso mud-lo; posso ajud-lo a crescer." Se ele
no permitir a nossa ajuda, se no seu livre arbtrio decidir no
aprender, no crescer, a relao est condenada.
     Talvez haja outra oportunidade noutra vida, a no ser que ele
acorde tarde, mas acorde, nessa mesma. Despertares tardios
tambm acontecem.
     Por vezes, as almas gmeas decidem no casar enquanto
encarnadas. Fazem por se conhecer, por se manter juntas at que
a tarefa acordada esteja cumprida e, ento, continuam. Os seus
projectos, os seus planos de aprendizagem para toda esta vida
so diferentes e no querem ou no precisam de passar a vida
juntas. O que no  uma tragdia, apenas uma questo de
aprendizagem. Tm a vida eterna juntas, mas por vezes
necessitam de participar em aulas separadas.
     Uma alma gmea que esteja disponvel, mas adormecida, 
uma figura trgica e pode causar grande angstia. Adormecida
significa que ele ou ela no v a vida claramente, no est
consciente dos vrios nveis de existncia. Adormecido significa
no saber nada sobre almas. Geralmente  a conscincia prtica
do quotidiano que impede o despertar.
     Ouvimos as desculpas da mente todo o tempo. Sou demasiado
jovem; necessito de mais experincia; ainda no estou pronto
para assentar; s de uma religio diferente (ou raa, regio,
estrato social, nvel intelectual, base cultural e assim
sucessivamente). Isto so desculpas, pois as almas no possuem
nenhum destes atributos.
108 - BRIAN L. WEISS, M.D.




     A pessoa pode reconhecer a qumica. A atraco est l em
definitivo, mas a origem da qumica no  compreendida. 
ilusrio acreditar que essa paixo, esse reconhecimento da alma,
essa atraco sejam facilmente encontrados de novo com outra
pessoa. No se tropea numa alma gmea todos os dias, talvez s
mais uma ou duas vezes numa vida. A graa divina pode
recompensar um bom corao, uma alma cheia de amor.
     Nunca nos devemos preocupar em encontrar a alma gmea.
Tais encontros so coisa do destino. Ocorrero. Depois do
encontro, reina o livre arbtrio de ambas as partes. Que decises
so ou no tomadas  uma questo de livre arbtrio, de escolha.
Os mais adormecidos tomaro decises baseados na mente e em
todos os seus medos e preconceitos. Infelizmente, isto muitas
vezes resulta em coraes partidos. Quanto mais desperto estiver
o casal, maior a probabilidade de uma deciso ser baseada no
amor. Quando os dois parceiros esto despertos, o xtase est ao
seu alcance.

22
                                          L-me,  Leitor, se te agrada ler-me,
                                                      porque muito raramente
                                                    regressarei a este mundo.
                                                         LEONARDO DA VINCI

     Felizmente, mentes mais criativas do que a minha estavam a
conspirar habilmente, das sublimes alturas, para conseguir um
encontro entre Pedro e Elisabeth. O reencontro estava
predestinado. O que se passasse em seguida seria com eles. Pedro
ia em viagem de negcios a Nova Iorque. Depois de alguns dias
ali, devia partir para Londres para duas semanas de negcios e
frias antes de voltar para o Mxico. Elisabeth ia a Boston para
uma reunio de negcios e depois faria uma visita  sua
companheira de quarto da faculdade. Iam viajar na mesma
companhia area, mas em momentos diferentes.
     Quando chegou  porta de embarque do aeroporto, Elizabeth
soube que o seu voo para Boston tinha sido cancelado.
Dificuldades mecnicas, disseram-lhe. O destino em aco.
     Ficou aborrecida. Teria que telefonar  amiga e alterar os
planos. A companhia area podia lev-la at Newark e da podia
apanhar a ligao para Boston, cedo, no dia seguinte. Tinha uma
reunio de negcios importante logo de manh a que no podia
faltar. Sem o saber, estes novos planos punham-na no mesmo voo
do Pedro. Ele j l estava  espera da chamada do seu voo quando
ela se aproximou da porta de embarque. Notando a sua presena
pelo canto do olho, ele observou-a atentamente a fazer o check in
no balco e, depois, a sentar-se na sala de espera. Ela ocupou
                                                 S O AMOR  REAL - 109




inteiramente a sua ateno. Reconheceu-a dos breves encontros
na minha sala de espera.
     Um sentimento de familiaridade, de interesse, inundou-o.
Estava concentrado em Elizabeth enquanto ela abria um livro.
Observava o seu cabelo, as suas mos, as suas atitudes e
movimentos. Parecia-lhe to familiar! Ele tinha-a visto apenas por
momentos na sala de espera. Porqu, portanto, esta sensao de
familiaridade? Provavelmente j se tinham conhecido algures,
antes dos encontros no consultrio. Deu voltas  cabea para
encontrar a memria escondida desse lugar.
     Ela    sentiu-se    observada,     mas    isto   acontecia-lhe
frequentemente. Tentou concentrar-se na leitura. Era difcil depois
da apressada mudana de planos, mas a prtica de meditao
ajudava. Conseguiu limpar a sua mente e concentrar-se no livro.
     Mas a sensao de estar a ser observada persistia. Olhou para
cima e viu-o a fix-la. Franziu o sobrolho, mas depois sorriu
quando o reconheceu dos esquivos encontros na sala de espera.
Instintivamente, sabia que aquele homem era seguro. Mas como 
que o podia saber?
     Olhou para ele mais um momento e voltou a tentar
concentrar-se no livro, mas desta vez completamente incapaz de o
fazer. O corao comeou a bater mais depressa e a respirao
acelerou. Ela sabia para alm de qualquer dvida que ele estava a
ser atrado para ela e que em breve a abordaria.
     Podia senti-lo a aproximar-se. Ele apresentou-se e comearam
a falar. A atraco era mtua, imediata e muito forte. Alguns
minutos depois ele sugeriu que trocassem os lugares no avio
para poder ir juntos.
     Eram mais do que conhecidos antes do avio levantar voo.
Pedro parecia-lhe to familiar. Ela sabia claramente como ele se
moveria, o que diria. Elisabeth era muito intuitiva em criana. Os
valores e crenas da sua educao conservadora do oeste central
tinham recalcado os seus talentos intuitivos, mas agora todas as
suas antenas estavam de p e a funcionar em pleno.
     Pedro no podia desviar os olhos do rosto dela. Nunca se tinha
sentido to cativado pelos olhos de algum. Os dela tinham uma
tal claridade e profundidade. Azul do cu com um anel de azul
escuro a circund-los, pequenas ilhas cor de avel a flutuar no
mar azul que o engolia.
     Mentalmente, ouviu mais uma vez as palavras da angustiada
mulher de vestido branco, a mulher que tinha aparecido no seu
sonho recorrente.
     "D-lhe a mo... estende-lhe a mo."
     Hesitou. Queria segurar-lhe a mo. Ainda no, pensou. Mal a
conheo.
110 - BRIAN L. WEISS, M.D.




      Algures, perto de Orlando, o mau tempo comeou a sacudir o
avio enquanto este sulcava os cus nocturnos. Uma sbita
turbulncia assustou-a e uma breve expresso de ansiedade
atravessou-lhe o rosto.
      Pedro notou-o de imediato e a sua mo agarrou a dela para a
reconfortar. Sabia que o faria.
      O seu corao foi sacudido como que por uma corrente
elctrica, naquele instante.
      Elisabeth podia sentir vidas passadas a ser despertadas pela
corrente.
      A conexo estava feita.
      Quando tomamos decises importantes devemos escutar o
nosso corao, a nossa prpria sabedoria intuitiva, especialmente
ao decidir sobre um presente do destino, como uma alma gmea.
O destino depor o seu presente precisamente aos nossos ps,
mas o que faremos em seguida com esse presente cabe-nos a ns
decidir. Se nos basearmos exclusivamente nos conselhos dos
outros, poderemos cometer erros terrveis. O nosso corao sabe
do que necessitamos. Outras pessoas podem ter outros projectos.
      O meu pai, bem intencionado, mas parcialmente cego pelos
seus medos, foi contra os meus planos de casar com Carole.
Quando olho para trs, constato que Carole foi um dos
maravilhosos presentes do destino, uma alma companheira
atravs dos sculos, surgindo de novo como uma bonita rosa a
florescer na sua estao.
      O nosso problema era sermos demasiado jovens. Quando a
conheci tinha apenas dezoito anos e acabava o meu ano de caloiro
na Columbia. Carole tinha dezassete, estava quase a comear a
faculdade. Depois de alguns meses sabamos que queramos ficar
juntos para sempre. No tinha vontade de sair com mais ningum,
apesar dos avisos da famlia de que ramos muito jovens, que eu no
tinha experincia suficiente para tomar uma deciso para a vida to
crtica. Eles no entendiam que o meu corao tinha a experincia
dos incontveis sculos, que eu tinha a certeza, para alm de
qualquer compreenso racional. Era inconcebvel que no ficssemos
juntos.
      A linha de raciocnio do meu pai era clara. Se eu e Carole
casssemos e tivssemos um filho, eu poderia ter de largar os
estudos, e as minhas esperanas de me tornar mdico seriam
destrudas. De facto, isso tinha acontecido ao meu pai. Ele tinha
estudado medicina na Faculdade de Brooklyn durante a II Guerra
Mundial, mas o meu nascimento tinha-o obrigado a ir trabalhar
depois de cumprir o servio militar. Nunca voltou  faculdade de
medicina, e os seus sonhos de ser mdico nunca se concretizaram.
Esses sonhos tornaram-se na frustrao amarga de um potencial no
                                                           S O AMOR  REAL - 111




realizado, sempre presente, e o inerente receio era gradualmente
transferido para os seus filhos.
     O amor dissipa o medo. O nosso amor eliminou lentamente os
seus medos e a projeco destes em ns. Acabmos por casar aps o
meu primeiro ano na faculdade de medicina, quando Carole acabou o
secundrio. O meu pai passou a amar Carole como a uma filha e
abenoou o nosso casamento.
     Quando as nossas intenes, o nosso sentimento visceral, o
nosso corao espiritual nos dizem o mesmo, para alm de qualquer
dvida, no nos devemos deixar persuadir pelos argumentos
baseados nos medos dos outros. Por vezes com boas intenes, outra
vezes nem com elas, podem fazer-nos perder para sempre a nossa
alegria.

23
                                  No  mais surpreendente ter-se nascido duas vezes
                                             do que apenas uma; tudo na Natureza 
                                                                        ressurreio.
                                                                           VOLTAIRE

    Elisabeth    telefonou-me de Boston. Tinha prolongado as suas
frias. Pedro tinha voltado de Londres logo depois de ter concludo o
seu negcio. Tambm estava em Boston para estar com Elisabeth. J
estavam apaixonados.
     Tinham comeado a comparar as suas experincias de vidas
passadas que ambos recordavam vividamente. Estavam a descobrir-
se um ao outro novamente.
     "Ele  realmente especial" comentou ela. "A Elizabeth tambm"
lembrei-a.
     No seguimento das minhas experincias com Elisabeth e Pedro,
o exerccio da minha profisso deu um salto indescritivelmente belo
para o campo mstico e mgico. Quando conduzo grandes
workshops nos quais cada participante tem a oportunidade de
experimentar estados de hipnose e relaxamento profundos, a
frequncia de acontecimentos mgicos aumenta dramaticamente.
     A gama de experincias vai muito para alm de vidas passadas e
reencarnaes. Acontecimentos espirituais e msticos de grande
beleza surgem com frequncia e com o poder de transformar a vida.
Fui abenoado pelo dom de tomar possveis estes acontecimentos.
Eis o que se passou num perodo de duas semanas.
     Uma reprter de um jornal local participou numa srie de fim-
de-semana de seminrios e workshops em Boston. Escreveu o
seguinte:
     Muitas pessoas nos workshops de Weiss de regresso a vidas
passadas relatam experincias emocionais e espirituais profundas.
Um dos exerccios foi particularmente dramtico.
112 - BRIAN L. WEISS, M.D.




     Weiss tinha apagado as luzes na sala e pedido a toda a gente
para encontrar um parceiro. Instruiu os pares para olhar um para o
outro durante vrios minutos enquanto ele conduzia a meditao
com a sua voz.
     Quando o exerccio terminou, duas mulheres que nunca se
tinham conhecido revelaram o facto de cada uma se ter visto
como irm da outra.
     Uma mulher disse que via repetidamente uma freira na face
da sua parceira. Quando o disse a esta, a mulher replicou que na
sesso do dia anterior tinha tido a recordao de uma vida
passada na qual havia sido freira.
     Mais espantoso foi uma mulher da regio que viu na face da
sua parceira o seu irmo de dezanove anos e meio que tinha
morrido na Segunda Guerra Mundial. Esta era uma jovem vinda do
Wisconsin que explicou que tambm ela tinha tido no dia anterior
a recordao de uma vida passada em que era um rapaz de
dezanove anos e meio com botas da tropa e uniforme de combate,
morto numa guerra que teria que ter ocorrido antes da do
Vietname. A cura vivida pela mulher da regio era palpvel na
sala.
     "O amor dissipa a raiva" disse Weiss. "Essa  a parte
espiritual. O Valium no o faz. O Prozac no o faz."
     E o amor cura a dor.
     A brilhante psicoterapeuta, biloga celular e autora, Dra. Joan
Borysenko, estava de p ao meu lado, participando na minha
palestra sobre "Implicaes Espirituais da Terapia atravs de Vidas
Passadas", na conferncia de Boston.
     Os seus olhos azuis piscavam enquanto ela contava uma
histria passada h dez anos. Nessa altura, ela era uma
investigadora muito conceituada na Faculdade de Medicina de
Harvard. Durante uma conferncia sobre nutrio, a decorrer num
hotel de Boston, em que Joan era uma das oradoras, aconteceu
encontrar o seu chefe que participava numa conferncia mdica
no mesmo hotel. Ele ficou surpreendido por v-la ali.
     De volta ao trabalho, ameaou-a. Se mais alguma vez ela
utilizasse o nome da Universidade de Harvard para um assunto
to frvolo como uma conferncia sobre nutrio, no trabalharia
mais em Harvard.
     Os tempos mudaram muito desde essa poca, mesmo em
Harvard. No s a nutrio  actualmente uma rea importante de
ensino e investigao, mas tambm alguns membros do corpo
docente de Harvard confirmam e desenvolvem o meu trabalho de
terapia por regresso a vidas passadas.
     No fim-de-semana seguinte dirigi um seminrio de dois dias
em San Juan, Porto Rico. Cerca de quinhentas pessoas
participaram e mais uma vez houve magia. Muitas pessoas
                                                 S O AMOR  REAL - 113




recordaram experincias da primeira infncia, intra-uterinas e
vidas passadas. Um participante, um psiquiatra forense respeitado
em Porto Rico, foi ainda mais longe.
     Durante uma meditao guiada no segundo dia da
conferncia, os seus olhos interiores aperceberam-se da imagem
enevoada de uma mulher jovem. Ela aproximou-se dele.
     "Diz-lhes que estou bem" pediu. "Diz-lhes que a Natasha est
bem."
     O psiquiatra sentiu-se "muito idiota" enquanto relatava a sua
experincia a todo o grupo. Afinal, ele nem conhecia ningum que
se chamasse Natasha. O prprio nome  uma raridade em Porto
Rico. E a mensagem referida pela fantasmagrica rapariga no
tinha qualquer relao com nada que se estivesse a passar na
conferncia ou na sua prpria vida.
     "A mensagem tem algum significado para algum aqui
presente?" perguntou o psiquiatra  audincia.
     De repente, uma mulher gritou do fundo do auditrio. "A
minha filha, a minha filha!"
     A sua filha, que tinha morrido subitamente h apenas seis
meses com pouco mais de vinte anos, chamava-se Ana Natlia. A
me, e apenas a me, chamava-lhe Natasha.
     O psiquiatra nunca tinha conhecido ou ouvido falar de
Natasha ou da sua me. Estava to desconcertado com esta
experincia quanto a me. Quando ambos recobraram a
compostura, a me de Natasha mostrou-lhe uma fotografia da
filha. O psiquiatra empalideceu. Aquela era exactamente a mulher
jovem cuja nublada figura se tinha aproximado dele com a sua
espantosa mensagem.
     No fim-de-semana seguinte, dei uma conferncia na cidade do
Mxico. Mais uma vez, magia maravilhosa brotava a toda a volta.
A sensao familiar de excitao acontecia com espantosa
regularidade.
     Depois da meditao, uma mulher na audincia comeou a
chorar de alegria. Tinha acabado de viver a recordao de uma
vida passada na qual o seu actual marido era seu filho. Esta
mulher tinha sido um homem na Idade Mdia e, nessa poca como
pai, tinha-o abandonado. Na sua vida actual, o marido receava
constantemente que ela o deixasse. Este medo no tinha uma
base racional na vida presente. Ela nunca tinha ameaado deix-
lo. Tentava constantemente acalm-lo, mas a sua enorme
insegurana devastava a sua vida e envenenava a sua relao.
     Agora, ela compreendia a verdadeira causa do terror do
marido. Correu a telefonar-lhe, explicando-lhe o que se tinha
passado e assegurando-lhe que nunca voltaria a abandon-lo.
     s vezes, os problemas nas relaes podem ser resolvidos
com uma rapidez incrvel.
114 - BRIAN L. WEISS, M.D.




     No fim do segundo dia do seminrio, enquanto autografava os
meus livros, uma mulher atravessou a fila, chorando suavemente.
"Muito obrigada!" sussurrou enquanto pegava na minha mo. "No
sabe o que fez por mim!
     "H dez anos que tenho dores fortssimas na parte superior
das costas. Fui a mdicos aqui, em Houston e em Los Angeles.
Ningum foi capaz de me ajudar e sofri de forma terrvel. Ontem,
na regresso, vi-me como sendo um soldado a ser apunhalado nas
costas, mesmo abaixo do pescoo. Mesmo onde est a minha dor.
A dor desapareceu pela primeira vez em dez anos e ainda no
voltou!"
     Ela estava to feliz que no conseguia parar de rir e de chorar
ao mesmo tempo.
     Ultimamente, tenho dito s pessoas que a terapia por
regresso pode demorar semanas ou meses at funcionar, que
no devem desanimar, pois o processo parece fazer-se
lentamente. Esta senhora mostrou-me que os progressos podem
ser incrivelmente rpidos.
     Enquanto ela se afastava, pensei que outros milagres traria o
futuro.
     Quanto mais vejo os meus pacientes e participantes de
workshops recordar memrias das suas vidas passadas, e quanto
mais vezes testemunho as suas experincias mgicas e msticas,
mais tenho presente que o conceito de reencarnao  apenas
uma ponte.
     Os resultados teraputicos ao atravessar esta ponte esto
fora de questo. As pessoas melhoram mesmo que no acreditem
em vidas passadas. A crena do terapeuta tambm no 
importante. Memrias so descobertas e os sintomas resolvidos.
     Contudo, muitas pessoas concentram-se na ponte, em vez de
tentar encontrar o que est para l dela! Ficam obcecadas por
pequenos detalhes, nomes, precises histricas. Toda a sua
ateno se concentra em descobrir o maior nmero de
pormenores do maior nmero possvel de vidas passadas.
     Esto a perder de vista a floresta por excesso de ateno
numa rvore. A reencarnao  uma ponte para um
conhecimento, sabedoria e compreenso maiores. Recorda-nos o
que levamos e no levamos connosco, a razo por que estamos
aqui e o que devemos realizar de forma a continuar. Lembra-nos a
incrvel ajuda e orientao ao longo do caminho e os nossos entes
queridos que regressam connosco para partilhar os nossos passos
e aliviar os nossos fardos.

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                                                                          S O AMOR  REAL - 115




                                            Dando por mim a existir neste mundo, tenho de acreditar
                                         que de uma forma ou de outra sempre existirei; e, apesar de
                                               todos os inconvenientes inerentes  vida humana, no
                                        objectarei a uma nova edio da minha, esperando, contudo,
                                                    que os erros da edio anterior sejam corrigidos.
                                                                                 BENJAMIN FRANKLIN

    Ao    longo dos anos, muitos dos meus pacientes tornaram-se
meus professores. Constantemente me oferecem memrias das
suas histrias e experincias, ddivas do seu conhecimento e
compreenso espiritual. Alguns tornaram-se amigos estimados que
comigo partilham as suas vidas bem como as suas conquistas.
     H anos atrs, antes de Muitas Vidas, Muitos Mestres ser
publicado, mas j depois do meu trabalho com Catherine e dzias
de outros pacientes em que usei a regresso, uma doente
transmitiu-me duas mensagens. Tinha-as recebido em sonhos e
escreveu-as ao acordar. Vinham de Philo, algum que eu tambm
tinha visto em sonhos e mais tarde identifiquei no meu primeiro
livro. Esta paciente no sabia destes meus sonhos. A "coincidncia"
do mesmo nome era interessante.
     Viriam as mensagens do seu subconsciente? De uma fonte
exterior, como Philo? De uma memria esquecida de alguma coisa
que ela tenha lido ou ouvido anteriormente. naquela vida? Talvez
no tenha importncia. Parafraseando a minha filha, Amy: "O real 
uma questo de existncia, e existiu na mente dela." As minhas
mensagens de Philo tambm falavam da mente.
     Para BLW. A mente em cada um de ns pode compreender todas as outras coisas, mas  incapaz
     de se conhecer a si mesma. No diz o que  nem de onde vem, se  esprito ou sangue ou fogo ou
     uma outra substncia ou se apenas , se  corprea ou incorprea.
     Desconhecemos quando a alma entra no corpo. Tens feito um bom trabalho orientando seres a
     reconhecer esse momento.  um bom princpio.
     Teu amigo, Philo

    A outra mensagem veio uma semana depois e falava sobre a
natureza de Deus.
     Para BLW. Tambm devemos lembrar-nos de que o Ser transcendente  a causa nica, o pai e
     criador do Universo. Que ele enche todas as coisas no apenas com o Seu pensamento, mas
     tambm com a Sua essncia.
         A Sua essncia no esgota o Universo. Ele est acima e alm deste.
     Podemos dizer que apenas os Seus poderes esto no universo. Mas apesar de Ele estar acima dos
     Seus poderes, Ele inclui-os. O que eles fazem, Ele f-lo atravs deles.
         Agora esto visveis, a trabalhar no mundo. Da sua actividade, temos uma indcio para a
     natureza de Deus.
     Ides Philo

     Consigo discernir grandes verdades nestas palavras, seja qual
for a sua fonte.
116 - BRIAN L. WEISS, M.D.




    Tenho conhecido parapsiclogos e mdiuns famosos, padres e
gurus, e aprendi muitas coisas com eles. Alguns so incrivelmente
talentosos, outros no.
    Tornou-se evidente para mim que no existe uma correlao
directa entre capacidades psquicas e nvel de evoluo espiritual.
    Recordo uma conversa que tive com Edgar Mitchell, o
conhecido astronauta e investigador de fenmenos paranormais.
No seu laboratrio, Edgar estudou um parapsiclogo famoso que
podia interferir com as energias, conseguindo mover a agulha de
uma bssola atravs de um campo magntico e mesmo deslocar
objectos com o poder da sua mente, um fenmeno conhecido por
telecinesia. Apesar destas capacidades psquicas obviamente
avanadas, Edgar notou que o carcter e a personalidade deste
parapsiclogo no eram, decididamente, consistentes com um
elevado nvel de conscincia espiritual. Ele foi o primeiro a fazer-
me notar que capacidades psquicas e desenvolvimento espiritual
no esto necessariamente ligados.
    Acredito que as capacidades psquicas de algumas pessoas
aumentam  medida que evoluem espiritualmente,  medida que
se tornam cada vez mais conscientes. Isto  mais uma aquisio
acidental do que um passo essencial. O ego de um indivduo no
deve envaidecer-se apenas porque o nvel das suas capacidades
psquicas aumenta. O objectivo  aprender sobre amor e
compaixo, sobre bondade e caridade, e no tomar-se um
parapsiclogo famoso.
    At os terapeutas podem aumentar as suas capacidades
psquicas, se o permitirem, enquanto trabalham com os seus
pacientes. Por vezes posso captar impresses psquicas,
conhecimento      intuitivo, ou    mesmo      impresses     fsicas,
relacionados com o paciente sentado na confortvel cadeira 
minha frente.
    H alguns anos atrs tratei uma jovem judia que estava
extremamente desanimada. Sentia-se deslocada, como se de
alguma forma estivesse na famlia errada. O centro das palmas
das minhas mos comeou a doer de forma aguda enquanto
falava com ela, e eu no percebia porqu. Olhei para os braos da
minha cadeira de couro. No havia falhas no couro, nenhuma
ponta afiada, nenhuma razo para este tipo de dor. No entanto,
esta ia-se tornando pior e comeava a picar e a arder. Olhei para
as minhas mos e no vi marcas ou impresses, nenhum corte,
nenhuma razo para tal.
    Ento um pensamento atravessou subitamente o meu
esprito. Isto  como ser crucificado. Decidi perguntar-lhe o que
queria aquilo dizer. "O que  que a crucificao significa para si?
Voc tem alguma ligao com Jesus?" Ela limitou-se a olhar-me, o
seu rosto empalideceu. Costumava ir em segredo  Igreja desde
                                                         S O AMOR  REAL - 117




os oito anos. Nunca tinha contado aos pais sobre a impresso que
tinha de ser catlica na realidade.
     Esta sensao nas minhas mos e a conexo que tnhamos
estabelecido permitiram-me ajudar a minha paciente a desfazer a
intrincada confuso da sua vida e a faz-la entender que no era
louca nem bizarra, e que os seus sentimentos tinham uma base
real. Ela comeou, finalmente, a compreender e a sarar. Afinal,
acabmos por descobrir uma intensa vida passada que tinha
decorrido na Palestina h dois mil anos atrs.
     Todos somos paranormais e todos somos gurus. Apenas nos
esquecemos disso.
     Um paciente pediu-me informaes sobre Sai Baba, um
grande Homem Santo na ndia. Seria ele um avatar, uma
encarnao divina, uma descida da divindade  Terra sob a forma
de homem?
     "No sei" repliquei, "mas, de certa forma, no o somos
todos?" Todos somos deuses. Deus est dentro de ns. No
devamos ser distrados por habilidades psquica, pois estas so
apenas sinais ao longo do caminho. Precisamos de expressar a
nossa divindade e o nosso amor atravs de boas aces, de ajuda
aos outros.
     Talvez ningum devesse ser o guru de outro por mais de um
ms ou dois. No so necessrias viagens frequentes  ndia, uma
vez que a verdadeira viagem  interior.
     Existem benefcios evidentes em viver as nossas prprias
experincias transcendentes, em abrirmo-nos para a percepo do
divino, para a compreenso de que a vida  muito mais do que
aquilo que vemos. Demasiadas vezes no acreditamos se no
virmos.
     O nosso caminho  interior. Esse  o caminho mais difcil, a
viagem mais dolorosa. Temos a responsabilidade da nossa prpria
aprendizagem.
     Essa responsabilidade no pode ser exteriorizada e
descarregada noutra pessoa, num guru qualquer.
     O reino de Deus est dentro de ns.

EPLOGO
                                 Estou certo de que j aqui estive mil vezes antes,
                                          tal como estou agora, e espero regressar
                                                                   mil vezes mais.
                                                                           GOET HE

    De vez em quando, tenho notcias de Elisabeth e Pedro. Tm
um casamento feliz e vivem no Mxico, onde Pedro se envolveu na
poltica, para alm dos seus negcios. Elisabeth cuida da sua linda
118 - BRIAN L. WEISS, M.D.




menina, que tem cabelo castanho comprido e adora apanhar
flores do jardim e perseguir borboletas que esvoaam  volta dela.
     "Obrigada por tudo" escreveu recentemente Elisabeth.
"Estamos to felizes, e devemos tanto de tudo isto a si."
     No creio que eles me devam alguma coisa. No acredito em
coincidncias. Ajudei-os a conhecerem-se, mas ter-se-iam
encontrado de qualquer forma, mesmo sem mim.  assim que o
destino funciona.
     Quando lhe permitem fluir livremente, o amor ultrapassa
todos os obstculos.
                                                          S O AMOR  REAL - 119




     O Dr. Weiss mantm o seu consultrio particular em Miami,
Florida, onde ampliou as instalaes para admitir psiclogos e
assistentes sociais altamente especializados e experientes, que
tambm utilizam a terapia por regresso no seu trabalho. Para alm
disso, o Dr. Weiss dirige seminrios e workshops experimentais no
pas e no estrangeiro, bem como programas de treino para
profissionais. J gravou uma srie de cassetes com indicaes sobre
tcnicas de meditao, cura, relaxamento profundo, regresso, e
outros exerccios de visualizao.




                      http://livroespirita.4shared.com/
